A casa do penhasco



Este livro foi digitalizado por Katia Oliveira, e corrigido em Maro de
2002.
Se voc gosta de obras no mesmo estilo, escreva para
katiaoliveira@uol.com.br
Terei prazer em atende-lo se possvel.]

Vera Lcia Marinzeck de

Carvalho
II
        editora
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Romance do Esprito
Antnio Carlos
Psicografado pela mdium
Outros livros psicografados pela mdium Vera Lcia Marinzeck de Carvalho:
Com o esprito Antnio Carlos
- Reconciliao
- Cativos e Libertos
- Copos que Andam
- Filho Adotivo
- Reparando Erros
- A Manso da Pedra Torta
- Palco das Encarnaes
- Aconteceu
- Muitos so os Chamados
- O Talism Maldito
- Aqueles que Amam
- O Dirio de Luizinho (infantil)
- Novamente Juntos Com o esprito Patrcia
- Violetas na Janela
- Vivendo no Mundo dos Espritos
- A Casa do Escritor
- O Vo da Gaivota
Com o esprito Rosngela
- Ns, os Jovens
- A Aventura de Rafael (infantil)
O Sonho de Patrcia (infantil) Com o esprito Jussara
- Cabocla
Com espritos diversos
- Valeu a Pena!
- Perante a Eternidade
- Deficiente Mental: Por que Fui Um?
Livros em outros idiomas
- Violetas eu la Ventana
- Violets by my Window
- Reconciliacin
A Vanessa, minha filha, com todo meu amor
de me.
Vera.
Primavera de 2000.
sumrio
1 A Mudana        9
2 Osvaldo 22
3 Apavorando Henrique 32
4 Acontecimentos Desagradveis 44
5 A Histria Real 56
6 Orientando 68
7 A Histria de Anglica 81
8 A Brincadeira do Copo 92
9 Carmelo 108
10 Uma Histria Interessante 117
11 Com os Filhos 130
Anglica olhou as caixas, malas e roupas que estavam em cima da cama e 
suspirou.
"Como mudana d trabalho!"
Teve vontade de cobrir o enorme espelho da penteadeira,
mas no o fez.
"Posso no me ver no espelho, mas as pessoas me vem"
- pensou.
Preferia lembrar de sua imagem antes, com os cabelos
louros avermelhados, lisos, macios e compridos. Balanou
a cabea.
"Eles crescero de novo!" - Falou baixinho.
Escutava muito isso e ansiava por t-los novamente. Mas o que importava, 
o que doa, era
que naquele momento ela no os tinha. A peruca a incomodava, por isso 
usava leno na
cabea, tinha-os de diversas cores, sua me os comprara. Mas, mesmo muito 
vaidosa, estar
sem cabelos no era o pior. No podia nem lembrar dos enjos, vmitos, da 
fraqueza ter
terrvel que sentia aps o medicamento.
"Ficarei curada! Ser?" - Balbuciou, estranhando a prpria
voz.
"R, r, r, moa careca! Que feio!"
Disse rindo algum que era invisvel  mocinha, mas ela
sentiu a vibrao, passou a mo pela cabea e sussurrou:
"Se algum me vir assim ir rir."
A
Mudana
9
Colocou o leno. Teve a impresso de que tinha algum
atrs dela e virou-se, no viu ningum. Uma gaveta que
acabara de fechar estava aberta.
"Que coisa! Fechei-a, tenho certeza!" - E a fechou
com fora.
"R, r, r..."
Teve a impresso de que algum rira.
- Anglica! - Gritou seu irmo, Henrique, entrando no quarto.
- Voc me assustou! Isso so modos de entrar no quarto? - Resmungou a 
mocinha.
- Desculpe-me, no queria assust-la. Vim ver se precisa de ajuda. Gostou 
da casa? Dos
mveis novos? Seu quarto
est bonito!
- Gostei de tudo! Sempre quis ter um quarto s para mim - expressou 
Anglica.
- Esta casa tem muitos quartos, todos grandes. A sute para papai e 
mame, o quarto da
Fabiana, o seu, ainda outro para hspede e o meu, que tambm  grande e 
bonito. Foi um
achado esta casa, voc no acha?
- E ainda no  longe da cidade - falou Anglica.
- So quinze quilmetros. Na outra cidade em que morvamos a escola 
ficava a trinta
quilmetros. Voc vai gostar daqui, maninha, O ar  to puro! Mas voc 
resmungava
quando
entrei. O que foi?
- Tinha a certeza de que fechei a gaveta, virei e ela estava aberta.
- Xi, no sei no, no queria falar, mas... - Henrique fez uma cara de 
suspense.
-Agora fale!
- Fantasmas, creio que nesta casa tem fantasmas.
- Ora, Henrique! No venha com besteira. Voc acredita nisso?
- No sei! No acreditava, mas agora j no sei. Anglica, vamos 
analisar. Papai alugou
esta bela casa, neste lindo lugar, perto da cidade e do mar,  s descer 
o morro e temos
praias lindas dos dois lados, por um preo baixo. A imobiliria
alegou que o dono queria uma famlia para morar e no para temporada, 
como se
alugam muitas casas por aqui. No d para desconfiar de que tem algo 
estranho? Desde que
viemos para c tenho visto e ouvido coisas inexplicveis, barulhos 
esquisitos, parece
ronco, no sei explicar o que seja. Bem, deixemos isso para l, estou 
contente porque voc
veio e gostou daqui, eu tambm estou gostando. A escola  boa e j fiz 
amigos. E olhe a
minha cor,  de ir  praia.
Anglica olhou para o irmo enquanto ele falava. Henrique era bonito, 
tinha quatorze anos,
era forte e alto para sua idade, mas ainda o sentia como criana, seus 
cabelos eram como os
dela, avermelhados, olhos grandes e olhar esperto. Ele viera antes com o 
pai, Roberto; a
me, Dinia, tinha ficado com ela no hospital. Quando teve alta ficou na 
casa da av e a
me veio. S quando sentiu-se bem que veio, isso na tarde anterior. 
Estava arrumando seus
pertences no enorme quarto.
- De fato a casa  bonita! A Casa do Penhasco! - Exclamou Anglica.
- Como sabe o nome dela? - Indagou Henrique.
- Li a placa da entrada - disse rindo a mocinha.
- Vamos descer, Anglica, deixe para arrumar isso depois, quero lhe 
mostrar os dois
cachorros que papai comprou
para mim.
- Ento ganhou cachorros? Realizou seu sonho - falou rindo a irm.
- Aqui  perfeito, ou quase, espero que o fantasma no
atrapalhe.
Henrique pegou na mo da irm e saram rindo. Algum
que os observava resmungou:
"No quero ningum nesta casa, se tenho de ficar aqui,
que seja sozinho!"
E a porta do quarto bateu com fora.
-  o vento! - Exclamou Anglica.
- Mas no est ventando... - Falou Henrique.
- Vamos ver seus cachorros!
Anglica arrepiou-se, tentou continuar sorrindo, no quis dar ateno ao 
fato de a porta ter
batido nem aos arrepios,
queria participar do entusiasmo do irmo e foi com ele ver
os cezinhos.
Henrique havia feito um cercado do lado direito da casa,
fez um canil para os dois filhotes. Anglica os achou lindos,
pegou-os.
- Que bonito, Henrique! Que animais lindos!
Levantou a cabea e olhou, a casa era to majestosa, no meio das pedras e 
da vegetao.
Era um sobrado pintado recentemente de branco e azul, com vrias janelas 
pequenas sem
beirais, algumas com vitrais coloridos, no tinha nenhuma sacada, era uma 
construo
antiga, bem feita, dessas de resistir ao tempo.
"Deve guardar muitas histrias..." - Pensou a mocinha,
continuando a observar a casa.
Os quartos e banheiros ficavam no andar superior, em baixo as salas e 
cozinha, a entrada
dava para um hall onde ficavam as diversas portas para as salas e a 
escada. A casa era bem
repartida, os cmodos grandes e arejados. Sentiu que algum a observava e 
teve a
impresso de ver um vulto
numa das janelas. Quando olhou de novo, no viu mais nada. Anglica 
manteve um
cachorrinho nos braos e Henrique
pegou o outro, eram animaizinhos fofos, brancos com pintas
pretas. Foram para a cozinha.
- Bom dia, Nena! - Exclamou a mocinha.
- Bom dia, estou fazendo o doce que gosta, vou aliment-la bem e voc 
logo estar como
antes.
- No exagere, quero voltar ao meu peso, mas no engordar. E a, dona 
Filomena, gostou
daqui?
- Menina, no me chame assim, seno adeus doce - riu a empregada.
Filomena, que todos chamavam de Nena, estava com eles
havia muito tempo, era uma mulata bondosa, trabalhadeira,
era como se fosse da famlia. Quando mudaram ela foi junto.
- E ento, gostou daqui, Nena? - Insistiu Anglica.
- Gostei! O clima  muito bom: mar, montanha e sol. Venha ver meu quarto!
Da cozinha saram por um corredor e l estava o apartamento de Nena, 
grande e arejado.
12
- Que bonito! - Exclamou Anglica. - Est bem insta lada. Nena, o servio 
deve ter 
aumentado muito, voc tem
dado conta? Mame tem ajudado?
- Dona Dinia recebeu muitas encomendas. Est trabalhando bastante. 
Senhor Roberto 
contratou uma faxineira
da cidade, ela vem todas as segundas-feiras.
- Ser que ela vir de novo? - Intrometeu-se Henrique. - Ela est com 
medo das 
coisas estranhas que acontecem por aqui. Ouvi-a resmungar, quis que eu 
ficasse na sala da 
frente com ela enquanto limpava. Deu graas a Deus quando terminou o 
trabalho e mame 
a pagou.
- Henrique, pare com isso! No se deve ter medo de alma penada - falou 
Nena.
"No sou alma penada!" - Falou o vulto.
- No  alma penada - repetiu Henrique -, e sim
fantasma.
- Por qu? - Indagou Nena.
- Sei l, penada  quem tem pena. E esse fantasma no
 pssaro.
- Penada, porque devemos ter d, pena, porque o morto no encontrou seu 
lugar - 
insistiu Nena.
- Que complicado! - Exclamou Anglica. - Deixem essa histria para l. 
Vou ver 
mame.
Henrique foi guardar os cezinhos e Anglica foi ao estdio da me. Numa 
das salas, 
Dinia fez seu local de trabalho.
- Anglica! - Exclamou a me, contente. Veja como ficou bonita minha 
sala. Nem 
acredito que tenho agora um lugar
s para eu trabalhar, sem ser incomodada ou incomodar.
- Nena me falou que voc tem muitos pedidos.
- Como nunca tive! Trs lojas da cidade interessaram-se pelas minhas 
bijuterias e meus 
antigos clientes fizeram pedidos
grandes. Veja, estas pedras so aqui da regio.
"Minha me  uma artista - pensou Anglica. - Seu trabalho  delicado, 
perfeito, faz 
bem feito porque ama faz-lo.
- So lindas, mame! Estas peas novas so maravilhosas. Este lugar deve 
ter lhe dado
mais inspirao. Esto perfeitas! Parabns!
13
Uma caixa que estava em cima de um mvel caiu. Dinia
pegou as peas que se espalharam.
- Que estranho! Como cau? - Indagou Anglica.
- Ora, devo ter colocado em falso.
"Que coisa! - Exclamou o vulto, aborrecido. - No consigo assustar esta 
mulher. Para
tudo ela tem explicao. Tive de ir rpido at o menino, pegar no sei o 
qu* dele para
derrubar a caixa, foi um trabalho, e ela diz que a colocou em lugar 
errado. Nunca vi
ningum mais distrada".
Anglica deixou a me trabalhando e saiu  procura do
irmo. Encontrou-o brincando com os ces.
- Henrique, por que no foi  escola?
- Ia ter uma reunio dos professores. Venha, Anglica,
vou lhe mostrar o terreno em volta da casa. Deste lado,
 direita, tem um declive com rvores, creio que no so
nativas, que foram plantadas, pois h muitas plantas da
mesma espcie; no fundo um pequeno pomar, na frente
o jardim que mame est cultivando, dever ficar lindo, e
 esquerda a mata.
- Daqui no se avista o mar? - Indagou a garota.
- S se subir nesta rvore alta. A casa fica no morro, a estrada passa 
logo ali; indo em
frente por este caminho vamos chegar nela, e seguindo uma trilha pela 
mata, depois das
pedras, o mar lindo e maravilhoso, onde as guas batem nas pedras, e 
andando um pouco
mais temos uma bela praia. Descendo pela estrada  esquerda temos a 
cidade.
- Vou para o quarto, acho que cansei - falou Anglica, despedindo-se do 
irmo.
Entrou e, curiosa, se ps a olhar tudo, aquela casa despertou seu 
interesse. Tinha trs salas
grandes, uma pequena e nica varanda  frente da porta principal. Havia 
numa das salas
uma lareira de pedras muito bonita.
* Pegar no sei o qu: Quando o esprito deseja movimentar um objeto usa 
uma
combinao de seus prprios fluidos com os de um mdium, com ou sem seu
conhecimento, e por um determinado tempo impregna o objeto, podendo 
ento, pela
vontade, dar-lhe movimento. Os espritos podem chegar a conhecer, inde 
pendentemente de
sua evoluo
moral, a maneira de manipular essa energia. Veja O Livro dos Mdiuns,
captulos 1 e 4 da segunda parte (Nota do Editor).
14
"Ficamos todos bem acomodados" - pensou.
Entrou no seu quarto, sentou-se numa poltrona, olhou as
roupas para pr no lugar, resolveu deixar para depois e descansar. Estava 
cansada, um 
simples passeio a deixou prostrada.
O vulto a olhou e riu, achou-a muito engraada careca. Ela se ps a 
pensar e ele se sentou 
perto e ficou escutando.
"J se passaram meses, quase dois anos, tudo era to
diferente... Isso sim foi uma grande mudana!
Eu tinha acabado de completar dezessete anos, estvamos no comeo do ano 
letivo, cursava 
o terceiro ano do segundo grau, queria continuar os estudos, estava em 
dvida entre 
psicologia e farmcia. Namorava Csar, achava que est vamos apaixonados. 
Tinha muitas 
amigas, ia a festas, boates, gostava de passear.
Minha menstruao desregulou, comecei a ter muito sangramento. Fui ao 
mdico, que 
colheu material para exame e, quando pronto, o mdico chamou pelos meus 
pais. Fui junto, 
se tinha problema era melhor saber logo. E teve. Doutor Lcio rodeou, 
explicou muito, 
dizendo que eu tinha que procurar um especialista, talvez tivesse de 
fazer uma cirurgia, etc.
'Por favor, doutor, fale logo o que minha filha tem' - pediu mame.
Num impulso peguei o papel, o resultado do exame
da escrivaninha e li. Os trs silenciaram, olharam para mim.
Balbuciei:
'Clulas cancerosas. Estou com cncer...'
Demorou uns segundos para o mdico voltar a falar.
'Atualmente temos tido bons resultados com esta doena. Por isso 
recomendo irem logo a 
um especialista. Voc
ir se curar!'
'Como pode ter tanta certeza?' - Indagou mame.
'Bem, creio que descobrimos logo e
'Irei morrer?' - Interrompi.
'Desta doena, com certeza, no! Voc  jovem, lutar e vencer. Como j 
disse, muitos 
saram e voc tambm sarar.'
S chorei em casa, sozinha no quarto. No queria morrer. Tinha tantos 
sonhos, tantas 
coisas que queria fazer. Era
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jovem, bonita e feliz. No queria ficar doente. Sabia pouca coisa dessa 
doena, s que ela 
fazia sofrer muito. No queria ter dor. Chorei at adormecer.
No outro dia, ningum em casa comentou nada, papai e mame pareciam 
normais, como se 
nada tivesse acontecido. Resolvi agir como eles. Em vez de ir  escola, 
fui a uma biblioteca 
pesquisar sobre a doena; o que li me deixou desanimada, no contive as 
lgrimas; s que 
chorei baixinho para no atrapalhar outros leitores. Achando que isso me 
fez mal, fui 
embora para casa, no li mais nada e procurei no conversar sobre essa 
doena. Tentei me 
animar e pensar nos dizeres do mdico amigo, na possibilidade de me 
curar. Tinha de ter 
esperanas. Orei muito pedindo a Deus minha cura. Compreendi que no era 
s eu que 
sofria, meus pais tambm estavam sofrendo muito, por eles me esforcei e 
acei tei fazer o 
que decidiram.
Novas consultas, diagnstico confirmado e foi feita a cirurgia, na qual 
foram extrados um 
ovrio e o tero. Foi tudo to rpido, fui to mimada e tudo transcorreu 
bem. Csar me 
visitou no hospital, levou-me rosas, me fez companhia. As amigas 
revezavam. Tive dores, 
mas os dias passaram rpidos e a veio o pior: o tratamento. Tinha de me 
internar, ficava no 
hospital sem os familiares, num quarto com outras pessoas, pois o 
tratamento era caro e 
tinha de ser feito pelo plano de sade de papai. Passava muito mal ao 
tomar os remdios, 
vomitava muito, ficava deprimida e de mau humor, os cabelos caram, as 
amigas 
comearam a se ausentar e Csar comeou a diminuir as visitas.
'Anglica, viram Csar numa festa e ele ficou com uma
garota.'
Chorei quando Fabiana me contou.
'Ingrato! Idiota!' - Xinguei-o com raiva.
Mame me consolou e entendi que Csar era jovem, vinte anos, estudava, 
era bonito, estava 
sendo difcil para ele ter de ficar em casa, ter uma namorada doente. E 
quando ele foi me 
visitar, terminei o namoro.
'Csar, estive pensando, no  certo voc se prender a
mim. Acho que no quero namorar voc e...'
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' aquele mdico, no ? Voc gosta dele!'
No tinha nada com o mdico, um jovem recm-formado que ia sempre me 
visitar quando 
estava no hospital. No desmenti, seria mais fcil. Resolvemos ser amigos 
e Csar foi 
embora, eu fiquei chorando, no s por ele, por tudo, estava cansada de 
remdios, mdicos 
e hospitais.
Uma amiga da escola foi me visitar, falou dos preparativos da festa de 
formatura. Eu no ia 
mais  escola, parara de estudar. No tinha nimo para nada, s vezes nem 
conseguia ler 
um livro, algo de que sempre gostei. Fiquei pensando, se no fosse a 
doena, tambm 
estaria contente pensando na festa de formatura. Passei uns dias muito 
triste, mas 
compreendi que meus pais e avs sofriam comigo e me esforcei para 
melhorar, para no 
ficar triste. Entendi que pior que a doena  ter d de si mesma. 
Esforcei-me para expulsar 
a autopiedade.
Foi muito ruim estar doente. Como aprendi a dar valor  sade do corpo! 
Muitas vezes 
queria chorar e no conseguia faz-lo. No hospital havia outros doentes 
que choravam 
juntos ou os incomodava porque queria dormir, ler ou conversar, no era 
certo piorar o 
ambiente com minhas lstimas. Como desejei chorar no colo de mame, como 
fazia quando 
era criana! Mas ao v-la sofrida, at emagrecera, tentando me animar, 
esforando-se para 
sorrir, no queria entristec-la mais ainda. Papai dava uma de forte, mas 
muitas vezes, ao 
sair do quarto, o fazia chorando. Como entristec-lo mais? Em casa no me 
deixavam 
sozinha, repartia o quarto com Fabiana. Uma vez ela saiu, fora a uma 
festa, ia dormir na 
casa de uma amiga. Chorei at adormecer, me fez bem, as lgrimas pareciam 
me lavar, me 
limpar. Um dia, achando que minha irm estava dormindo, chorei baixinho.
'Est chorando, Anglica?' - Indagou Fabiana.
'No, claro que no!' - Respondi.
'Por que esconde seu choro? O que h de mau em chorar quando se est com 
vontade? 
Voc tem motivos para isso.'
'Motivos? Acha que tenho motivos?'
17
'Claro! Est doente, tem dores, passa por esse tratamento
que lhe d muitos incmodos. Quer que eu lhe abrace? Quer
chorar junto a mim?'
'Quero!'
Desde aquele dia, no chorei mais escondido, refugiava-me nos braos de 
vov, papai, 
mame e de Fabiana. S que choro repartido  mais confortante, chorava 
menos recebendo 
o carinho de afetos. Deixei consolar e fui consolada.
Via no hospital muitos doentes. Fiz amizade com Eunice,
uma mulher doente que tinha trs filhos pequenos.
'Ainda bem que no tenho filhos, seria bem pior morrer e
deixar rfos' - falei alto e estranhei minha voz ressoar pelo
quarto.
Voltei aos meus pensamentos, s minhas lembranas. Eunice era muito boa, 
otimista, tinha 
dores, no reclamava, s chorava quando os filhos iam embora nas rpidas 
visitas. O 
esposo era jovem, parecia cansado, trabalhava muito, cuidava dos filhos e 
estava 
endividado. Eunice foi piorando, ficou muito feia, magra e mesmo assim 
continuava 
sorrindo e animando a todos.
'Animo, Anglica, seu cncer no  do mesmo tipo do
meu. Ser impossvel eu sarar, mas voc sim, ir se curar!'
'Eunice, que religio voc segue?' - Indaguei; curiosa.
'Sou esprita! Sabe, Anglica, o Espiritismo nos d muita compreenso da 
vida, faz 
entender e aceitar os acontecimentos ruins, levando a compreender a 
bondade e justia de 
Deus. No  uma religio de sofrimento, mas nos leva a entend-lo. 
Aproveito essa lio, 
sim, encaro minha doena como uma grande lio, me tornei mais humana, 
compreensiva, 
tenho meditado e sinto Deus em mim.'
'E seus filhos?' - Perguntei.
'Precisam de mim, sei disso. Quem no necessita de me?
Mas meu marido  muito bom e eles tm duas avs maravilhosas, estaro 
protegidos.'
Fiquei com tanto d de Eunice e de seus filhos que orei muito pedindo a 
Deus que ela 
sarasse, se quisesse que me levasse em vez dela, no me importaria de 
morrer no seu lugar. 
Ela com os filhos seria mais til do que eu.
18
Eunice ajudava a todos, dava consolo, orientava. Eu gostava dela, 
admirava-a. Sa do 
hospital dexando-a mal. Quando retornei, uma enfermeira me contou que 
ela havia 
falecido, serena como viveu. Chorei, senti falta dela.
Mrcia ficara daquela vez no leito ao meu lado, tinha dezesseis anos e 
tambm estava com 
cncer. Recebeu s uma visita, a da assistente social do seu internato. 
Ela era rf, estava 
numa instituio para menores. Ficava mais tempo no hospital para receber 
os cuidados que 
no teria onde morava. Ouvi-a chorar baixinho, indaguei o porqu, ela 
respondeu:
'Estou com medo!'
'Quer que eu aproxime minha cama da sua e segure sua
mo?' - Perguntei.
'Quero!'
'No chore, Mrcia, voc ir sarar' - consolei-a, segurando sua mo.
'Talvez sare, mas quem se alegrar com a minha recuperao? No tenho 
ningum.'
'Voc se alegrando no  o suficiente? Ter ainda sua
famlia.'
'Logo terei de sair da instituio, preocupo-me com o que fazer, com quem 
ficar. E se no 
tiver sarado? Mas a assistente social me afirmou que a instituio me 
abrigar at que eu 
sare. O hospital faz todo o tratamento' - falou ela.
'No tem amigos? No conhece ningum fora de l?' - Perguntei.
'S voc, as enfermeiras e os mdicos. Tenho amigas l, mas elas no tm 
como vir aqui. 
So sozinhas como eu. No importo em sarar, talvez seja melhor morrer. 
Voc tem medo 
da morte?'
'No sei, mas no quero morrer' - respondi.
'Sabe, Anglica, s vezes a solido di mais do que o
tratamento.'
Mrcia dormiu e eu fiquei pensando no que ela disse: 'a
solido di mais...' dei graas por ter afetos.
Morte,  estranho voc pensar nela, pensar que esse
corpo que cuidamos, higienizamos, ir ser p. No havia
19
pensado nessa possibilidade at me ver em perigo, ter uma doena que 
poderia ser fatal. E 
pensar que ir acontecer  confuso, nisso invejava os espritas, eles 
pareciam ter esse 
entendimento. Resolvi no pensar nela, como se no pensar afastasse essa 
possibilidade. 
Mas tudo  vida e comecei a fazer planos, projetos, coisas que iria fazer 
logo que sarasse.
Lucinha estava com leucemia, tinha s oito anos, chorava, chamava pelos 
pais, no queria 
tomar injeo. Ao escut-la tinha vontade de chorar, tambm no queria 
tomar a injeo. 
Mas era adulta ou grande para fazer no valer minha vontade, chorava 
baixinho cobrindo o 
rosto com o lenol. Lucinha tambm morreu. E eu estava no hospital quando 
isso 
aconteceu. O choro dolorido de sua me me fez calar, era um choro to 
sofrido que fez 
silenciar a todos. Tinha muito que meditar ali, creio que todos os que 
esto internados tm 
motivos para pensar na vida e na morte.
Uma vez, encontrei no hospital, na enfermaria ao lado, a masculina, um 
senhor que estava 
revoltado, dizia blasfmias, xingava, era mal-educado. Tinha cinqenta e 
quatro anos. 
Soube porque dizia:
'S tenho cinqenta e quatro anos, como morrer? Maldita doena!'
No aceitava conselhos e evitava a todos. Irm Beatriz, uma freira, pedia 
para que se 
calasse, ele s fazia quando ela ordenava. Quando ele quietava todos 
suspiravam aliviados. 
Irm Beatriz entrou na nossa enfermaria para uma visita, logo aps ter 
ordenado que se 
calasse; nos vendo assustadas, falou, animando-nos:
'Vamos orar, por favor no entrem na vibrao de revolta desse senhor. 
Deus sabe o que 
faz! Depois temos tido muitas curas, mais da metade de nossos doentes tm 
se curado. 
Nada de desnimo! Pai nosso...,
Fiquei pensando no que Irm Beatriz dissera, sabia que
no era verdade, alguns saravam, mas a maioria morria.
Vendo-me preocupada, ela carinhosamente veio at a mim.
'A revolta contagia! No se deixe abater, minha filha. Seu
tratamento tem dado resultado.'
20
Ningum gostava de cuidar do senhor revoltado, faziam
porque eram obrigados. Conclu: ele sofre mais.
Orava muito, enquanto estive no leito no hospital e em
casa, a prece me confortava, esforcei-me para ser otimista e
me queixar menos.
No encontrei mais com aquele senhor, a enfermeira disse que ele voltara 
mais uma vez, 
queixou-se do atendimento
e foi para outro hospital.
Cada pessoa doente que via no hospital parecia ser eu, identificava-me, 
sentia o que eles 
sofriam, uns mais que eu. Chorava junto, fiz amizades, tnhamos muito em 
comum para 
conversar, ramos esperanosos. E o tratamento no foi fcil. Lembrava de 
tudo, mas 
recordaes ruins no devem ser cultuadas, tinha de esquecer, porque o 
tratamento acabara, 
e segundo os mdicos, com xito. E eu no vou pensar mais sobre isso, 
minha doena ficou 
no passado e ele passou...
Estava internada quando papai com meus irmos mudaram para c. Papai 
estava to 
contente, to entusiasmado!
'O lugar  lindo! Teremos o mar, as montanhas e sossego.
Comprei mveis novos, a casa  grande. E voc, minha filha,
ter um quarto s para voc.'
Gostei de ter mudado, no sentiria falta de nada, amigas estavam 
afastadas, Csar estava 
namorando outra, as colegas de escola haviam se formado no ano anterior, 
muitas passaram 
em cursos superiores, outras faziam cursinho e eu ainda teria de acabar o 
segundo grau. 
Depois, era sempre desagradvel encontrar conhecidos, que me olhavam com 
d, vendo-me 
como futura defunta ou, piedosos, tentavam me animar. A maioria queria 
saber do 
tratamento, de resultados. No entendiam que eu no queria falar sobre a 
doena. Pelo 
menos ali, ningum me conhecia e nem sabia o que acontecera comigo.
Que mudana! Espero que esta, desta casa, seja a
ltima!"
Suspirou e se ps a arrumar seu quarto.
21
Osvaldo
O vulto que sentara junto de Anglica e escutava seus pensamentos, suas 
lembranas, era 
Osvaldo, um desencarnado que vivia ali. Quando a mocinha levantou da 
poltrona, ele 
enxugou as lgrimas que corriam pelo rosto.
"Que coisa! Que tristeza! A Carequinha  assim por doena ou pelo 
tratamento dessa 
doena horrvel! Coitadinha! Olhando bem at que no  feia! E eu ri 
dela! Est magra, mas 
 bem feita de corpo, tem os lbios bem desenhados, o nariz pequeno e os 
olhos so lindos, 
so como duas jabutia bas, pretinhos. Essa eu no atormento! No 
assombro! No mesmo! 
Est doentinha! Pensa que sarou, mas dessa doena ningum sara. Ficar 
mais doente at 
morrer. A ser como eu!  to estranho, morre-se to fcil!"
Saiu do quarto, sentou-se num canto de uma das salas e
se ps a pensar, a recordar:
"Fique aqui! Fique para sempre!'
Malditas palavras que me prendem, estou aqui h muitos anos, nem sei 
dizer quanto tempo, 
e no consigo sair. Gosto da solido, as pessoas me incomodam, reclamam 
demais, me 
perturbam. Se tenho de ficar aqui, que eu fique sozinho. Tenho de 
expulsar essa famlia 
daqui como fiz com as outras.
Recebi os impactos, dois tiros certeiros, depois o pesadelo, demorei para 
sair daquela 
maldita madorna e me vi sozinho nessa casa, que parecia abandonada. 
Grande parte dos 
mveis sumiu, a decorao da casa era muito bonita,
22
tapetes vermelhos, estofados vistosos, muitos vasos com flores, cortinas 
de veludo, a casa 
sempre estava linda; Leda tinha bom gosto.
O mato em volta da casa estava alto, o jardim desapare ceu, no tinha 
mais os canteiros 
floridos. Estava muito triste, abandonado daquele modo. Foi um perodo 
muito confuso, 
no sabia o que fazia ali sozinho, dormira muito, mas tinha horror em 
faz-lo, pois sonhava, 
ou melhor, tinha pesadelos com aquelas cenas trgicas que queria esquecer 
e no conseguia 
 Andava pela casa e em sua volta com dificuldade e fui melhorando. Um 
dia, estava 
dormindo quando acordei com um barulho, eram uns trabalhadores carpindo o 
jardim.
'At que enfim algum para limpar. Vou ajud-los!' - Ex clamei, animando-
me.
Mas quando comecei a ajudar, os ingratos saram cor rendo, largaram at 
as ferramentas.
'Bando de preguiosos!'
Isso ocorreu mais duas vezes, parecia que no queriam
minha ajuda.
'J sei - conclu -, eles devem pensar que eu tambm
matei a menina, a Fatinha, mas eu s assassinei a Leda, que
mereceu. Todos sabiam que ela no prestava'.
Tentei falar com eles, com os trabalhadores, explicar que no queria 
fazer mal a eles; mas 
foi pior. Fiquei com raiva, deveria ser como bicho ou monstro para eles 
terem medo assim 
de mim. Eles no acreditavam em mim, achavam e at hoje todos pensam que 
matei a 
garotinha. Mas no iria fazer isso, no fiz, era to bonita a filha de 
Leda.
Quando os trabalhadores foram embora correndo, fiz
um juramento:
'Ingratos! So uns ingratos! No os ajudo mais! No
mesmo.'
E cumpri a palavra. Mas no era preguioso, sempre trabalhei, desde 
pequeno, e gostava, 
queria fazer alguma coisa e no conseguia. E o jardim estava um mato s. 
Por mais que 
tentasse, no conseguia carpir e nem fazer qualquer trabalho. Tantas 
vezes tentei varrer a 
casa, limp-la, e ela
23
continuava suja. Deveria ser praga do senhor Irineu, o dono da casa, que 
me ordenou ficar 
ali, e foi embora e nunca mais voltou.
Fiquei tempo sem ver ningum, nenhuma pessoa veio aqui, aprendi a gostar 
da solido, s 
que pensava muito. Como mudei os acontecimentos, sempre achava um final 
feliz para 
mim, senhor Irineu morria, Leda dizia que me amava, ficava comigo e 
ramos felizes. Mas 
a realidade sempre me despertava de modo cruel, tudo aquilo aconteceu e 
eu estava ali, s e 
infeliz. No gostava de recordar, mas o fazia como um castigo, um 
terrvel e interminvel 
castigo.
E os anos foram se passando, no sabia determinar quantos. Resolvi vigiar 
o local e estava 
sempre atento, at os garotos que vinham xeretar ou em busca de frutas do 
pomar eu 
enxotava, e era uma correria. Como ria e me divertia, queria que viessem 
mais vezes, mas 
eles se assustavam, tinham medo do assassino. Isso me irritava, no tinha 
matado a garota, 
s Leda, meu grande amor.
Fiquei muito sozinho, os dias eram interminveis. Quando no se faz nada, 
o tempo demora 
a passar. Enquanto ficava recordando, pensando, sofria, sofro... Mas me 
acostumei e no 
queria compartilhar a casa com ningum.
Lembro bem do dia em que dois homens vieram de
carro, entraram no jardim e comentaram:
'Essa histria de assombrao  inveno! Com o as pecto desta casa, 
qualquer um se 
assusta.'
'Herdei do meu tio essa propriedade, vou arrum-la para
alugar. Amanh mesmo viro os homens que contratei, limparo o jardim, o 
pomar, e o 
melhor, aterraro o buraco.'
'Isso  bom, do lado direito o penhasco  perigoso!' - Comentou o 
primeiro que falara.
'Modificando o local em que houve o crime da menina
mudar o aspecto e o falatrio acabar. Comprei caminhes
de terra para aterr-lo - falou o que herdara, o novo dono.
'Ficar caro.'
'D pena ver isso abandonado.'
Fiquei s ouvindo, curioso. Achei interessante aterrar aquele lugar 
perigoso, cheio de 
pedras, e havia s uma trilha
24
A Casa do Penhasco
para passar. Aquele lugar me dava arrepios, quase no ia l, no gostava, 
mas s vezes era 
impulsionado a ir, de cima olhava o buraco, e foram muitas as vezes que 
chorei, parecia 
ainda ver Fatinha cada com seu pijama cor-de-rosa, l esti cada, morta. 
Achava aquele 
lugar horrvel e aprovei a idia de aterr-lo. Sem o buraco no iria mais 
ver aquela cena 
macabra. Resolvi s ficar observando, sem fazer nada.
Mas foi a que percebi que as pessoas no me viam, elas passavam por mim 
ignorando-me, 
cheguei pertinho de umas e nada, realmente elas no me enxergavam e eu 
era a 
assombrao to falada. Por algum motivo que eu desconhecia estava 
invisvel e, 
dependendo da pessoa que estava ali na propriedade, eu conseguia fazer 
barulho, assustar. 
Fiquei muito triste, talvez tivesse morrido e nem percebido. Nunca soube 
direito o que 
acontecia quando a pessoa morria, no acreditava no inferno e achava 
muito boba a idia de 
no cu no ter de fazer nada, mas nunca pensei em morrer e ficar assim 
como fiquei, sem 
fazer nada e no estar no cu, ser um assassino e no ir para o fogo do 
inferno. De qualquer 
modo estava sendo castigado, fiquei ali preso no local do crime e muito 
infeliz.
Os trabalhadores vieram, eram muitos, comearam a descarregar caminhes 
de terra, 
roaram o mato, tiraram a hera, a folhagem das paredes da casa; pintaram, 
consertaram, e 
eu quieto, s olhando.
Achando muito chato todo aquele movimento, resolvi ir embora, mas no 
conseguia sair da 
propriedade. Embora nada me prendesse, sentia-me preso, no conseguia 
passar alm do 
jardim; com esforo dava uns passos pela estradinha, era atrado de novo 
para a casa. Todas 
as vezes que tentava, escutava a voz irada do senhor Irineu: 'Fique aqui 
para sempre!' 
Naquele dia tentei, como tentei! Queria ir mesmo, embora no soubesse 
para onde. 
Esforcei-me tanto que ca e me arrastei pelo cho. 'Fique! Fique!' Tive 
de voltar,  
aborrecido, chorei, mas nada adiantou. Tive de ficar.
Escutei um dia a conversa de dois trabalhadores que
pintavam a casa.
25
'Aqui aconteceu um crime brbaro, um empregado matou o casal, donos da 
propriedade, e 
depois se suicidou.'
' mentira!  mentira!' - Gritei irado.
'Voc ouviu? Parece que algum disse que  mentira' - disse um deles.
'Ouvi, deve ser algum l fora. Vamos parar de falar
nesse assunto. Isso atrai espritos. Vamos trabalhar!' - Falou
o outro.
' melhor mesmo! Trabalhem, bando de mentirosos' - resmunguei.
Pensei em assustar todos e pr para correr aqueles homens insensveis, 
mas resolvi no 
fazer, queria o lado direito do penhasco aterrado. Aquele declive me 
causava terror. O 
trabalho terminou, ficou lindo, os banheiros modernos, tudo pintado, 
acabou o perigo, 
plantaram rvores no aterro, fiquei satisfeito, fiquei de novo sozinho, 
todos foram embora. 
A casa estava mais clara pela pintura, mais arejada.
Fiquei pensando e conclu que morri realmente e estava ali por castigo, 
que era bem 
merecido, embora achasse que a culpa era tambm dos outros envolvidos. A 
nica inocente 
era Fatinha.
Andava de um lado para outro, vigiava tudo, sabia at das teias de 
ranhas. Uma vida de 
ociosidade, mas castigo era castigo e este parecia interminvel, para 
sempre, como disse 
aquele maldito.
Veio uma famlia olhar a casa.
'Se essa casa foi assombrada no  mais. O proprietrio disse que o 
falatrio  porque 
estava abandonada; na reforma muitos homens trabalharam aqui e no viram 
nada' - 
disse o homem.
'Tomara que no seja mesmo, no gosto dessas coisas.
Para mim, morreu, deve ficar bem morto' falou a mulher.
'O aluguel est bom, a casa  grande e bonita' - comentou ele.
'Grande demais, tenho de arrumar uma empregada' - resmungou ela.
Examinei-os, O homem era gordo, a mulher mida e
magra, achei graa e ri. 'Casal ci ou dez'.
26
Ela virou para ele e falou, brava:
'No ri!'
'No estou rindo!'
Mudaram. Tinha o casal dois filhos pequenos. No gostei deles, o homem 
era metido, 
orgulhoso, achando que resolvia tudo. E o mais interessante  que quando 
eu me 
aproximava dele, recebia fora e fazia os objetos se mexerem, fazer 
barulho, e me divertia 
assustando-os.
Agentei os homens trabalhando. A noite paravam e iam embora, mas aqueles 
moravam 
aqui, isso no, nessa casa quem morava era eu, s eu e no queria 
companhia. Ento fiz um 
plano para expuls-los daqui e comecei a atorment-los. Preferia a noite, 
que  mais 
assustadora, para fazer barulho. S no mexia com as crianas, no sou 
covarde, elas eram 
pequenas. Depois tinha medo de que, assustadas, fizessem como a outra, a 
Fatinha. Mas 
tudo que acontecia naquela casa, a chata da mulher punha a culpa em mim. 
Se o menino 
chorava, se tinha dor, era eu. Um dia consegui puxar o cabelo dela; ri 
bastante, achando 
bem merecido.
Era  tardinha, estavam sentados na sala. Ela comentou:
'No estou gostando dessa casa e quero me mudar. O aluguel  barato, 
muita esmola, o 
santo desconfia. Por esse aluguel irrisrio, s podia ter algo 
atrapalhando. Ela  real mente 
mal-assombrada. No h explicao para os barulhos, objetos carem e as 
risadas que so 
um horror. Deve ser o esprito do assassino.'
'Tambm no estou sentindo-me bem, nessa casa fico muito fatigado e 
triste. Eu, que 
sempre fui alegre. Tenho pensado se no  mediunidade que falam que eu 
tenho. No 
quero mexer com isso, no sei por que essa faculdade no  dada a quem 
quer. Dizem que 
eu sou sensitivo, que posso ajudar outras pessoas, mas no quero - falou 
ele.
'Se  sensitivo, ou se essa sua mediunidade  forte, por
que no manda nesse esprito? Deve ser um demnio esse
assassino!' - Expressou ela.
'Sou mais sensitivo mas no sei fazer isso! No aprendi
nem quero aprender. Que esse assassino pare de encher e v
para o inferno, que  o lugar dele' - falou autoritrio.
27
Que desaforo! Resolvi dar uma lio naquele gordo inso lente. Olhei, 
concentrei-me no
relgio que estava em cima de um mvel e ele foi mexendo, at que caiu. 
Ri, dei minhas
gostosas gargalhadas. Os dois se assustaram e minha risada ecoou pela 
casa. O garotinho
pediu:
'Faz mais isso, papai, estou gostando.'
'Eu no fico aqui nem mais um minuto. No durmo mais
nessa casa. Maldita mil vezes essa assombrao!' - Falou a
mulher.
Pegou as crianas e o gordo foi atrs dela. Entraram no carro e foram 
embora apavorados.
Achei graa e ri at cansar. Mas sem o gordo minha risada no era ouvida 
pelos que
tinham o corpo de carne. Fiquei satisfeito, meu plano deu certo, expulsei 
os intrusos.
Depois de dois dias o caminho de mudana veio buscar os objetos deles. 
Fiquei quieto
num canto, afinal o casal fez o que eu queria, foi embora, e eu no quis 
atrapalhar o pessoal
da mudana. Um dos carregadores comentou:
'Nunca vi uma mudana assim. Parece que saram correndo, largaram at 
comida na
mesa.'
'Dizem por a que foram assustados por um fantasma, saram de tarde, 
foram para um hotel
com a roupa do corpo. Ningum aqui na cidade quis fazer a mudana, a nos 
contrataram
de longe. Espero que o senhor fantasma, isto , se realmente ele existe, 
permita que
faamos a mudana em paz. Afinal estamos trabalhando!'
Assim era mais fcil, gostava de respeito, e fiquei obser vando. E me 
livrara do casal*'oi' e
era isso que importava.
Novamente a casa ficou abandonada, o mato cresceu
e eu fiquei anos sozinho.
Um dia, um senhor bateu palmas. Fui ver e me defrontei
com um homem que olhou para todos os lados e disse alto:
'Senhor... no sei como cham-lo, fantasma, assombrao... Desculpe eu 
vir assim. Vou
explicar: me chamo Olegrio, tenho famlia, mulher e trs filhos, estou 
desempregado e
estamos passando necessidade. O nico emprego que arrumei foi na 
imobiliria para carpir
e arrumar esta casa.
28
Por isso peo permisso para fazer meu servio sem ser assombrado, pois 
tenho medo. Se
no precisasse tanto, no viria, mas tenha d de mim, deixe-me trabalhar 
em paz.'
O homem, o Olegrio, falou com sinceridade. Escutei, pensei e, j que 
pediu, resolvi deix-
lo em paz e o fiz por dois motivos: porque fiquei com d dele e queria 
que o terreno fosse 
limpo. E assim Olegrio passou a trabalhar, limpou tudo, at plantou umas 
flores e depois 
passou a vir duas vezes por semana e at limpava a casa.
Como lastimei por no ver o mar, ficava to perto... S o via de cima da 
rvore, a que o 
rapazinho, Henrique, descobrira. Quando estava com muita saudade, subia 
na rvore e o 
via de longe. Talvez de cima da casa tambm pudesse ver, mas nunca subi.
Mar, como amava o mar! Desde pequeno gostei de sentar na areia e 
contempl-lo, 
observava as ondas desde sua formao at quando quebravam na areia. 
Depois, sempre 
que estava triste, ia para perto, tomava banho nas suas guas salgadas e 
me acalmava. Mas 
agora que sou morto, ser que conseguirei me banhar? Acho que no. Mas s 
o contemplar 
me bastaria. Como me divertia com os coleguinhas na praia, jogando bola, 
nadando! 
Amigos, tinha saudades deles; quan do pequenos, os meninos me aborreciam, 
bastava eu 
me de sentender com eles que escutava: 'Sua me o abandonou! Seu pai  um 
bbado!' Isso 
me doa. Ah, se eu pudesse sair daqui! Agora que sei que posso assustar 
as pessoas, ia dar 
bons sustos neles. Como ser que est o Tampinha? E o Sonrisal? Gostava 
de dar apelidos. 
Eram bons garotos, estimava-os. Pensando bem, eu tambm os ofendia. No 
devo levar em 
conta brincadeiras de criana. Crescemos juntos e continuamos amigos. 
Sonrisal at que me 
aconselhou a sair do emprego, no ficar mais perto dela, eu que no o 
atendi. Ser que eles 
pensam em mim? Certamente no falam sobre mim, no  interessante dizer 
que foram 
amigos do assassino da casa do penhasco.
Novamente vieram me aborrecer, acabar com meu sossego. Mudou-se outra 
familia para 
minha casa: uma senhora
29
viva e cinco filhos. Que pessoal esquisito, no gostei deles! Falavam e 
comiam demais, 
resmungavam e brigavam, mas no havia ningum para me dar 'aquela fora' 
para que 
fizesse mover objetos ou me escutar. Mas percebi que podia prejudic-los 
de outra maneira: 
se ficasse perto de um deles, a pessoa se queixava. Incrvel, ela sentia 
o que eu estava 
sentindo! Podia deixar nervoso qualquer um, e agi assim para faz-los se 
mudar.
'Que dor no peito! Desde que nos mudamos para c estou tendo essa dor. 
Aqui no tem 
assombrao, se tinha, deve ter ido embora. Assustou-se conosco!' - Falou 
um dos moos.
'No gosto daqui, tenho tido sonhos estranhos, que
algum me d tiros no peito e fico com dor' - queixou-se
a moa.
'Vocs ainda saem, eu fico mais em casa e sinto muita tristeza. Tambm 
acho que no foi 
bom termos mudado para c. Que tal apressar a reforma de nossa casa? 
Quero voltar para 
l, sinto falta das minhas amigas e vizinhos, que no querem vir aqui me 
visitar, com medo 
da alma penada' - falou a senhora.
Intensifiquei minha perseguio e os intrusos se mudaram, fiquei aliviado 
e eles tambm. 
Fiquei sozinho de novo, s Olegrio vinha duas vezes por semana. Era bom, 
tudo limpo e a 
casa em ordem.
Agora, essa familia veio me incomodar! Primeiro veio o homem, Roberto, 
olhou tudo e dias 
depois voltou com a mudana. Percebi logo que o menino, Henrique, tem 
'aquela for a' 
de que eu preciso e planejo expuls-los. S que agora fiquei com d da 
Carequinha, to 
jovem e to sofrida. Nem teve raiva do namorado que no a quis pela 
doena. Ajudou 
outros, quis morrer no lugar daquela me para que no deixasse filhos 
pequenos. Fazia 
tempo que no via ningum to bom assim, ou nunca tinha visto. Boa... 
Ser que minha 
me foi boa? Queria pensar que sim, mas certamente no o era. Ela me 
abandonou, no me 
quis, pelo menos era isso que papai falava: 'Sua me  uma vadia, nos 
abandonou, foi
30
embora com outro, aquela safada!' Ela nunca mais deu notcias. Quando 
garoto, sonhava 
com seu retorno, ela voltaria rica, de carro, me levaria com ela... Mas 
mesmo pobre a queria 
 ansiava por seus afagos, me chamando de filho. Mas ela nunca voltou...
Morvamos com vov, me de meu pai. Ele bebia muito, trabalhava pouco, a 
vida era 
difcil. Vov s resmungava. Meu pai morreu num acidente, caiu na linha 
do trem; uns 
dizem que se suicidou, outros que caiu por estar bbado. Fiquei s com 
vov, que me tirou 
da escola e me ps para trabalhar. Era mocinho quando ela morreu, fiquei 
sozinho no 
mundo, trabalhei em muitos lugares, at que vim ser caseiro aqui e fiquei 
para sempre".
31
Apavorando
Henrique
"Cansei de pensar, no tenho feito outra coisa nesta vida
a no ser recordar."
Osvaldo levantou-se e foi at a cozinha. Observou Nena,
a empregada, fazendo o almoo. Era esperta e trabalhadeira.
"Vou dar um susto nela!"
Esforou-se para fazer cair a tampa das panelas que estavam em cima da 
pia. Nada. Foi at 
Henrique, que brincava
com os cezinhos, voltou rpido e pronto, derrubou as tampas.
Nena olhou de um lado para outro. Osvaldo riu, divertin do-se. Ela pegou 
as tampas e, sem 
que ele esperasse, falou
autoritria:
- Sai de retro, satans! Por Deus, no me tente! Creio em Deus Pai...
Fez o sinal da cruz e orou o Credo, uma orao catlica.
"Eu, hein! Credo, cruz! Que mulher! No precisa me enxotar assim... - 
Osvaldo saiu da 
cozinha resmungando. - No devo mexer com servial. Se ela for embora, 
arrumaro 
outra e a famlia ficar.  uma empregada como eu fui. Pre ciso pensar 
num bom plano, 
colocarei essa famlia para correr.  s ter pacincia e me organizar 
direito. Se eu 
conseguir apavorar um deles, unidos como so, se mudaro".
Ouviu-se barulho de carro, era Roberto que vinha almoar e com ele estava 
Fabiana, que 
voltava da escola. Anglica e Henrique vieram correndo. Todos se sentaram 
 mesa. 
Osvaldo se ps a espi-los de um canto da sala.
32
- Estou muito feliz em t-la conosco, Anglica. Aqui ir recuperar-se 
melhor. Gostou do 
lugar? - Perguntou o pai.
- Sim, creio que sim,  bonito. Mas no  isolado?
-  perto da cidade, passa nibus a cada meia hora na estrada. Logo far 
amigos e poder 
convid-los para vir
aqui - respondeu Roberto.
- Eu estou achando timo, trabalho sossegada, tenho espao - expressou-se 
Dinia.
- Pois eu no sei, estou achando a casa esquisita - falou
Henrique.
- No venha voc de novo com a histria de barulhos e risadas - disse 
Fabiana. - Para 
mim aqui est timo, est me fazendo bem. Sabe, Anglica, no tenho tido 
mais aqueles 
sonhos ou pesadelos. E, desde que mudamos, parei com a terapia, com as 
sesses com a 
psicloga. Vocs sabem como eu sofria com aqueles sonhos, tinha pavor de 
dormir e t-los. 
E eles se repetem desde que eu era pequena. Sabem o que  mais estranho? 
A casa com que 
sonho parece com esta. Verdade! Com algumas modificaes, poderia dizer 
que o lugar  
este.
- Modificaes? Como? - Perguntou Anglica.
- No sei bem, meus sonhos so confusos, me do medo, pavor mesmo, no 
gosto deles. 
Sonho com uma casa grande, s vezes deso uma escada como aqui, mas com 
tapetes  
vermelhos. Vejo uma porta entreaberta, no sei o que vejo l dentro, mas 
 algo que me 
apavora e a corro. Algum malvado corre atrs de mim, passo por um 
caminho estreito, 
peri goso,  beira de um precipcio. Olho para trs e vejo uma pessoa que 
eu sei que  m 
quase me pegando, tento correr mais, tenho dor no p, caio no buraco e 
acordo aflita. As 
vezes desperto com meu prprio grito, outras coberta de suor. Em outros 
sonhos, chamo 
por minha me, s que a mame  outra pessoa, ela no pode me acudir, 
estou sozinha com 
o malvado, tenho de fugir, corro e estou de novo  beira do precipcio, 
do buraco que tanto 
medo me d, e caio. S que a casa tem heras na parede e o buraco muitas 
pedras, e eu sou 
uma menina pequena e lourinha. Sinto, ao correr, o movimento dos meus 
cabelos 
cacheados. Que Deus me d a graa de no sonhar mais com isso, de no ter 
mais esses 
pesadelos.
33
- Escutamos muitas explicaes: que Fabiana viu essas cenas num filme, 
que escutou uma 
histria que a impressionou. O fato  que muitas vezes acordou gritando e 
chorando - 
falou a me.
- Virgliio me disse que poderia ser lembrana de outra vida. Ele  
esprita e acredita em 
reencarnao - comentou
Roberto.
Osvaldo se encolheu todo num canto e balbuciou:
"Lembranas de outra vida! Pode ser! S pode ser! Se morremos mas 
continuamos vivos,  
bem provvel que nosso esprito nasa de novo em outro corpo. Por isso 
que essa Fabiana 
me impressionou, sinto que a conheo, embora seja diferente fisicamente 
de Fatinha, parece 
com ela ou pode ser ela! Se no for isso, como se explica esta a sonhar 
com algo que 
aconteceu bem antes de ela nascer? Meu Deus! Que coisa! Com essa mocinha 
tambm no 
irei mexer, assombrar. E se ela for Fatinha?  melhor eu ficar longe 
dessa garota!"
Naquele dia, Osvaldo no teve nimo para mais nada. Achava mais fcil 
assustar mulheres. 
Estas, para ele, eram mais escandalosas, mas com as daquela famlia 
parecia mais 
complicado. Tinha d da Carequinha, a servial apelava, a dona da casa 
era distrada 
demais, para tudo tinha uma explicao: se conseguia, aps muito esforo, 
acender uma 
luz, ela nem notava e at achava que tinha sido ela; se apagava, estava a 
lmpada com 
defeito; se fazia barulho, dava expli cao; quando notava ou ouvia 
movimento de madeira 
ou animais correndo, as risadas, era algum da famlia ou bichos fora de 
casa, da mata. 
Com a Fabiana era impossvel; agora, ao olh-la, parecia que via Fatinha 
e isso lhe causava 
mal-estar. Restaram o dono da casa e o moleque. Ficou uns trs dias 
quieto, planejando, e 
concluiu que teria de atormentar, assustar os dois homens da famlia se 
quisesse ficar livre 
dela. Achando que dera "folga demais", resolveu agir e foi at eles, que 
estavam 
almoando.
Roberto pediu a Anglica:
- Filha, voc no faria um favor para mim? Tenho de levar uns papis na 
imobiliria e no 
tenho tempo. Venha
34
comigo para a cidade e aproveite para conhec-la, depois volte de nibus, 
que ele pra na 
estrada em frente ao caminho de nossa casa.
Anglica entendeu que o pai queria que ela sasse, que
passeasse e resolveu ir. Arrumou-se.
"Com peruca fica melhor, coitada da Carequinha!" - Comentou Osvaldo.
- No sei por que, papai, parece que algum tem d de mim e me chama de 
Carequinha - 
comentou Anglica.
- Quem faria isso? Filha, no se impressione. Voc no  careca, est sem 
cabelos 
temporariamente. Logo eles
crescero lindos como sempre foram.
Anglica entrou no carro com o pai, observou que havia prxima da casa 
uma estrada que 
atravessava o morro, um caminho de cascalho de uns duzentos metros. Esse 
caminho fora 
aterrado porque havia declives dos dois lados.
"Antes - pensou a mocinha - deveria ser uma rocha
extensa como um ponto isolado apontando para o cu. Incrvel como algum 
teve a idia 
de construir uma casa aqui".
Ela olhou para trs, observou a casa, parecia uma pintura.
"Se no fosse a parte direita ter tantas rvores, essa casa
pareceria construda num pico de pedra, e no  por acaso
que se chama Casa do Penhasco!"
Entrando na estrada no avistava mais a casa, seu pai seguiu para a 
cidade. A estrada era 
uma via vicinal, cheia de curvas, com muitas rvores e pedras, somente em 
poucos lugares 
se via o mar, lindo e majestoso.
Anglica gostou da cidade, era pequena, com muitas
lojas, arborizada e com pessoas bronzeadas.
- Na poca de temporada isso aqui fica movimentado - comentou o pai. - 
Vou deix-la 
aqui. V  imobiliria
e resolva essa questo para mim. Procure pelo Fbio.
A garota desceu, andou pelas ruas olhando as vitrines e
foi logo  imobiliria.
- Por favor, o senhor Fbio!
E logo veio atend-la um moo que a olhou interessado.
Anglica no pde deixar de observ-lo, era moreno, olhos
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esverdeados, cabelos bem curtos e um sorriso franco e cativante. Por 
minutos trataram de 
documentos.
- Esto gostando da casa? - Perguntou ele.
- Sim, estamos. Ela  confortvel e o lugar muito bonito - respondeu 
Anglica.
- Ainda bem - falou sorrindo Fbio.
- Por qu? - Perguntou ela.
- Por nada. Est calor, aceita tomar um sorvete?
A mocinha no soube o que responder, no o conhecia, mas no conhecia 
ningum ali. 
Achando que no tinha nada
demais, respondeu:
-Aceito!
Saram da imobiliria, andaram poucos metros e entraram na sorveteria. 
Logo vieram 
atend-los.
- Muito bem! Aqui se  bem atendido - falou ela.
- Claro, sou o dono! - Exclamou ele sorrindo.
Conversaram saboreando devagar o sorvete e logo j sabiam o que 
interessava: eram 
solteiros, no tinham com promisso.
- Como vai voltar para casa? - Perguntou Fbio.
- De nibus - respondeu Anglica.
- Permita que lhe d uma carona? Tenho de ir  praia do outro lado do 
morro.
Anglica aceitou, e quando chegaram, Henrique foi cumpriment-lo e 
ficaram conversando 
sobre o lugar, as belezas
da regio.
- Vocs conhecem a gruta do morro? No! Pois precisam ir l! Vamos 
combinar um 
passeio, levo vocs at a
gruta - falou Fbio, entusiasmado.
"Xi, esse a est interessado na Carequinha. Mas se ele estiver mal-
intencionado, que no se 
aproxime dela. Resolvi defend-la! - Osvaldo observou bem Fbio. - O cara 
parece ser 
boa pessoa. Bem, ele que no se meta a engraadinho".
O moo foi embora e os irmos entraram. Osvaldo pensou, satisfeito, que 
seu plano estava 
dando certo. Que a presena do menino, do Henrique, com a fora que 
tirava dele, 
conseguia fazer barulho e mexer objetos. E dias passaram e
36
Osvaldo conseguia assombrar os dois, Roberto e Henrique. Assustava o 
mocinho e causava 
arrepios no pai, divertin do-se com isso. Henrique comeou a ficar 
impressionado.
- Pai, aqui  lindo, gosto da escola, j fiz amigos, mas no estou 
gostando da casa. No 
poderamos mudar? - Queixou-se o garoto.
- Filho, voc est impressionado pelos boatos de que esta casa  
assombrada. Todos 
gostam daqui, o aluguel est bom, voc pode ter at cachorros, estamos 
acomodados. 
Depois, se nos mudarmos, a multa  alta.
- Pai, no  impresso, aqui no me sinto bem, tenho uma sensao de 
solido que di. 
Depois escuto risadas e fico apavorado. Se o senhor no quer se mudar, 
deixe ento que eu 
v para a casa da vov. No acredita em mim? Tenho ouvido coisas 
estranhas...
- Acredito em voc, sei que no mente. Vamos ter um pouco mais de 
pacincia, isso deve 
ter explicao.
Roberto no quis dizer ao filho que tambm estava impressionado com 
aquela casa, que 
ouvia as risadas que o apavoravam. Tentava achar explicao para os 
barulhos que 
escutava. J achava que alugar aquela casa no tinha sido um bom negcio.
Passados uns dias, Henrique foi abrir a janela da sala. Ela estava 
difcil, dura. Quando 
puxou-a com fora, Osvaldo a empurrou e a janela abriu, batendo nos 
lbios do mocinho, 
cortando-os. No vidro da janela, Henrique viu por segundos o rosto de 
Osvaldo. Apavorou-
se tanto que no conseguiu nem falar, ficou parado. Depois tentou ver 
mexendo na ja nela, 
se era reflexo de algum quadro a imagem que vira, mas nada, no havia 
explicao. 
Tremendo ainda, foi atrs de Nena para que ela fizesse um curativo.
- Henrique, precisa ter cuidado! Machucou, poderia ter quebrado os 
dentes.
- Nena, voc j teve a sensao de ver uma pessoa onde no tem ningum?
- Nunca tinha sentido, mas aqui j. Por vezes sinto como se algum 
estivesse espionando. 
 uma sensao ruim.
Henrique ficou horas pensativo.

37
Fbio queria ver Anglica, ficou interessado, atrado por ela. Tirou uma 
cpia de um 
documento j entregue e foi l lev-lo. Conversou com os jovens e os 
convidou para lev-los
no domingo  gruta. Henrique aceitou, contente.
No domingo  tarde foram ao passeio. O lugar era muito
bonito, de uma rocha mais alta se avistava o mar batendo
nas pedras.
- Como aqui  bonito! - Exclamou Fabiana.
Ela e Henrique foram para o outro lado, e Fbio sentou-se perto de 
Anglica. Ela arrumou 
o leno na cabea. Como ele estava caindo, tirou-o; seus cabelos estavam 
nas cendo, 
estavam bem curtinhos.
- Anglica, voc  muito bonita! - Disse Fbio, sincero.
- Mesmo com os cabelos curtos assim?
- Sim - ele sorriu e pegou na mo dela.
- Fbio, meus cabelos esto assim pelo tratamento de quimioterapia, estou 
sarando de um 
cncer - falou a mocinha retirando a mo da dele.
Ela olhou para ele, que pareceu indiferente, como se no
tivesse escutado. Nisso os dois irmos chegaram e o passeio
decorreu agradvel.
Em casa, Fabiana comentou:
- Fbio est interessado em voc. Vai namor-lo?
- No quero namorado! - Exclamou Anglica.
- S porque Csar agiu daquele modo, voc pensa que outros iro fazer 
igual? - Falou 
Fabiana.
- No penso mais em Csar, nem acho que agiu errado,  muito novo para 
ficar 
namorando algum doente. S vou
namorar de novo quando tiver a certeza de que estou curada.
- Mas voc est! - Afirmou Fabiana.
- Ai, ai, no agento mais! - Gritou Henrique.
O irmo subiu correndo a escada. As duas irms, que estavam no quarto de 
Anglica, foram 
ao encontro dele.
- O que aconteceu, Henrique? - Indagaram a duas ao mesmo tempo.
- Estava quieto na sala quando recebi um tapa com fora nas costas.
- Quem bateu em voc? - Perguntou Anglica.
38
- No sei! S que bateram...
Ele levantou a camisa e as duas se espantaram, havia
nas costas dele uma marca avermelhada de uma mo grande.
- Henrique, pare com isso! - Exclamou Fabiana. - No invente! Voc quer 
mudar e 
est usando os boatos para isso.
- Que boatos? - Perguntou Anglica.
- Que esta casa  assombrada - respondeu Fabiana.
- Mas por que quer mudar, Henrique? - Indagou a irm mais velha.
- Gostava daqui. No queria que nos mudssemos da cidade, gosto dela, da 
escola, dos 
amigos, s que  verdade. Anglica, acredite em mim, tenho sido 
atormentado por uma 
coisa que no sei o que . Estou com medo!
Roberto e Dinia, que estavam no quarto deles, vieram
ver o que acontecia.
- Papai, no durmo no meu quarto! - Falou o mocinho determinado e 
apavorado.
- Vou colocar um colcho no nosso quarto, voc dormir
conosco.
Eo pai foi no quarto do filho, pegou o colcho e colocou
ao lado da cama do casal.
- Pronto, filho, dormir aqui at que no tenha mais
medo.
As trs acharam estranha a atitude de Roberto, ele que sempre ensinara a 
no ter medo, a 
no alimentar esse sentimento e enfrent-lo para vencer, agora no falava 
nada, concordava 
com o filho. Mas elas nada comentaram.
"Logo estaro mudando!" - Osvaldo vangloriou-se e riu.
Henrique acomodou-se e se ps a pensar:
"Meu Deus, ser que estou louco? Devo estar doente. Deve ser grave. Ser 
que imagino 
isso tudo? O que ser que
eu tenho?"
Ao ver que os pais ressonavam, chorou. Seu choro foi
sentido, lgrimas escorreram abundantes pelo seu rosto.
"Prefiro achar que existe mesmo esse fantasma e que ele, por algum 
motivo, esteja fazendo 
objetos se mexerem e que eu oua suas risadas macabras. E se for 
assombrao, por que 
eu? Por que ele implicou comigo? No tenho nada com ele.
39
No posso continuar assim. J sou grande para ter medo a ponto de no 
dormir sozinho. Eu, 
o homem da casa! As meninas esto l dormindo cada uma no seu quarto e eu 
aqui, com 
meus pais. Tenho vergonha, mas meu medo  maior. No meu quarto a luz 
acende, apaga, 
portas do armrio se fecham e se abrem. J senti puxar meu lenol. No 
durmo mais sozinho 
Queria mudar dessa casa, ir embora daqui. Mas se mudarmos e no adiantar? 
Se estou 
doente, o problema  comigo! Ele ir para onde eu for. Preciso pensar. 
Alm do mais, 
todos esto acomodados, gostando, no  justo que se mudem por minha 
causa, porque eu 
quero. Fabianaj acha que eu invento tudo isso. Ainda bem que papai 
acredita em mim. Depois 
existe a multa, eles no tm dinheiro para pag-la. Estou sendo um 
problema para 
todos. Tenho de dar um jeito!"
Acabou adormecendo. Acordou cedo para ir  escola e no intervalo foi  
biblioteca e se ps 
a pesquisar sobre doenas mentais; identificou em seu caso semelhanas 
com 
esquizofrenia*.
"Isso  grave! Ser que tenho essa enfermidade? No quero ter isso. Ser 
que imagino tudo, 
objetos no mexem nada, luz no apaga nem acende e eu acho que vejo? Que 
doena 
estranha e como faz o doente sofrer!"
Teve vontade de chorar, mas se esforou para parecer
natural e voltou para a classe.
Pensou muito e resolveu evitar de falar, de pensar sobre
doenas e achar mesmo que era um fantasma e se queixar o
menos possvel, no queria ser internado como louco.
Henrique j estava se afastando das pessoas, os amigos se reuniam, 
conversavam e ele 
preferia escutar, s dava alguns palpites. Tambm no conseguia prestar 
ateno nas aulas. 
Estava tenso e nervoso.
No outro dia, Roberto conversou cedo com Olegrio, que
continuava a vir duas vezes por semana cuidar do jardim.
* Esquizofrenia: termo que engloba vrias formas clnicas de psicopatia e 
distrbios 
mentais. Sua caracterstica fundamental  a dissociao das funes 
psquicas, disso 
decorrendo a fragmentao da personalidade e perda de contato com a 
realidade (N.E.).
40
- Senhor Olegrio, trabalha h muito tempo nessa casa?
- Sim, senhor, trabalho h anos.
- Nunca ouviu ou viu nada de estranho? - Indagou Roberto.
O senhor quer dizer assombrao? No, senhor, nunca vi ou ouvi nada de 
estranho -
respondeu o jardineiro.
- Voc sabe o que ocorreu aqui? L no banco o pessoal j me avisou que 
esta casa  
assombrada e que ningum
morava aqui h muito tempo.
- Se  assombrada eu no sei - respondeu Olegrio -, mas desde que 
ocorreu o crime, 
isso h muito tempo, ningunl mora aqui por muito tempo.
- O crime? O que sabe sobre isso? - Perguntou Roberto.
- No sei bem o que aconteceu, mas sei quem sabe.
A Rita, que foi empregada da casa na poca do crime. Ela
era mocinha quando tudo aconteceu, agora j  uma se nhora, ela mora l 
do outro lado. Se 
o senhor quiser, lhe dou
o endereo.
Roberto anotou o nome da empregada, onde morava e
decidiu ir at l, queria saber o que ocorrera na casa.
Henrique,  tarde, conversou com Nena.
- Voc acredita em mim? Vejo a assombrao. Bem, no sei o que  
realmente.
- Menino, no sei se acredito em alma penada - falou a empregada.
- Seria engraado se o fantasma tivesse pena como as galinhas - expressou 
o garoto, 
rindo.
Osvaldo no achou graa.
"Quem tem pena  sua av!"
- Quem tem pena  a av!
Henrique falou, parou e olhou para Nena, que tambm largou o que fazia e 
olhou assustada 
para ele.
- Por que disse isso, Henrique?
- No sei, falei sem perceber. Que estranho!
"R, r, r! O moleque repete o que eu digo. Maravilha! Agora estou no 
caminho certo, 
esse garoto ir fazer a famlia
se mudar, ah, se vai!"
41
Henrique foi brincar com os cachorros e Nena continuou
seu trabalho, pensativa.
"Esse menino no est normal. O que ser que ele tem?
Est estranho!"
O mocinho estava triste, pegou os cezinhos, acariciou-os, depois os 
colocou no cercado. 
Um deles correu para um lado, ento Henrique escutou um barulho e um 
rudo esquisito. 
Quis correr, mas resolveu investigar.
"Preciso ter coragem, parar com isso, de ter tanto medo,
e ver o porqu do barulho."
Percebeu ento que um dos ces chorava, uma tbua
cara em cima dele. O garoto suspirou aliviado, tirou a tbua
e agradou o filhote.
"Quando estamos com medo, gato vira ona."
Ficou tempo arrumando o canil, brincando com os cachorros, distraiu-se, 
mais aliviado, 
pensou:
"Creio que devo enfrentar o medo e verificar a procedncia dos barulhos 
que escuto, talvez 
ache explicao para
tudo isso. Bem, pelo menos nem tudo  inexplicvel."                
Roberto estava inquieto, em casa parecia que estava sempre vendo vultos, 
parecia ouvir 
risadas, como tambm tinha visto objetos se mexerem. Aquela casa deveria 
ter algo e resolveu  procurar a dona Rita, que Olegrio recomendara para 
saber o que de 
fato acontecera ali.
Foi  tarde, achou fcil a casa e foi recebido por uma
senhora que o olhou fixamente. Por momentos ele no soube
o que dizer, tossiu e por fim falou:
- Senhora, desculpe-me se a incomodo,  que moro na Casa do Penhasco e 
estou tendo 
algumas dificuldades l. Sei que a casa tem uma histria e que a senhora 
talvez possa me 
ajudar me contando.
Dona Rita o olhou novamente, ficou quieta por segundos
e aps falou:
- Quem no tem histria? No sei se posso ajud-lo, mas posso falar o que 
sei. Era moa e 
trabalhava para o casal, o senhor Irineu e a dona Leda, eles moravam 
naquela casa. 
Trabalhava l tambm Osvaldo, que era caseiro e jardineiro. Quanto ao 
crime, ningum 
sabe o que ocorreu realmente
42
naqueles dois dias trgicos, me desculpe, mas nem eu sei, s posso falar 
o que ouvi. 
Trabalhei no sbado pela manh e quando voltei na segunda-feira, 
encontrei-os mortos. 
Ftima, a garotinha de cinco anos, caiu do penhasco, no buraco do lado 
direito da casa, 
onde agora tem as rvores,  que l foi aterrado. Ela estava l cada, 
morta, a pobrezinha. 
Na sala da frente os trs mortos, o casal e o empregado. Foi muito 
triste! Gostava muito 
deles, dona Leda era muito boa comigo. Os comentrios foram diversos, 
cogitou-se que 
algum estranho entrou l e assassinou todos, mas a polcia afirmou que 
dona Leda e a 
menina morreram no sbado, e os dois homens no domingo, e tudo indicava 
que o senhor 
Irineu se matou. O pai do meu patro veio enterrar os trs juntos. Os 
valdo foi sepultado 
como indigente. Tiraram todos os mveis da casa e a trancaram. Ouvi dizer 
que a casa ficou 
para o irmo do senhor Irineu. Ele at tentou alugar, reformou, mas todos 
tm medo. E isso 
aconteceu h tanto tempo!
- Dona Rita, existia na casa trepadeira, uma planta que cobre as paredes 
de fora da casa? 
- Perguntou Roberto.
- Sim, senhor, a casa tinha nas paredes heras verdes e estavam sempre 
podadas e bonitas 
- respondeu dona Rita,
saudosa.
- A senhora acha que a casa ficou assombrada?
- Que tem assombraes? Bem, no sei, nunca mais fui l, s escutei 
comentrios, mas 
em cidade pequena fala-se muito. Mas l aconteceu esse fato to triste, 
talvez um dos 
mortos no tenha encontrado paz e esteja l perturbando - respondeu dona 
Rita.
- Encontrar paz? Como se faz para ajud-los a ter paz?
- Indagou Roberto.
- Quem sabe? Talvez aquela religio que conversa com eles, os espritas.
- Sim. Obrigado, senhora.
- Espero que resolva esse problema. Se ele ou alguns deles estiverem 
vagando na casa, j 
 tempo de terem so sego - disse dona Rita.
Roberto foi embora e ento se lembrou do seu amigo
Virgilio.
43
Acontecimentos
De&
Quando Roberto chegou em casa  tarde, encontrou
Fbio conversando com a famliia. Aps os cumprimentos,
ele explicou ao dono da casa.
- Senhor Roberto, vim aqui para ver se quer colocar telefone em sua casa. 
A linha passar 
na frente, se quiser 
s puxar os fios e poder ter telefone.
- Aceite, papai, ser to bom! - Pediu Fabiana.
- No sei, vou pensar.
Roberto no queria assumir compromisso, talvez tivessem que se mudar. Era 
hora do jantar 
e a visita foi convidada e aceitou. Fbio olhava muito para Anglica, que 
se sentia 
incomodada. Aps foram para a sala, conversaram. Ao se despedir, Fbio 
pediu:
- Anglica, voc me acompanha?
Ela foi, estava inquieta. Ele falou:
- Anglica, no sei mais que desculpa dar para vir aqui e lhe ver. Deve 
ter percebido que 
estou interessado em voc.
Tenho chance?
-  que... - Anglica encabulou.
- J entendi, desculpe-me.
- Fbio, no  isso,  que estive doente, talvez nem tenha sarado e...
- J disse, esteve doente, no est mais - falou ele.
- Como pode ter certeza? - Balbuciou ela.
44
- Eu sinto que est curada e a doena no  desculpa para mim.
- Tive cncer no tero, que foi extrado - falou Anglica, baixinho.
- Por que diz isso para mim? - Indagou o moo. Anglica entendeu, ele s 
estava 
pedindo para namor-la, e no para se casarem. - Sorriu. Ele pegou na mo
dela e a beijou.
- Estamos namorando?
- Estamos!
Quando entrou na sala, todos a olharam por causa da demora e por ela 
estar to contente.
- O que aconteceu, Anglica? - Perguntou Fabiana.
-  que Fbio e eu estamos namorando.
- Legal, gosto dele! - Exclamou Fabiana.
- Eu tambm, e ele parece apaixonado por voc.  s observar a cara dele 
de bobo 
enamorado - comentou
Henrique rindo.
Todos riram, at Osvaldo ficou satisfeito ao ver a mocinha contente.
- Falei a ele de minha doena - falou Anglica.
- De sua ex-doena - corrigiu a me. - Mas, filha, por que fez isso?
Haviam combinado que l no iam comentar com ningum sobre a doena, para 
evitar 
comentrios que j a fizeram sofrer: "Ser que ir sarar?" "E to nova!" 
"No poder ter 
filhos!" "O cabelo crescer!", etc.
- Senti vontade de contar tudo ao Fbio - disse a mocinha, suspirando.
- Espero que ele no conte a ningum - expressou Dinia. Foram dormir e 
Osvaldo ficou 
na sala, murmurou:
"Hoje no assusto ningum, estou emocionado com a alegria da Carequinha."
No outro dia, Henrique ia subir a escada quando colocou
a mo no corrimo e sentiu como se tivesse colocado a mo
em outra muito gelada, grande e peluda; arrepiou-se, tirou
a mo, teve vontade de gritar, mas s gemeu. Assustou-se,
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ficou parado por segundos e aps subiu a escada correndo, sem colocar a 
mo novamente 
no corrimo. Fabiana estava no seu quarto. Henrique, no querendo ficar 
sozinho, foi para o 
quarto dela.
- Oi, Fabiana, o que est fazendo?
- Arrumando o quarto - respondeu, sem prestar aten o nele.
- Fabiana, como voc est na escola? J se acostumou mesmo?
- No comeo senti falta de minhas amigas, mas agora me acostumei, as 
meninas so bem 
legais. E tem o Leco, que
 o mximo.
Henrique teve de ouvir a irm falar do Leonardo, o Leco, por quem estava 
interessada, tudo 
era prefervel a ficar sozinho. S de pensar naquela mo, arrepiava-se. 
Ficou l com a irm 
at serem chamados para o jantar.
Todos foram dormir, Roberto pegou o jornal para ler. Ficou pensando: 
"Tenho de tomar 
uma atitude, no gostaria de mudar dessa casa e ter de falar a todos que 
ficamos com medo 
dos fenmenos estranhos que aqui ocorrem. Estou com d do meu filho, o 
coitado est 
apavorado. Ser pai no  fcil, ter de tomar decises da famliia parece 
s vezes complicado. 
O fato  que eu tambm tenho me sentido mal nesta casa. As vezes me sinto 
exausto, como 
se algum absorvesse minha energia. Outras, sinto tristeza, como se 
estivesse sozinho, 
engraado isso, eu, sozinho! A sensao de no ser amado  to forte que 
di; outras vezes 
sinto dor no peito, como a que Henrique diz sentir. As risadas so 
aterrorizadoras. J 
pensei muito e concluo que no  impresso. Li h tempos que existe a 
possibilidade de ler 
na energia que envol ve objetos ou lugares os acontecimentos marcantes 
ocorridos com ou 
neles. Parece que se chama psicomefria*... isso mes mo. Mas se aqui 
aconteceu um crime, 
no  isso que vemos
*psicometria: mediunidade segundo a qual o mdium, posto em contato com 
objetos, 
pessoas ou lugares relacionados com acontecimentos passados, sintoniza se 
de tal maneira 
com o clima psicolgico em que esses acontecimentos ocorreram que se 
torna capaz de 
descrev-los (N.E.).
46
ou ouvimos. Ento no deve ser isso. Henrique tem medo de estar doente, 
no creio, vejo e 
ouo tambm. Mas se falar isso, vou apavorar todos. Acho que pelo bem da 
famlia 
devemos nos mudar, tentar negociar a multa do contrato, afinal no 
aluguei casa com 
fantasmas. Se meus amigos souberem disso, iro rir pareo um menino com 
medo. Se pelo 
menos tivesse certeza de que esse fenmeno no nos prejudica. 
Prejudicando? Claro que 
est! Meu filho est apavorado e isso comea a me preocupar. Pensei que 
aqui iramos ter 
o sossego to almejado. Sofremos tanto com a doena de Anglica, gastei 
muito, fiz 
dvidas, comprei os mveis  prestao e estou pagando o emprstimo. E 
aqui Dinia est 
ganhando bem. O que fazer?"
De repente pareceu ver a caixa de charutos se mover. Ele
no fumava, havia ganhado de um cliente aquela caixa e a
deixou em cima da mesinha.
"Fume! Fume! Quero desfrutar do fumo, faz tempo que
no trago!" - Insistiu Osvaldo.
Roberto pegou a caixa, teve vontade de acender um
charuto, mas se conteve.
"No fumo e no  agora que o farei. Que vontade
estranha!"
Apreensivo, foi dormir sem acabar de ler o jornal.
Na escola os amigos de Henrique insistiram com ele para
serem convidados a visitar sua casa.
- Gostaramos de ir l, nunca fomos.
- Prometemos no bagunar. Fala-se tanto dessa casa que estamos curiosos. 
Ento, 
podemos ir? -
- Henrique, ela  assombrada ou no? E verdade que a alma penada do 
criminoso est l? 
Ele matou uma menina
bem pequena.
- No tem nada,  uma casa como outra qualquer - respondeu Henrique.
- Se no tem nada a esconder, nos convide.
- Est bem, espero vocs hoje  tarde. Podem ir de nibus, ele pra na 
estrada - 
concordou Henrique.
Os meninos se entusiasmaram e Henrique ficou preocupado. Voltou para casa 
pensativo.
47
"E se o fantasma assustar meus amigos? Como expli car? Bem, posso dar 
algumas
explicaes. Se uvirem risadas, digo que  uma gravao que fiz para 
assust-los, se virem objetos se mexerem, falo que amarrei com linha e 
puxei. Posso falar que
fiz para
animar.  isso mesmo!"
Mas ficou apreensivo. No almoo falou a todos que os
amigos vinham. Dinia pediu  empregada:
- Nena, faa um lanche para eles. Que sejam bem-vin dos, gosto da casa 
cheia, podem
passear por a com eles.
Vieram doze, estavam curiosos, observaram tudo com ateno, foram ao 
pomar, comeram
frutas, brincaram com os cachorros, riram e conversaram, animados. 
Henrique fi cou tenso
o tempo todo, tentando parecer normal. Nena ser viu um lanche saboroso, 
os garotos
gostaram.
- Puxa, Henrique, que casa gostosa! Lugar bonito! Vocs esto bem 
acomodados aqui.
Que sorte!
- Parece tudo to normal! A histria da assombrao  falatrio de cidade 
pequena.
- Queria morar aqui!
Henrique sorriu ao escutar os amigos, suspirou aliviado.
Quando foram embora, pensou: "Ainda bem que o fantasma
no os assombrou."
Osvaldo ficou olhando tudo aborrecido e quieto. "No me importo com essa 
molecada, eles
no moram aqui. No sou palhao para dar espetculo. Quero assombrar os 
da casa. Ainda
bem que esses pestinhas foram embora. Como so alegres!"
Naquela semana, como todo primeiro domingo do ms, era o da visita que 
Nena fazia ao
irmo, que estava preso. Osvaldo ficou na cozinha observando-a, e quando 
ela se ps a
pensar ele ficou escutando.
"Antonio logo ser solto. J sofremos tanto separados,  justo que 
fiquemos juntos. Como
iremos fazer? Ser que terei de ir embora daqui? J no sou to nova para 
arrumar outro
emprego, depois de todos esses anos, tenho-os como minha famlia, faz 
onze anos que
trabalho para eles. Como me aven turar por a sem emprego? Sei que para 
ele ser mais
difcil,
48
ningum quer dar emprego para ex-presidirio. E eu quero tanto ficar com 
o Antonio.
Como dizer aos meus pafres que menti esse tempo todo? No comeo achei, 
quando vim
tra balhar para eles, que seria mais um emprego, e para que me aceitassem 
menti, dizendo
que Antonio era meu irmo, como tambm inventei o motivo de ele estar 
preso. Se no
fizesse isso, naquela poca, ningum me daria emprego. Eles acre ditaram 
e no checaram
se era verdade, e o tempo foi passando, eu fui gostando deles cada vez 
mais, eram, so
minha famlia, porque a minha mesmo nem conheci, meus pais me 
abandonaram. Fui bem
pequena para uma instituio, quan do sa, me arrumaram emprego de 
domstica, mas l
um dos moos, filho dos meus patres, tentou estuprar-me, tive de sair e 
foi nesse momento
difcil que conheci Antonio e nos apaixonamos, a aconteceu aquela 
desgraa, fugi com ele,
at que foi preso e j est h treze anos na priso. Ainda bem que ele 
logo ir ser
beneficiado com a liberdade condicional. J estivemos muito tempo 
separados, agora quero
ficar com ele. Mas como? Quero tanto continuar aqui, com essa famlia. 
Como farei para
me desmentir? Ser que vo conti nuar confiando em mim? Meu Deus! O que 
fao? E to
difcil contar a verdade!"
"Mas que empregada mentirosa! - Exclamou Osval do. - Enganou a todos, diz 
que  o
irmo que visita mas 
o amante! Isso no fica assim!"
No domingo, cedinho, Roberto levou Nena at a rodovi ia. Ela foi cheia 
de sacolas com
roupas, doces, bolo, etc. Osvaldo ficou olhando, quis ir junto para ver o 
que a empre gada ia
fazer, mas no conseguiu sair, o mximo que ia era at o caminho.
"Que maldio! Queria tanto ir com ela. Nena vai visitar
um preso, queria ver como  uma priso. Antonio est preso
como eu, s que ele recebe visita e eu no!"
Dias se passaram e Osvaldo estava impaciente, no era sempre que 
conseguia fazer
barulho, assustar os dois. Tentava e, quando dava certo, se divertia. 
Queria que eles se
mudassem para ficar s naquela casa, sua priso, embora s vezes achasse 
que no era to
ruim assim ter companhia.
49
Estavam todos almoando, Nena tomava as refeies com eles, era tratada 
como um
membro da famlia. Roberto tirou do bolso uma carta. Como a 
correspondncia demorava
para ser entregue, ali o correio passava uma vez por semana, ia ento 
para o endereo do
banco.
- Chegou uma carta para voc, Nena,  do seu irmo.
"E agora que desmascaro esta mentirosa!" - Afirmou Os valdo. Se aproximou 
de
Henrique, que falou o que ele queria.
- Deixe-me ver! Engraado, Nena, seu irmo no tem o mesmo sobrenome seu! 
Por que
isso? Voc pode nos expli car? Ser que no  seu namorado? Pelo seu 
jeito, ! Voc
mentiu! Este Antonio  seu namorado!
Nena viu sua mentira descoberta, levantou-se e pegou
tremendo a carta.
- E verdade isso, Nena? - Perguntou Dinia.
Fez silncio por segundos. Nena comeou a chorar.
- E verdade! Antonio  como se fosse meu marido. - Fa lou Nena, saindo da 
sala.
- Eu sinto muito... - Balbuciou Henrique, comeando a chorar, e saiu 
tambm.
O pai foi atrs, a me o acompanhou, o almoo termi nou. O garoto sentou-
se no sof e
chorou sentido, Roberto o
abraou.
- Papai, no agento mais isso! Nunca ia ofender Nena, gosto dela. Fui 
indelicado, grosso,
a fiz chorar. Estou sendo sincero, no sei por que falei. No sabia nada 
daquilo. E isso est
ocorrendo, falo coisas que no quero, vem forte, parece que estou 
impulsionado e falo.
Fez silncio, at que Dinia falou:
- Que coisa! Primeiro foi com Fabiana, os pesadelos, o tratamento; depois 
a doena de
Anglica, agora voc. Devemos lev-lo a um psiclogo ou psiquiatra!
- Leve-me aonde quiser, eu topo! Fao qualquer coisa para ficar livre 
disso. Por Deus,
papai, vamos mudar! E vergo nhoso eu dormir no quarto de vocs, estou 
cansado, nervoso,
 s chegar em casa sinto como se tivesse dois buracos no peito, escuto 
barulho, vejo
objetos mexer. Eu estou sofrendo!
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- Meu filho, entendo voc. Vamos ajud-lo - consolou
Roberto.
Henrique saiu, foi para seu quarto triste e aborrecido. Osvaldo 
resmungou:
"Ser que exagerei? Estou com d do garoto; depois, a
empregada est se desmanchando em lgrimas."
- Roberto, Henrique est me preocupando. Ser que  adolescncia? - 
Indagou Dinia.
- No creio, Henrique sempre foi um bom menino. Dinia, eu tambm tenho 
visto e
ouvido coisas estranhas nesta casa
e, como ele, no tenho me sentido bem aqui.
- Por que no me disse? - Perguntou a esposa, preocupada
- Para no a assustar. Que voc acha de pedir ajuda ao Virglio? Ele  
esprita, nos ajudou
com a doena de
Anglica.
- Ele orou por ela, nos visitava sempre nos animando, mas agora  
diferente. Vou falar
com o padre da cidade, es pere, Roberto, deixe primeiro eu pedir ajuda ao 
proco. Vou hoje
mesmo.
Roberto concordou. Dinia foi trocar de roupa para ir  cidade junto com 
o marido. Ele
ficou pensando no amigo. Conhecia Virgiio desde criana, cresceram 
juntos, moravam
perto, gostavam um do outro, freqentaram a mesma escola, ele era leal e 
bondoso. Quando
moo passou a freqentar o Centro Esprita, tornou-se religioso.Roberto 
no gostava de
falar sobre o assunto e o amigo no insistia, mas sabia que ele via 
pessoas que morreram,
conversava com elas e, segun do ele, o Espiritismo o ajudou muito. 
Virgiio era tranqilo,
confiava nele.
Dinia foi  igreja, observou tudo, era simples, pequena e muito bonita. 
Lugares de orao
sempre lhe davam calma; ajoelhou-se e orou, sentiu-se melhor. Viu uma 
senhora
arrumando o altar, foi at ela e pediu para falar com o padre. Esperou 
meia hora. A mesma
senhora a convidou.
- Por aqui, o padre ir receb-la.
Aps os cumprimentos, Dinia foi logo ao assunto.
51
- Senhor, sou catlica, moro na Casa do Penhasco, l no morro, e estamos 
passando por
dificuldades. Meu filho e meu esposo tm visto e ouvido coisas estranhas 
por l, o menino
est apavorado. Gostaria que o senhor fosse l benzer, sei l, exorcizar 
a casa. O senhor ir,
no ? Porque, se no for, meu esposo vai chamar um amigo dele que  
esprita.
- Na Casa do Penhasco... Mas a senhora j mudou h um bom tempo e no 
veio  missa.
-  que tenho estado muito ocupada - justificou-se Dinia.
- Senhora - falou o padre -, no sei se posso ajud-la. J estive l a 
pedido de uma
outra famlia. No h nada de errado com a manso,  impresso, talvez 
pelo tipo, pelo
lugar em que est a casa ou pela tragdia que ocorreu l.
- Ento o senhor no vai me ajudar? - Indagou Dinia, indignada.
- Acho que  melhor seu esposo chamar o amigo esprita, afinal o 
Espiritismo mexe com
o demnio. Desculpe-me, se nhora, estou muito ocupado, espero v-los 
domingo na missa.
Dinia deu um sorrisinho forado, despediu-se e pensou:
"No quer nos ajudar e convida para a missa."
Outras pessoas aproximaram-se e ela se afastou, sen tida. Voltou de 
nibus para casa.
Nena no sabia como agir, fez seu servio normalmente aps ter chorado 
por tempo. Queria
tanto contar a verdade! Imaginou muitas maneiras de faz-lo e sentiu ter 
sido daquele jeito.
No entendia Henrique, era to educado, amava os trs como se fossem 
filhos dela, cuidava
deles, Dinia sempre trabalhou e as crianas ficavam por conta dela. 
Agora o me nino
Henrique estava mudado, desde que mudaram para aquela casa estava 
estranho, calado,
quase nem brincava com os cachorros. Algo estava errado, pensou ela.
Ningum tocou no assunto. Foi como se no tivessem
descoberto, cada um estava envolvido em seus problemas,
que eram muitos.
Anglica s pensava em Fbio. Estava muito entusias mada com ele, o 
namorado to
atencioso, carinhoso. Quanto mais o conhecia mais o achava inteligente, 
simples e, o mais
importante, ele parecia tambm enamorado. As vezes tinha
52
a impresso de conhec-lo h muito tempo, riam quando des cobriam 
interesses em
comum, gostavam das mesmas coi sas. S que j no era indiferente  morte 
como alguns
meses atrs, queria sarar para estar sempre perto dele. Estava preo 
cupada. "Ser que sarei
ou no?" - Indagava a si mesma. Mesmo no querendo pensar na sua doena o 
fazia.
Queria muito estar curada. Tambm a mocinha estava preocupada com o 
irmo, queria
todos bem e Nena estava includa nesse desejo, gostava dela.
Fabiana no queria dar palpite, achava que se o problema era aquela casa, 
deveriam se
mudar. Achava-a estranha; de pois no gostava de pensar que ali houve um 
crime brbaro.
Quanto a Nena, entendia-a por ter mentido, o fizera por medo de ser 
mandada embora. No
queria separar-se dela, que considerava uma segunda me.
Diriia estava com uma encomenda grande, tinha que trabalhar e estava 
preocupada com o
filho. No sabia o que fazer, se o levava ou no para a casa de sua me. 
Mas se o fizesse ele
perderia o ano letivo. Ser que ele estava doente? Seria srio? Sofrera 
tanto com a doena
de Anglica, ainda tinha medo de que o cncer surgisse em outro rgo, 
nem bem passara a
preocupao com um, vinha o outro.
Esperava resolver esse problema com Nena, no sabia por que ela mentira. 
Algo muito
srio deveria ter ocorrido para ela esconder a verdade esses anos todos. 
No queria perd-
la, gostava dela, estava com eles havia tantos anos, sempre leal, 
trabalhadeira. Se ela fosse
embora, teria mais um problema, ainda mais que a faxineira avisara que 
no vinha mais, era
a terceira que desistia.
Mesmo preocupada, Dinia concentrou-se no trabalho.
Roberto no pensou mais no assunto, achou que Nena
poderia explicar, tinha muito o que fazer e estava muito preo cupado com 
Henrique.
Quando Roberto chegou para jantar, encontrou Henrique
parado, de p ao lado de uma janela, no sof livros abertos.
- Papai, amanh tenho prova e no consigo estudar, acho que estou doente.
53
- No, filho, voc no est doente, para tudo isso que est acontecendo 
deve ter
explicao. Reaja, no se deixe
abater. Vamos confiar, tudo voltar ao normal.
O jantar foi servido e Nena no se sentou a mesa. Roberto
indagou:
- Nena, por que no se senta conosco? No quer jantar?
-  que... No sei se devo - respondeu Nena, encabulada.
- Sente-se, por favor - insistiu Roberto.
Ela se sentou e Henrique falou:
- Desculpe-me, Nena, no quis ofend-la. No quis mesmo.
-Estamos com muitos problemas, que fique tudo como antes, depois 
resolveremos o seu,
est bem, Nena? - Disse
Dinia.
Jantaram em silncio. Logo aps vieram Fbio e os ami gos de Fabiana, 
conversaram
animados na sala. Henrique ficou quieto, estava triste. Quando as visitas 
foram embora, as
duas os levaram at os carros. Fbio indagou  namorada:
- Est acontecendo alguma coisa com vocs? Henrique est to quieto.
- Acho que  esta casa, Henrique insiste em dizer que v e ouve coisas.
- E voc, v ou escuta? - Indagou o moo.
- No, mas s vezes tenho sensaes estranhas, como se algum me chamasse 
de
Carequinha e risse de mim.
- Anglica, se seus pais quiserem mudar eu tiro a multa e arrumo outra 
casa boa para
Vocs.
Quando ela entrou em casa, os quatro estavam ainda
na sala, e Anglica comentou o que Fbio dissera. Henrique
falou, triste:
- Tudo por minha causa! Vou superar isso! Se todos gos tam daqui e se 
esto bem, vou
me adaptar. Tudo pode ser
impresso ou estou doente. Hoje vou dormir no meu quarto.
- No, filho, eu acredito em voc, no quero que sofra com medo. Dormir 
conoscO, se
insistir eu irei para seu quar to, vou junto - disse o pai.
- Roberto - falou Dinia -, telefone, por favor, para seu amigo Virglio, 
pea ajuda a
ele, convide-o para vir aqui. Creio
que ele pode nos auxiliar.
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- Boa idia - expressou Anglica. - Ele me ajudou tanto quando eu estava 
doente, me
animava, eu me sentia bem
quando ele me dava passe.
- Tambm aprovo, gosto dele, acho a Doutrina Esprita muito fraterna e 
verdadeira a
teoria sobre reencarnao.  muito triste e injusto pensar que se vive 
uma vez s aqui na
Terra - opinou Fabiana.
- Vou fazer isso. Amanh mesmo telefonarei do banco
para ele.
Foram dormir mais esperanosos.
55
Pela manh, Roberto tentou falar com seu amigo Virglio e no conseguiu, 
porque este no
se encontrava em casa; estava aflito para faz-lo. Achava que ele, com 
seu conheci mento e
bondade, os ajudaria. S o fez  tarde. Contou sem entrar em detalhes o 
que ocorria e pediu:
- Por favor, nos ajude novamente, venha nos fazer uma visita com a Silze. 
Aproveitar
para conhecer o local, descansar um pouco. Aqui  pacato e tem um clima 
muito bom, ver
como  bonito e como estamos com problemas.
- Daqui a vinte dias teremos um feriado que poderei emendar. Vou 
conversar com Silze,
telefono avisando se der para ir. Roberto, ore mais e pea para todos em 
casa orarem. Eu
vou fazer minhas preces daqui e pedir aos bons espritos para ajud-los.
E Virglio o fez, na reunio daquela noite, da qual partici pava com 
outros companheiros no
Centro Esprita que fre qentava; orou e pediu auxlio para os amigos.
Carmelo era um desencarnado trabalhador do bem e amigo de Virglio, 
estava no plano
espiritual j havia algum tempo. Tinha ajudado Anglica quando ela estava 
doente,
aprendera a am-la e queria bem a todos da famlia. Ao sa ber do 
problema, pediu ao
mentor espiritual da casa para ver o que ocorria e tentar ajud-los. Foi 
dada a permisso e
Carmelo foi para l visit-los.
Logo que chegou, Carmelo entendeu o que estava acon tecendo. Viu Osvaldo, 
mas este no
o viu. Osvaldo tinha
56
poucos conhecimentos do plano espiritual, via e agia como se estivesse 
encarnado, s veria
um outro desencarnado se fosse como ele ou se um bom abaixasse sua 
vibrao. Carmelo
preferiu no ser visto por ele, isso facilitaria, por enquanto, seu 
trabalho.
Analisou o que estava acontecendo e traou um plano de ajuda, se 
organizou e tomou
algumas providncias. Orou e incentivou os moradores da Casa do Penhasco 
a faz-lo.
Conseguiu, todos passaram a orar. E no domingo, quando reunidos,  noite, 
Roberto os
convidou:
- Virglio nos recomendou que orssemos mais. Vamos fazer uma prece 
juntos?
Isso melhorou os fluidos do lugar. Enquanto oravam, Car melo deu passe em 
todos,
acalmando-os, concentrou sua ajuda em Henrique, no deixando mais que 
Osvaldo sugasse
as energias; com isso ele no pde mais mexer objetos nem fazer barulho. 
Vigiava Osvaldo
de perto, tambm lhe dando energias benficas que o faziam dormir. Ele 
passou a adormecer
muito. Com sono ia para um canto da sala e dormia. Resmungava sem 
entender o que
acontecia:
"Que preguia, at parece que estou encarnado. Estou com muito sono, se 
estivesse no
corpo fsico diria que estava doente. Que moleza! Pior que no consigo 
fazer nenhum
assombro. Desse jeito eles iro desistir de se mudar. Vou dor mirde 
novo!"
nena estava quieta, conversava s o essencial e comeou, a pedido de 
Roberto, a orar
mais. Estava mais calma, porm muito preocupada, sabia que logo iria ter 
que contar a
verdade e temia a reao de seus patres.
As garotas tambm passaram a fazer mais preces. Henri que sentiu-se 
melhor, mais
disposto e se ps a estudar, estava atrasado na escola e queria se 
recuperar. O casal
aguardava esperanoso a chegada do casal amigo.
Para melhor ajudar, Carmelo soube de tudo, quem eram os envolvidos nos 
acontecimentos
ocorridos ali no penhasco, onde estavam e o porqu de Osvaldo estar ali. 
Assim ficou
conhecendo a histria real dos ex-moradores da Casa do Penhasco.
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Irineu, o antigo proprietrio, era jovem quando conhe ceu Leda e 
apaixonou-se por ela. Ele
era de uma famlia rica, seus pais tinham uma fbrica de produtos 
agrcolas e ele viajava
para vend-los. Sentia-se feliz. Conheceu Leda quan do foi a trabalho 
quela cidade e
comearam a namorar. A famlia dele no queria o namoro, acharam-na 
vulgar e tambm
falavam muito mal dela na cidade. Mas ele teimou e, quando ela ficou 
grvida, eles se
casaram. Alugaram uma casa na cidade, onde passaram a residir. Irineu 
preferiu morar
longe de sua famlia, j que eles no gostavam de sua esposa, e continuou 
com seu trabalho
de viajante.
Ele comprou as terras do penhasco no morro, amou o lugar assim que o viu. 
Leda no
gostou, achou que ali ficaria isolada, mas acabou concordando e a casa 
foi construda,
demorou para ficar pronta, foram trs anos e meio de cons truo, mas 
ficou como eles
planejaram, uma casa grande e muito bonita.
Quando se mudaram, a filha, Mana de Ftima, a Fatinha,
j era grandinha. Irineu queria mais filhos; Leda no, achava
que davam trabalho e que deformaria seu corpo.
"Tenho medo desse penhasco,  perigoso o lado direito
da casa, vou ter de vigiar bem a menina" - dizia Leda.
"Realmente  perigoso, vamos proibi-la de ir l" - falou
Irineu.
De fato, do lado direito da casa havia um declive com muitas pedras. 
Irineu mandou fazer
uma trilha, um estreito caminho que o contornava. Achava perigoso, mas 
muito lindo.
Quando construiu a casa, quis preservar o penhasco. Andava muito por ali 
admirando a
paisagem. Conversou com a filhinha pedindo que no fosse l e a 
garotinha, obe diente,
realmente no ia. Irineu continuava apaixonado pela esposa, fazia tudo 
para agrad-la,
gostava de ficar em casa, era carinhoso, s vezes ficava aborrecido por 
ela gastar mui to,
mas tentava justificar pensando que ela era jovem, que fora pobre e tinha 
vontade de
possuir objetos. Para atend-la trabalhava muito.
Leda foi uma jovem rebelde e independente, deu muitos
aborrecimentos aos seus pais. Muito volvel, ficou grvida
58
por trs vezes e abortou. Quando Irineu se interessou por ela,
ambiciosa, tudo fez para conquist-lo. Pensou:
"E a oportunidade de acertar minha vida. Ele  rico e
poder me tirar dessa pobreza."
Ficou grvida e contou a ele, chorando.
"Irineu, me entreguei a voc por amor e estou grvida. Case-se comigo! 
No abortarei,
nunca faria isso com um filho seu, j o amo como amo voc. Vai me deixar 
ser me
solteira?"
"Casaremos. Amo voc e o nosso filho!" - Decidiu Irineu.
No comeo foi novidade, ela curtiu o casamento, a gravi dez e a filhinha, 
depois comeou a 
ficar entediada; frvola,
logo teve amantes.
Osvaldo foi uma criana que sofreu muito. Quando era pequeno, a me foi 
embora, no 
agentou o marido bbado a surr-la e ele nunca mais soube dela. Osvaldo 
passou a morar 
com a av, me de seu pai, que no lhe tinha amor nem pacincia, estava 
sempre o 
xingando e dizendo que a me o abandonara; isso o fazia chorar, sentido. 
O pai lhe tratava
com indiferena, mas mesmo assim ele o temia e o evitava. Um dia seu pai, 
bbado, caiu na 
linha do trem e desencarnou num triste acidente. A av tornou-se mais 
amar gurada, tirou-o 
da escola e o ps para trabalhar. Passou por muitos empregos. Quando foi 
trabalhar para 
Irineu, a casa ainda estava em construo. Fez de tudo por l, ajudante 
de pedreiro, 
carpinteiro e por fim cuidou do pomar e do jardim.
"Osvaldo - disse Irineu -, venha morar no penhasco, va mos arrumar este 
cmodo de 
madeira e dormir aqui, assim
impedir que me roubem material de construo".
Achou bom, ali no pagaria aluguel nem gua e luz, teria seu ordenado 
livre. Arrumou o 
cmodo da melhor maneira e ficou satisfeito, estava bem acomodado. E para 
defender o 
local ou para assustar os ladres, Irineu comprou um revlver e o deixou 
com ele.
"Use s se for necessrio, para assustar."
Osvaldo se sentiu mais tranqilo, guardou a arma e
passou a fazer seu servio, contente. Ambos, patro e em pregado, estavam 
satisfeitos.
59

Via pouco Leda, sua patroa. Achou-a linda, mas ela nem o olhava, mal 
respondia ao
cumprimento. Quando a casa ficou pronta, eles mudaram e ele continuou no 
seu quartinho.
"Fique conosco, Osvaldo - falou Irineu. Continuar no quartinho mas 
poder tomar as 
refeies na cozinha, facilitando sua vida. Assim se alimentar melhor e 
sobrar mais do
seu ordenado. Far o servio mais pesado da casa, cuidar do pomar e do 
jardim"
"Aceito sim, senhor, elhe agradesceu- respondeu Osvaldo, contente.
"Voc sabe que viajo muito e ficando por aqui terei mais
sossego, a casa  isolada. Vou guardar o revlver na gaveta
desse movel, pegue-o se necessario.
Irineu gostava do empregado e este dele. Leda dava-lhe ordens, sorria 
alegre e quando 
percebeu que o empregado a olhava admirado, ela comeou a provoc-lo, 
embora no 
querendo nada com ele, nem para amante. Osvaldo, encan tado, comeou a 
achar que ela 
estava interessada por ele e logo estava apaixonado.
Fatinha era uma graa, obediente, meiga, amava muito
o pai, que lhe dava muita ateno e carinho.
Rita era a empregada da casa, gostava muito da patroa,
que lhe dava muitos presentes.
Osvaldo, muito apaixonado, comeou a seguir Leda e logo descobriu que ela 
tinha dois 
amantes. Um deles era um jovem da cidade que fora seu namorado antes de 
ela se casar. E 
o outro, de uma cidade prxima, era mais velho e casado, os dois eram 
apaixonados por ela 
como o marido e Osvaldo.
O amante, que era casado, quis abandonar a famlia por ela, o pai dele 
interferiu, foi visit-
la e implorou para
que abandonasse o filho.
"Do seu filho eu no largo at que eu enjoe. Mas no se
preocupe, no vou abandonar meu lar por ele."
Osvaldo, que estava escondido, ouviu tudo. Tinha cime
dela e estava vivendo um tormento.
Mas Leda logo enjoou desse amante. Ele, apaixonado,
queria que ela fosse embora com ele. Osvaldo, que tudo
60
sabia, apavorava-se, no queria que sua amada fosse embora. Leda terminou 
tudo com ele, 
mas este homem, apaixona do, tentou se matar, ficou doente, largou a 
famlia e ela voltou a
ser sua amante.
Osvaldo sabia tudo que acontecia com Leda, pois a vigiava e sofria com 
cime. Resolveu 
conquist-la sendo agradvel, dando-lhe flores, presentes. Ela recebia 
indiferente, ora 
sendo gentil, ora rindo dele. Essa situao estava ficando insuportvel 
para o jardineiro, que
s pensava nela e no sabia como agir, se declarava ou no seu amor, 
temia a resposta dela. 
Sonhava que ao se declarar ela largaria o marido para ir embora com ele. 
Mas para onde? O 
que fazer para sustent-la? Leda ia continuar a ter amantes? Pensava 
muito e no chegava a 
nenhuma concluso.
Irineu s vezes desconfiava da esposa, mas se iludia,
estava muito apaixonado e ela o envolvia, levando-o a
pensar que era amado e que no deveria sentir cime.
Irineu viajou, ia retornar no domingo. No sbado, aps
a empregada ter ido embora, Osvaldo viu que Leda estava
na sala sozinha. Procurando ter coragem, foi falar com ela.
"Leda, preciso lhe falar."
"Que intimidades so essas? Como entra na casa assim
sem pedir permisso? Senhora, para voc sou dona Leda" - respondeu ela 
autoritria, mas 
rindo, zombando dele.
Osvaldo ficou parado sem saber o que fazer. Ela estava muito bonita, toda 
arrumada, talvez, 
pensou ele, fosse en contrar com um dos amantes. Ficou nervoso e com 
cime. Ela saa 
muito para esses encontros, muitas vezes deixando a filhinha sozinha, e 
quando o marido 
viajava, recebia-os ali. E certamente, concluiu ele, estava se preparando 
para receber um 
deles. Vendo que o empregado no falava nada, Leda falou, debochando:
"Vamos l, j que est aqui, diga logo o que quer."
"E que eu amo voc, a senhora. Amo-a muito!" - Mur murou o jardineiro.
"E da? O problema  seu, no fiz nada para conquist-lo."
"Voc tem outros amantes e eu..." - Falou Osvaldo,
gaguejando.
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"J lhe disse que para voc sou senhora. Como ousa? No tenho amante 
nenhum!" -
Gritou Leda.
"No precisa negar, sei de tudo! H tempo a sigo. E, se 
amante deles, pode ser minha tambm."
"Abusado! Quem voc pensa que ? E s um simples jar dineiro. Como se 
atreve a falar 
assim comigo? Nunca serei
de pessoas como voc, um simples empregado.
"Voc tambm tem origem humilde, veio de famlia po bre" - justificou 
ele.
"Voc disse bem, fui, tive e no tenho mais. Agora sou
rica, bonita e fao o que quero. V se se enxerga, no  nada
para me dizer isso, me ameaar" - exaltou-se ela.
"Dona Leda, no me provoque, se  amante daqueles
dois, pode ser minha. Seno contarei tudo para o senhor
Irineu" - ameaou Osvaldo.
"Ah, ? Conta tudo? Tudo o qu? Voc acha que meu esposo vai acreditar em 
voc? Vou 
lhe mandar embora, quan do Irineu chegar vou dizer que voc me 
desrespeitou, mexeu 
comigo. E vou lhe perseguir, no deixarei ningum por aqui lhe dar 
emprego. Nojento! 
Nunca serei sua amante! Jamais! Voc me d nojo!" - Falou Leda, sorrindo 
cinicamente.
Osvaldo sentiu muito dio. Veio dizer a ela do seu amor e
recebeu ofensas, zombarias. Sem refletir, foi at o mvel onde
estava o revlver e o pegou.
"Mato a senhora!" - Exclamou, irado.
"Mata nada, voc no serve nem para isso! E um imprestvel! Um pobreto!"
Osvaldo ento atirou duas vezes no peito dela. Leda caiu e ele viu no seu 
olhar indignao e 
espanto. Ela morreu e ele ficou ali apavorado, sem saber o que fazer. 
Tonto, confuso, 
sentou-se numa poltrona, sofria, ele a amava e agora ela es tava morta e 
fora ele que a 
matara.
Quando Leda saa de casa ou recebia os amantes, querendo que a filha 
ficasse no seu quarto 
quieta, no inco modasse, dizia  menina que ia passear no penhasco, que 
l era perigoso e 
ela no podia ir. Fatinha ficava sozinha, como tambm no dizia ao pai 
porque a me pedia:
62

"Papai no quer que vamos l, mas eu sou grande, gosto
e posso ir. Voc no deve dizer nada para ele."
E a garotinha no dizia, no comentava com ningum. Mas naquele dia, como 
se passaram 
horas, cansou de ficar brincando no quarto sozinha e achou que a me j 
deveria ter 
voltado. Desceu as escadas, chamando-a.
Osvaldo estremeceu com a vozinha da garotinha, mas no saiu do lugar. A 
menina viu-o e 
teve medo. Ela o co nhecia, ele trabalhava em casa, mas espantou por v-
lo de cabelos 
espetados, olhos avermelhados e roupas desarru madas. Assustou-se e 
falou:
"Mame! Vou com voc no penhasco!"
Correu. Osvaldo ficou ainda por instantes parado, de pois repetiu o que a 
menina disse e 
exclamou:
"Meu Deus! Fatinha foi para o buraco!"
Saiu da casa correndo e foi para a trilha que rodeava o
buraco. Quando ela o viu, correu mais.
Osvaldo apavorou-se:
"Preciso alcan-la,  perigoso' - pensou aflito.
"Pare, Fatinha! Pare! Cuidado!" - Gritou com voz rouca, assustando mais 
ainda a menina.
A garota chegou na trilha, estava ofegante, com medo,
queria gritar pela me e no conseguia.
A torceu o p, mas no parou de correr, desequili brou-se e caiu no 
buraco, desencarnou na 
queda. Osvaldo se desesperou, desceu e verificou: ela estava morta. Subiu 
e voltou a casa, 
onde ficou na sala com o cadver de Leda.
Estava atnito, pensou em fugir, mas no tinha coragem de deix-la ali, 
amava-a, agora ela 
era dele. Passou a noite confuso, desequilibrado, acabou dormindo e 
acordou com Irineu 
chegando.
O dono da casa assustou-se vendo a casa aberta, pois era muito cedo. 
Entrou chamando 
pela esposa e pela filha. No tendo resposta, foi de cmodo em cmodo e 
quando viu 
Osvaldo sentado numa poltrona, assustou-se:
"O que faz aqui?"
A viu a esposa morta. Estava gelada, com os olhos
abertos.
63

"Leda! Leda! O que aconteceu? Est morta! Osvaldo, o
que aconteceu aqui? Fale! Foi voc?"
"Sim!" - Respondeu Osvaldo, baixinho.
"Miservel! Por qu? Onde est minha filha? Cad Fati nha?" - Perguntou 
Irineu, 
desesperado.
"Morta no buraco!"
"Assassino!" - Gritou o dono da casa.
Ento viu a arma em cima do sof, pegou e apontou para Osvaldo, que nem 
se mexeu.
"Morra! Voc merece morrer! Fique aqui, fique nesta casa
para sempre! Assassino miservel!"
Deu dois tiros no peito dele.
"Como viver sem elas? Como? Quero morrer tambm!" - Falou desesperado e 
chorando.
Apontou para sua prpria cabea e atirou.
Na segunda-feira cedo, Rita, a empregada, encontrou os
cadveres, saiu gritando e chamou a polcia.
Fatinha, ao ter seu corpo morto, foi desligada, levada para um socorro 
num educandrio da 
colnia do espao espiri tual do lugar. Ficou apreensiva, sentia o pai 
chamar por ela em 
desespero, no conseguia se tranqilizar e nem esquecer sua fuga e queda. 
Embora 
gostando do lugar, quis reencarnar para esquecer. A direo do 
educandrio resolveu que o 
melhor para ela seria a reencarnao, e ela voltou ao corpo fsico, agora 
era Fabiana.
Leda desencarnou confusa e com espanto, nunca pensou que aquele empregado 
bobo e 
apaixonado tivesse coragem para tanto. Foi horas depois que desencarnara 
que foi desli 
gada do corpo fsico por um grupo de arruaceiros e levada ao Umbral, onde 
se afinou e 
passou a viver como moradora, como membro do grupo. Quando conseguiu 
entender o que 
de fato lhe ocorrera, um deles lhe deu notcias.
"Sua filha desencarnou ao cair do buraco, onde foi pro cur-la. Seu 
esposo matou o 
assassino e depois se suicidou."
"Onde est minha filha?" - Indagou Leda.
"Os bons a pegaram, foi levada para um lugar onde
no podemos ir porque no merecemos" - respondeu o
companheiro.
64
"Ela est bem?"
"S pode estar, os bons, como o adjetivo diz, so bons
mesmo, adoram crianas e quando estas desencarnam eles
as socorrem."
Leda no quis saber de mais nada, no queria pensar na vida que teve 
encarnada, estava
bem para procurar encrenca. A filha era um anjo e anjos vo para o cu. 
Depois, foi ela
quem mentiu para a menina dizendo que ia na trilha para poder sair e 
encontrar com os
amantes, e Fatinha fora l para procur-la. Entendeu que teve culpa, mas 
no quis se
amargurar com remorso, resolveu esquecer tudo e aproveitar a companhia 
daqueles novos
amigos e as farras que faziam. O esposo, aquele bobo, que se danasse, e 
Osvaldo que ficasse
longe dela.
O tempo passou e Leda continuou com o grupo fazendo algazarra no Umbral e 
entre os
encarnados. Mas comeara a se cansar e ultimamente pensava muito na 
filhinha e em um de
seus amantes, o mais velho, que orava muito por ela.
Irineu, como desencarnou por seu ato impensado, seu esprito continuou 
ligado ao corpo
fsico. Viu de forma confu sa os policiais ach-lo. Ficou indignado com o 
desrespeito com
que era tratado. Com dores terrveis e achando que seu corpo no tinha 
morrido, queria ir
para um hospital ou morrer. Pensava, agoniado:
"Por que no morro?" No quis acreditar no que os policiais diziam, que 
estava morto.
"No  hora de brincar! Estou vivo, me socorram ou eu acabo de fazer o 
que fiz mal feito.
Matem-me!"
S comeou a duvidar que seu corpo fsico estava vivo quando seus 
familiares chegaram,
trocaram sua roupa e o colocaram num caixo. Escutou choros e 
lamentaes. Seu
desespero foi terrvel quando o fecharam e ele ficou no escuro. Percebeu 
que colocaram o
caixo em outro local e escutou o barulho de ferramentas fechando o 
tmulo, depois o
silncio. Que desespero! Que horror! Irineu, seu esprito, seu verdadeiro 
eu, ficou no corpo
e foi enterrado sem ser desligado. S al gum tempo depois que uma equipe 
de socorristas o
desligou
65
da matria morta e por afinidade foi atrado para o Vale dos Suicidas, 
uma regio do
Umbral para onde vo os que mataram seu corpo fsico. Sofre-se muito 
nesse local. L sen
tia dores, fome, frio e muita solido, embora houvesse muitos por ali; 
mas todos estavam
confusos tanto quanto ele, por anos ficou perturbado, revoltado e 
desesperado. Mas o remorso
comeou a despert-lo para a realidade, maldizia-se por ter comprado a 
arma e por ter,
naquela manh de domingo, agido precipitadamente e acreditado no 
empregado. Se sua
filha estivesse viva, teria ficado, com seu ato, sem pai e me. Mesmo se 
ela tivesse morrido,
agora ele sabia que ningum acaba com a morte do corpo fsico. Fatinha, 
como ele, estaria
vivendo de um outro modo. Pensava amargurado:
"Se no tivesse arma em casa, Osvaldo no teria matado Leda, nem eu a ele 
e a mim.
Talvez ficasse tudo numa discusso. Se no tivesse pegado aquele maldito 
revlver,
poderia ter amarrado o assassino, chamado a polcia e ele teria sido 
preso. Sofreria, mas
continuaria vivendo e quem sabe estaria feliz, o tempo passa e a gente 
esquece, s no
passa aqui nesse inferno. Tudo  prefervel a isso que sofro agora."
E Carmelo, aps o visitar, achou que ele poderia ser
orientado e socorrido.
Osvaldo, ao receber o impacto das balas do revlver, foi desligado 
violentamente do corpo
morto e ali ficou perturbado, tendo pesadelos. Quando melhorou, sentiu-se 
preso, ficou na
casa, j que seu quartinho fora destrudo. Tambm ele maldizia ter pegado 
a arma. Pensava,
agoniado:
"Se no tivesse revlver na casa, teria s discutido com Leda, no mximo 
teria dado uns
tapas nela. Ela me man daria embora, eu teria ido, esquecido, e tudo 
estaria bem. Maldito
revlver!"
Aps saber tudo, Carmelo traou planos para socorrer
todos os envolvidos. Quando Virglio e Silze dormiram, ele
1- O revlver no  culpado,  apenas um objeto. Mas tanto Irineu quanto 
Osvaldo tm
razo; se no houvesse arma na casa, tudo teria sido diferente. Haveria 
discusso, briga que
no mximo resultaria em agresso fsica. Mas por imprudncia a arma 
estava l e foi
indevidamente usada (Nota do Autor Espiritualj.
66
conversou com seus espritos, informando-os de tudo. Como
tambm falou com o orientador espiritual da Casa Esprita
 qual eram vinculados e obteve permisso para que fizesse
o necessrio para o socorro deles.
Carmelo continuou dando passes em Osvaldo, fazen do-o dormir, e em 
Henrique,
impedindo que lhe tirassem
energias.
Na casa no houve mais manifestaes, no se ouviram mais barulhos nem 
objetos se
mexeram. Henrique conti nuava dormindo com os pais, e pai e filho estavam 
muito
assustados.
Virglio confirmou sua ida e todos aguardaram ansiosos
a visita. Roberto tinha a certeza de que o amigo resolveria o
problema deles.
67
Orientando
Foi uma alegria a chegada de Virglio e Silze na Casa do Penhasco. Os 
dois acharam o
lugar maravilhoso, mas logo perceberam que ali estava um desencarnado 
necessi tado de
orientao. Conversaram, trocando notcias, e Henrique disse:
- Virglio, tenho estado perturbado, no estou nada bem. Queria saber de 
voc se estou
louco.
- Claro que no, Henrique, voc no est doente. Voc  mdium isto , um 
paranormal
que tem sensibilidade para ver e ouvir pessoas que mudaram de plano, que 
tiveram o corpo
fsico morto e que continuam vivos. Mas h algumas pessoas que fazem essa 
passagem e
por algum motivo perma necem em certos lugares, e pessoas sensveis 
conseguem per
ceber. Isso no  um fato incomum, h mdiuns por toda parte que passam 
pelo que voc
est passando.
- Se no  raro, por que no sei de mais ningum? - Perguntou o garoto.
- Voc mesmo no escondeu isso? Comentou com al gum? As outras pessoas 
tambm
evitam falar, com receio de
serem chamadas de mentirosas ou doentes. Mas dentro do
* Mdium:  a pessoa que pode serrvir de intermediria entre os espritos 
e os homens.
Costumam-se chamar de mdiuns apenas as pessoas que tm sensibilida de 
mais acentuada
para esse intercmbio, mas, na verdade, todos somos mdiuns, pois a 
influncia dos
espritos se exerce em ns de alguma forma, ainda que no a percebamos 
(N. E.).
68
meio esprita fala-se muito sobre isto, dando compreenso e entendimento 
sobre o assunto.
Pela ajuda dada a esses sensi tivos, que chamamos de mdiuns, essas 
pessoas convivem
com esse fenmeno com naturalidade.
-  mesmo? Que alvio! Ser que um grupo esprita me aceitaria? Quero que 
voc me
arrume por aqui um lugar a que eu possa ir para conversar e aprender a 
lidar com tudo isso,
seno vou enlouquecer - falou Henrique.
- Certamente, Henrique - respondeu Virglio. - Vou dei xar aqui alguns 
livros que eu
trouxe que falam sobre o assunto; leia para que voc entenda, porque, 
quando conhecemos,
dominamos e acaba-se o medo.
Voc tambm passou por isso? - Quis saber Anglica.
- Fui um garoto diferente desde pequeno, recebia recados de familiares 
mortos, que
chamamos de desencarnados. Ouvia-os e s vezes via-os, tinha medo, mas 
minha me acreditava
 em mim. Embora tivssemos outra religio, levava-me para tomar passes. 
Curioso,
fui me informando sobre o as sunto. Quando tinha dezenove anos passei a 
estudar todas as
religies e gostei. Compreendi que como o nome j fala, religio 
significa religar, unir o
homem a Deus. Todas tm bons princpios, ensinam a fazer o bem e a evitar 
o mal. Mas ao
estudar o Espiritismo, maravilhei-me com as leis da reencarnao e a da 
causa e efeito.
Entendemos a justia divina quando entendemos que temos muitas 
oportunidades de voltar
a nas cer na Terra para evoluirmos, e a de causa e efeito, que tudo que 
fizermos de bem ou
de mal teremos o retorno. E foi a Doutrina Esprita que explicou o que se 
passava comigo;
tornei-me esprita e sou muito feliz por isso. Foi num Centro Esprita 
que conheci Silze e
nos apaixonamos; ela  mdium, trabalhamos juntos e temos educado nossos 
filhos no
Espiritismo.
A noite, aps o jantar, Virglio convidou a todos para
sentarem nas confortveis poltronas da sala para fazer o
Evangelho no Lar*
* Evangelho no Lar: reunio feita para orao e estudo de O Evangelho 
Segundo
o Espiritismo. E realizada sempre no mesmo dia da semana e no mesmo 
horrio
para facilitar a presena de amigos espirituais (N.E.).
69
- Nos Evangelhos esto contidos os ensinamentos de Jesus, nosso Mestre 
Divino, que
veio encarnar entre ns para nos ensinar. Vocs devem ter por hbito ler, 
estudar e uma vez
por semana reunirem-se para faz-lo juntos. Um l, co menta-se e aps 
oram.
Silze abriu o Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, e se ps 
a ler a pgina
aberta. Do captulo quatro:
"Ningum pode ver o reino de Deus se no nascer de novo", e no item vinte 
e cinco:
"Necessidade da encarnao".
Todos prestaram muita ateno. Fabiana comentou:
- Interessante! Tem lgica!
- Parece que sempre pensei assim. Ao escutar, senti conhecer o assunto - 
expressou
Anglica.
- Muito boa a comparao que se fez sobre o estudante. De fato, se cada 
encarnao  um
ano de estudo que se deve fazer, ativo  quem aproveita e no repete a 
lio. Vou gostar de
ler este livro! - Falou Henrique, entusiasmado.
Osvaldo estava na sala, viu pessoas diferentes, mas
sentiu tanto sono que nem pde ver quem eram. Ficou sono lento, ouviu o 
Evangelho e
voltou a dormir.
Aps alguns comentrios, oraram. Todos gostaram e
prometeram que num dia da semana iriam reunir-se para
orar juntos e estudar o Evangelho.
Foram dormir. No outro dia, cedo, passearam pelas redon dezas, foram  
cidade e  tarde,
como Virglio havia combi nado com Roberto, reuniram-se numa pequena 
sesso de
desobsesso para conversar com os desencarnados envolvidos com aquela 
casa*
- No costumo fazer isso, nos  recomendado que essas sesses sejam 
feitas nos Centros
Espritas, que  o lugar apro priado. Mas pedi permisso aos mentores do 
meu centro e eles
recomendaram faz-lo aqui e viro para nos ajudar.
Dinia tambm quis participar. Reuniram-se na sala, em
volta da mesa. Virglio orou, pedindo proteo:
*  recomendvel que a desobsesso seja sempre realizada em um Centro 
Esprita por
causa da proteo e do campo vibratrio que h nesse local. Excepcional 
mente, com
preparo e cuidados antecipados, a desobsesso pode ser feita em outro 
lugar. Veja O Livro
dos Mdiuns, captulo 23 (N.E.).
70
- Estamos reunidos aqui em nome de Jesus e a Ele pe dimos proteo e 
amparo no
trabalho que iremos fazer. Permita, Senhor, que os bons espritos estejam 
presentes e nos
orientem. D-nos a inspirao para melhor ajudar esses nossos irmos que 
sofrem, auxilia-
nos para que possamos ser veculos desse socorro. Pai Nosso...
Carmelo e outros companheiros j haviam organizado
tudo. Buscaram Irineu no Vale dos Suicidas, no Umbral
Irineu sentiu-se aliviado ao sair do vale, comeava
arrepender-se do seu ato impensado. Reconheceu a casa
chorou, depois ficou quieto como lhe foi pedido.
Leda estava vagando no Umbral; foi convidada para ir
 Casa do Penhasco por um trabalhador do grupo.
- Que vou fazer l? Nunca mais voltei.
- Voc precisa de orientao, faz tempo que desencarnou. No quer mudar 
de vida?
- Tenho estado cansada, s vezes penso que o melhor seria esquecer tudo. 
Sinto-me
culpada! Est bem, vou com voc.
Chegou a casa, olhou tudo, saudosa. Estava modificada; ao ver Irineu, 
apiedou-se. Seu
esposo estava mudado. Tinha um ferimento no ouvido que sangrava, estava 
sujo, ftido,
olharam-se por um instante e ambos choraram.
Osvaldo foi despertado e levado  outra sala, a que esta vam reunidos; 
ficou num canto.
Assustou-se ao ver os dois l,
quis sair, foi impedido, ento ficou quieto, observando tudo.
Aproximaram Irineu de Silze, que ficou ao lado dela, pr ximo a uns vinte 
centmetros. Os
trabalhadores do bem que
estavam ali para auxiliar ajudaram esse intercmbio, para
a e
2 - Umbral  um local no Plano Espiritual onde ficam desencarnados que 
no merecem ou
no querem viver em planos elevados. Vale dos Suicidas  um local no 
Umbral para onde
vo os que mataram seus corpos fsicos. Ao cometer esse ato, a primeira 
decepo  de que
continuam vivos, pois no conseguem matar o esprito, o verdadeiro eu. H 
muitos vales
espalhados pela Terra. L a permann cia no  eterna, mas temporria, e 
esse tempo
depende de muitos fatores; cada um fica o tempo que lhe  necessrio. E 
um local de
sofrimento: quem transgride as leis divinas, desarmoniza-se e necessita 
harmonizar-se, e a
dor  uma grande lio. Mas em todos lugares h o socorro, irmos 
ajudando a outros. E no
Vale dos Suicidas tambm h essa bno, e os suicidas tm novas 
oportunidades de
auxlio e de reencarnao (N.A.E.).
71
que, por meio da mediunidade de Silze, ele pudesse sentir a energia de um 
corpo fsico e
ouvir a orientao. Ele comeou a falar emocionado e a mdium repetiu:
- Quanto tempo se passou? Muitos anos? Sculo?
- Foram dois decnios e meio, meu irmo - respondeu Virglio, que 
conversaria com
eles.
- Aqui tudo est modificado. Mas por que foram me buscar?
- Meu amigo, voc no se arrependeu do que fez? J sofreu muito, por que 
no pedir
perdo e socorro a Deus,
nosso Pai? - Falou Virglio.
- Fui imprudente, errei muito, acreditei na pessoa amada que me traa, 
matei seu
assassino, no verifiquei o que ocorrera com minha filhinha e me 
suicidei. Quanta
desgraa! No deveria ter feito isso, nem mat-lo e nem a mim - falou 
Irineu, e os
encarnados ouviam por Silze, que repetia palavra por palavra o que ele 
dizia.
- Voc os perdoou? - Indagou Virglio.
- Sim, porque eu tambm preciso de perdo.
- Amigo, pense em Jesus o abenoando e vamos ajud-lo.
Irineu recebeu fluidos bons e um dos desencarnados que estava ali para 
ajudar fechou seu
ferimento*, acabando com a dor. Irineu suspirou aliviado e chorou; dessa 
vez seu choro foi
de agradecimento. Tranqilo e agradecido, foi retirado de junto da 
mdium.
Leda chorou ao escutar o relato de seu ex-esposo. Apro ximaram-na de 
Silze e pelo mesmo
processo conversou com
Virglio.
- Voc aqui, Carmelo! - Exclamou Leda, e Silze repetiu.
Aps uns segundos ela continuou a falar
- Sinto-me culpada, no mereo ajuda! Desencarnei de forma brutal, nunca 
pensei que
isso fosse acontecer comigo, no pensava na morte, era jovem, sadia, 
alegre. Tudo que
aconteceu me pareceu, por muito tempo, um pesadelo, um sonho ruim do qual 
no
acordava. Me perguntava: por que
* O esprito fechou o ferimento aplicando energia fludica, pois atua 
sobre o perisprito e
no em um corpo carnal (NE.).
72
eu? Isso aconteceu mesmo? Por questo de segundos tudo acabou. Depois 
conclu que 
assim mesmo, a gente , e por um instante no  mais. Isso ocorre com 
tantas pessoas! A
iluso  falsa, parece que est tudo bem, acontece algo e desmorona, 
acaba tudo. No
pensei que aquele empregado, um simples jardineiro, tivesse a ousadia de 
atirar em mim,
mas teve e tudo se modificou. Mas o tempo passou e me acos tumei ao 
Umbral, tive
companheiros e tentei tirar proveito do que me foi oferecido. Estava bem 
l e vocs foram
cruis em me trazer aqui e ver ele, meu esposo, naquele estado.
- Por que nunca foi v-lo? - Perguntou Virglio.
- Achei que ele me odiava. Depois, s pensei em minha filha - respondeu 
Leda.
- Voc soube dela? - Indagou o orientador encarnado.
- Me falaram que ela foi socorrida pelos espritos bons que amparam 
crianas e me
despreocupei. Quis esquecer
tudo e fiquei por l, no Umbral.
- Minha irm, aqui estamos para que se reconciliem. Me diga, o que voc 
tem feito de sua
vida? Est feliz? - Pergun tou Virglio.
- No estou fazendo nada de digno. Quando encarnada aprontei muito; 
desencarnada,
continuei a viver entre farras e orgias, mas isso j no me traz 
satisfao. Agora que vi meu
esposo  que percebi quanto lhe fiz mal, ele matou e morreu por mim e nem 
juntos ficamos.
- Falou Leda com sincerida de. Suspirou e indagou: - Para onde ele vai 
ser levado?
- Para um hospital onde ex-suicidas so auxiliados.
- Poderei ajud-lo pelo menos?
- Poder visit-lo, quanto a ajudar, voc sabe? No! Mas poder aprender 
para auxiliar a
ele e a outros. Pea
perdo e perdoe - pediu Virgiio.
- Peo perdo e nada tenho a perdoar. Esse coitado que me matou morreu 
tambm e j
sofreu muito. Alm disso, brin quei com seus sentimentos - falou Leda.
- Voc tambm ser levada para um socorro.
- Agradeo!
Saiu de perto da mdium e ficou ao lado de um socorrista, com lgrimas 
escorrendo pelo
rosto. Foi a vez de Osvaldo,
73
que estava emocionado, nunca pensou em encontrar com seus ex-patres. 
Penalizou-se ao
ver o estado de Irineu e com os dizeres de Leda. Arrependeu-se 
profundamente e se
esforou para no chorar. Como no falava nada, Virglio o indagou:
- Voc, meu amigo,  que estava aqui assombrando?
- Sou eu sim, senhor - respondeu Osvaldo e Silze repetiu.
- Por qu?
- Fui impedido de sair. Tenho de ficar aqui para sempre e no quero 
companhia, ningum
na casa.
- Por que tem de ficar aqui? - Perguntou Virglio.
- Sou um assassino! Matei aquela dali. Mas no matei a menina. No mesmo! 
Ela desceu
a escada, me viu na sala, correu para o lado perigoso do penhasco, corri 
atrs para peg la,
para impedir de cair, e foi isso que ocorreu, ela caiu e mor reu. Mas 
seus pais no devem
preocupar-se com ela, Fatinha est bem, nasceu de novo,  bonita e amada 
- falou
Osvaldo.
- Voc se arrependeu?
- Sim, senhor, arrependi-me e sofro por isso. Se tivesse oportunidade de 
voltar atrs, tudo
ia ser diferente, no mataria ningum. Mas nada volta, no  mesmo? Se 
voltasse no faria
mais essa besteira. Isso di! E estou sempre pensando:
Se tivesse feito assim, no aconteceria isso... Sempre o se. Mas foi s 
um instante, fiz e est
feito e no tem reparo. Que coisa! O senhor j pensou nisso? E um erro, 
um descuido e est
feito o irreparvel, acontece um acidente, se mata, leva-se um tombo...
- Meu amigo, voc no precisa mais ficar aqui. Pea per do e venha 
conosco, ir
aprender a viver como desencarnado
e pensar na sua vida futura.
- Eles disseram que me perdoaram, agradeo. Peo per do de joelhos, mas 
 difcil eu me
perdoar. Mas ser que
consigo sair daqui? J tentei e no consegui - falou Osvaldo.
- Agora, com nossa ajuda, conseguir - afirmou Virglio.
- Obrigado! Quero ir com vocs, quem sabe nascer como Fatinha, num outro 
corpo, e
esquecer tudo. Mas por que vocs
vieram aqui? Tantos desencarnados bondosos.
74
- Viemos ajudar essa familia - respondeu Virglio.
- Prejudiquei-os tambm, no ? Coitado do garoto! Peo desculpa a eles. 
Se eu no
conseguir sair daqui, no vou
assombr-los mais - falou Osvaldo.
- Voc ir sair! Quem lhe prendia era voc mesmo. Sen tindo-se culpado, 
se puniu
ficando preso aqui. Mas agora acabou, pediu perdo e foi perdoado, todos 
iniciaro uma
vida nova.
Foi afastado da mdium e Carmelo aproveitou para falar
por Silze, dando algumas informaes:
- Meus amigos, vocs esto agora livres dos fenmenos estranhos que 
ocorriam nessa
casa. Viram que tudo tem expli cao, tudo que ocorria era porque um 
desencarnado estava
aqui, sem orientao, achando-se pela culpa preso, no queria ningum 
morando aqui, fazia
isso para que fossem embora. Podem ficar tranqilos e no precisam mais 
se mudar.
Orientado, ele foi embora e no volta mais. E apro veitem que esse casal 
amigo est aqui e
procurem adquirir informaes que os ajudaro a compreender o que se 
passou e que
evitaro muitas dificuldades futuras, porque tanto Roberto quanto 
Henrique so mdiuns.
Desejo a todos muita paz e tranqilidade, em nome de Jesus.
Despediu-se, Virglio orou, agradecendo, e deu por encerrada essa pequena 
sesso, mas de
grande ajuda.
Quando terminou, Dinia suspirou aliviada.
- Virgiio, pelo que entendi, o jardineiro que assassinou a dona da casa 
estava aqui e fazia
tudo aquilo porque queria que nos mudssemos. E que, agora, orientado, 
foi embora para o
lugar devido e ficamos livres desse tormento.
- E isso mesmo, Dinia - esclareceu Virgiio. - Ele se sentia preso aqui e 
queria ficar
sozinho. Aproveitando os fluidos de Henrique e de Roberto, ele conseguia 
fazer os
barulhos, mexer objetos. Agora, socorrido, viver digna mente, aprendendo 
para progredir.
- Quem o prendeu aqui? O dono da casa? - Dinia quis saber.
- Quando o ex-proprietrio o matou, disse para ficar aqui para sempre. O 
jardineiro,
sentindo-se culpado, ficou. Achou
75
que deveria estar, pelo seu crime, numa priso, e fez daqui a sua, como o 
outro lhe
ordenara. Esteve preso por sua cons cincia. Se autopuniu - respondeu 
Virgiio.
- Vamos dormir, estou cansada - pediu Silze.
Foram para seus quartos. Os visitantes dormiram logo,
Roberto e Dinia ainda conversaram um pouco.
- Roberto, nunca pensei que fosse possvel conversar com os mortos.
- Dinia,  desencarnado que se fala, porque ningum morre realmente, o 
corpo fsico
pra as funes vitais, mas a
gente continua vivo e vai morar em outro lugar.
- Voc parece interessado. Gostou? - Indagou Dinia.
- Gostei! Senti tudo muito verdadeiro, parece que j sabia disso. Vou ser 
esprita! H
muito sinto falta de me ligar a uma religio e o Espiritismo me parece 
racional. Para tudo
que voc quer saber, eles tm explicaes lgicas.
- Se Henrique melhorar, no estiver doente mesmo, eu irei com voc e, se 
entender, me
tornarei esprita tambm - decidiu Dinia.
Os dois oraram agradecendo a Deus e pedindo paz a
todos, e aps foram dormir.
Quando Virglio deu por encerrada a sesso, Carmelo e seus amigos 
desencarnados levaram
os trs para a colnia, e antes de eles serem encaminhados ao lugar que 
lhes cabia, puderam
conversar, ficar juntos por uma hora. Leda ficou perto de Irineu e disse 
baixinho.
- Voc me perdoou mesmo? Tra voc, no fui digna de seu nome, do seu 
amor.
-  melhor esquecer, j sofri muito. Amei voc com pai xo, agora quero 
t-la como irm.
O que importa para mim
 que Fatinha est bem.
Osvaldo intrometeu-se na conversa deles.
- Tudo por minha culpa! Comecei tudo!
- Voc foi culpado sim, mas no foi o pior - disse Iri neu. - Leda me 
traa, tinha dois
amantes, e quando desco brisse certamente iria mat-la e, achando que no 
viveria sem ela,
acabaria me suicidando. De qualquer forma faria uma besteira. No 
aceitaria ser trado e
nem viver sem ela.
76
- Acho que eu fui a pior - disse Leda tristemente. - Agi errado, fui 
leviana, provocava
Osvaldo e o desprezava, fui eu
que comecei, quem primeiro errou.
- Irineu tem razo, j sofremos muito e  melhor esquecer. O que importa 
 que nos
perdoamos e teremos a oportunidade de recomear, como nos disse aquele 
senhor
encarnado - expressou Osvaldo.
- Vamos recomear sem mgoas e eu quero aprender a amar de forma certa - 
falou
Irineu, determinado.
Osvaldo foi para a escola de uma colnia estudar e
trabalhar, se preparar para reencarnar para ter a bno do
esquecimento.
Irineu foi para uma colnia, das muitas que existem de recuperao de ex-
suicidas, onde
aprenderia a dar valor  oportunidade de viver por um perodo num corpo 
fsico. Tambm
ia estudar e trabalhar.
Leda pediu para ficar perto de Irineu, foi para uma colnia prxima  da 
dele, estudar,
trabalhar, e visitava-o sempre.
O casal ficou sabendo que Fatinha reencarnou e que agora era Fabiana. No 
tiveram
permisso para visit-la, mas
saber que ela estava bem os tranqilizou.
Naquela noite Henrique dormiu gostoso, tranqilo como
h muito no fazia. Carmelo aproveitou para falar com ele,
quando adormecido, para lhe dar confiana.
"Tente, Henrique, saber o que ocorreu. Quando conhecemos o assunto, 
dominamos nosso
medo. Compreendendo,
tudo fica mais fcil."
No outro dia, aps o caf da manh, Henrique aproximou-se de Virglio.
- Virglio, por que eu via e ouvia o fantasma?
- Porque voc tem mediunidade, sensibilidade para isso.
- Como vocs? - Indagou Henrique.
- Sim, como ns - respondeu Virglio.
- Por que isso aconteceu aqui? - Perguntou Fabiana.
- Trouxe comigo alguns livros e, se vocs quiserem, deix los-ei para que 
leiam. Esse aqui
 um livro do codificador da
Doutrina Esprita, isto , ele estudou esses fenmenos que
77
sempre existiram e os explicou de forma fcil, para que pudssemos 
entend-los. E O
Livro dos Mdiuns, de Allan Kardec; temos no captulo nono "Locais 
assombrados".
- Leia para ns, por favor - pediu Anglica.
Virgiio leu o to interessante captulo, na questo nona A. Henrique 
entendeu que aquele
desencarnado que estava ali na casa ficou preso l porque cometeu um 
crime e sentia- se
punido. Deveria ser horrvel no poder esquecer as cenas ruins e ter 
sempre a lembrana do
seu erro a atormentar. Como tambm se interessou pelas questes doze e 
treze. At inter
interrompeu Virglio.
- Ento, para expulsar os maus espritos,  preciso atrair os bons? E 
para ter os bons por
companhia  necessrio
melhorar. Parece fcil! Gostei!
Virglio sorriu e continuou a leitura, pois todos estavam
muito interessados.
- Por favor, leia os ltimos pargrafos de novo, achei muito interessante 
- pediu
Anglica.
Virglio leu:
- Resultadas explicaes acima que h espritos que se apegam a certos 
locais e neles
permanecem de preferncia, mas no tm necessidade de manifestar a sua 
presena por
efeitos sensveis. Qualquer local pode ser a morada obrigatria ou de 
preferncia de um
esprito, mesmo que seja mau, sem que jamais haja produzido alguma 
manifestao.
Os espritos que se ligam a locais ou coisas materiais nunca so 
superiores, mas por no
serem superiores no tm de ser maus ou de alimentar ms intenes. So 
mesmo, al gumas
vezes, companheiros mais teis do que prejudiciais, pois caso se 
interessem pelas pessoas,
podem proteg-las.
E finalizou:
- Vocs podem ler esses livros, aprendero muito.
- Eu vou comear j - afirmou Henrique. - Se tenho como entender tudo o 
que se passa
comigo e se  possvel conviver
bem com isso, farei com gosto.  um alvio no estar doente!
- Mediunidade no  doena, Henrique - falou sorrin do Silze. - Sou 
mdium, estou
tima, sinto-me bem e feliz
78
ajudando o prximo com ela. Mas voc agora  muito jovem para fazer o que 
eu fao.
Facilitar sua vida se agora entender, freqentar um Centro Esprita; 
tudo ir acontecer
naturalmente.
- Vou pegar isto! - Exclamou Henrique, contente.
Fizeram, curiosos, algumas perguntas. Virgiio e Silze res ponderam 
esclarecendo, ficando a
manh toda conversando.
- Como somos egostas! Virglio e Silze tambm vieram descansar, passear 
e ns os
prendemos em casa a manh
toda - falou Dinia.
- Viemos aqui com o objetivo de ajudar e esclarecer e estamos contentes 
com o interesse
de vocs - falou Virglio,
gentil.
- Bem, vamos almoar, depois levaremos vocs para conhecer o penhasco e  
tardinha
vamos dar um mergulho - falou Dinia.
Todos aprovaram e foram almoar.
Na praia, Virgiio afastou-se um pouco do grupo e encontrou-se com um 
senhor e se
puseram a conversar. Quando
novamente se reuniu com os amigos, Roberto falou, rindo:
- Voc j fez amizade aqui. Aquele senhor  muito simptico,  cliente do 
banco.
- Ele  esprita - respondeu Virglio. - J sei de um bom Centro Esprita 
para vocs
irem se quiserem mesmo freqentar. Hoje  noite tem uma reunio e o 
convido para ir
comigo, pois irei.
- que vou - respondeu Roberto.
As oito em ponto estavam no Centro. Roberto olhou tudo, aprovando. Foram 
s os dois, as
mulheres ficaram conver sando em casa. A reunio consistia de uma 
palestra e aps passes.
Os visitantes gostaram e aps ficaram conversando com o orientador da 
casa, que veio
cumpriment-los. Assim ficaram sabendo das atividades do Centro. Ao sair, 
Roberto
comentou com o amigo:
- Puxa, como fomos bem recebidos! Virei a essas palestras e quero 
participar do grupo de
estudo, certamente
para os iniciantes. Senti-me to bem ao receber o passe.
79
- Que bom, Roberto, v-lo entusiasmado! Tenho a certeza de que voc 
gostar e
aprender muito.
Roberto contou em casa tudo que viu e ouviu. A famlia
toda decidiu ir ao Centro Esprita.
A permanncia de Silze e Virgiio foi um prazer aos mora dores da casa. 
Conversaram
muito, mas chegou a hora de ir embora; despediram-se. Virglio prometeu 
atend-los
sempre que precisassem, e a Henrique, que lhe tiraria dvidas pelo 
telefone. O casal partiu
contente tanto por ter ajudado os amigos quanto pelos dias tranqilos que 
passaram ali.
E a casa parecia diferente, o ambiente estava agradvel.
Anglica exclamou:
- At parece que esta casa est mais bonita e alegre!
E ela tinha razo.
80
Dias depois Anglica teve de ir ao mdico e fazer exames. Os pais a 
acompanharam.
Ficaram hospedados na casa
da av materna.
Aps fazer todos os exames, Roberto retornou, tinha de
trabalhar. Dinia ficou com a filha, aproveitou para fazer al gumas 
visitas a amigos e
parentes, como tambm a clientes.
Anglica no teve nimo para sair, estava com medo e ansiosa. Aflita, 
esperou os
resultados. Reviu algumas amigas e recebeu visitas. Estava calada e 
esforava-se para no
ficar triste ou que a notassem preocupada. Carmelo os acompanhou, gostava 
de Anglica, e
quando ela orava ele lhe dava fluidos, transmitindo-lhe boas energias.
Por dias esperaram o resultado. Carmelo a observava, to jovem e j 
passara por uma
experincia difcil. Pediu aos seus orientadores na colnia para saber o 
porqu da doena e
teve permisso e soube da histria de Anglica.
Na encarnao anterior dela, certamente com outro nome, mas que vamos 
continuar a
cham-la de Anglica, porque nome no importa,  designao para ser 
reconhecido numa
existncia. Morava numa cidade pequena do interior, filha de pais pobres, 
mas muito
honestos, tinha muitos irmos, estudou s trs anos na escola, mas 
gostava de ler, era
romntica e esperava encontrar seu prncipe encantado, um jovem bonito, 
inteligente, que a
amasse muito. Sonhava, idealizando-o.
81
Mas seu pai a prometeu em casamento para um filho de seu amigo. No a 
obrigou a casar,
mas tudo fez para que se encontrassem, sassem juntos. Marclio no era 
nada parecido
com o que ela idealizava. No era feio, mas tambm ela no o achava 
bonito. Mais velho
que ela treze anos, era responsvel, simples e nada romntico. Foi 
envolvida e quando deu
por si, estava noiva de casamento marcado.
- Me - queixou-se ela -, no sei se o amo e se quero
me casar.
- Ora, filha, voc j tem dezesseis anos, est namorando h oito meses e 
ele  bom, tem
timo emprego e gosta de voc. O que quer mais? Largue de ser bobinha, o 
amor no
existe, s se quer bem. Com os anos voc aprender a gostar dele.
Anglica chorou muito, no sabia o que fazer; deixou-se
levar e tudo que marca data chega; o dia de seu casamento
chegou e casaram-se numa cerimnia simples.
Ela tentou adaptar-se, cuidava do lar da melhor maneira possvel; um ano 
depois nasceu seu
filhinho, e quando este fez dois anos nasceu o segundo. Eram dois meninos 
lindos, fortes e
sadios.
Marclio era maquinista, trabalhava dirigindo trem de
ferro, viajava muito, e Anglica ficava muito sozinha, dedicando-se muito 
aos filhinhos.
Pelo trabalho do esposo, tiveram de mudar para uma
cidade um pouco maior, mas no longe da que moravam
seus pais.
Acostumou-se logo nessa cidade. Embora o marido se
ausentasse muito, fez amizade com os vizinhos, moravam em
casa da companhia, todos ali trabalhavam na via frrea.
Um dia ela, deixando os filhos com uma vizinha, foi fazer compras. 
Costumavam muito
trocar favores assim. Ao passar por uma rua calada de paraleleppedos, 
tropeou, no
caiu, mas sim uma das sacolas, esparramando frutas pelo cho. Um homem 
foi solcito
ajud-la. Seguraram a mesma laranja e se olharam. Por segundos ficaram 
parados, encantados
 um com o outro. Com tudo novamente na sacola, o homem, que era jovem 
como ela,
se apresentou:
82
- Bom dia, sou Fbio, moro h pouco tempo na cidade. Muito prazer! 
Machucou-se?
- Bom dia! No me machuquei. Obrigada por me ajudar. Me chamo Anglica.
Ficaram parados se olhando, sem coragem de se afastar.
Mas foi ela que, dando um sorriso, se afastou.
Bastaram esses poucos minutos para se apaixonarem,
ou melhor, achar que estavam enamorados, um s pensava
no outro.
Anglica, envergonhada, no conseguia esquec-lo, era o prncipe que 
sempre sonhou.
Tentava prestar ateno nos filhos, nos servios de casa, mas no 
adiantava, ficava pen
sando nele o tempo todo. Comeou a sair mais na esperana de rev-lo. Eo 
viu perto do
armazm em que fazia compras. Ela estava com os filhos e s se olharam. 
Perguntou ao
dono do armazm quem era ele.
-  um forasteiro. Trabalha no correio, no escritrio,  casado e tem 
filhos. E meu cliente
tambm, parece ser direito,
me paga direitinho.
Ela quis ir no correio, mas tinha vergonha, mas justificou-se, l era um 
lugar pblico e
tinha cartas para levar. Comeou a escrever para as antigas amigas e 
parentes, passou a ir
muito ao correio. As vezes o via, se olhavam.
Meses depois desse encontro, do tropeo, Anglica recebeu um bilhete. Um 
garoto bateu
 sua porta.
- Senhora, vim lhe entregar isso!
Colocou na sua mo um papel dobrado e saiu correndo.
Anglica fechou a porta, abriu o bilhete com o corao disparado. Leu e 
releu inmeras
vezes.
Anglica, venha encontrar comigo. Necessito conversar
com voc. Hoje  tarde, s quinze horas, na casa abandonada
do morro. Por favor, venha.
Fbio.
O papel parecia queimar suas mos.
"No devo ir! No posso! Mas o que ser que ele tem a me dizer? No temos 
nada para nos
falar. Mas o que tem
demais conversar? E s um encontro. Acho que vou..."
83
Decidiu ir, o esposo estava fora, s voltaria no outro dia,
a noite. Pediu  vizinha para ficar com os filhos, se arrumou,
sem, entretanto, chamar a ateno, e foi ao encontro.
Teve de andar por quase meia hora. O local escolhido para o encontro era 
afastado da
cidade, ia pela estrada e depois por um atalho, e l estava a casa 
abandonada que ficava a
alguns metros de um grande lago. Por ali no havia movimento, o lago era 
mais
freqentado do outro lado, onde se faziam piqueniques e pescadores 
tentavam pescar.
Com o corao batendo forte ela chegou perto da casa.
- Anglica! Por aqui! Que bom que veio!
Fbio pegou na mo dela, a conduziu para dentro da casa, convidou-a a 
sentar num banco
limpo de madeira e, ao
lado, no cho, numa garrafa havia flores muito bonitas.
- Trouxe flores para voc... - disse Fbio.
- Como entrou aqui? A casa no fica trancada? - Perguntou Anglica.
- Fica, fiz uma chave. Antes de ter o emprego no correio, fui chaveiro. 
Vou esconder a
chave no canto direito do telhado, se voc precisar vir aqui,  s peg-
la. Tambm limpei a
casa na esperana de que viesse.
Ficaram quietos se olhando.
- Anglica, amo voc, no consigo esquec-la.
Bastou isso para ela se deixar ser abraada e beijada. Entregaram-se  
paixo. Depois
Anglica viu que ele preparara tudo, em um dos quartos da casa havia um 
colcho no cho.
Envergonhou-se, mas se sentiu feliz.
- Por favor, venha mais vezes, amo-a! - Pediu ele.
Combinaram de se encontrar sempre que possvel. Teriam de ter cuidado, 
eram casados.
Ela no iria mais tanto ao correio para evitar comentrios. Encontrariam-
se naquela casa
durante a semana, em que o lago no era muito visitado e quando Marclio 
estivesse fora.
Anglica tinha conscincia de que o que fazia no estava certo. Tentou 
ser como sempre,
mas depois de ter conhecido Fbio era quase insuportvel a presena do 
esposo. Amava
Fbio como em seus sonhos imaginava amar, como seu prn cipe encantado. 
No conseguia
ficar sem v-lo e tudo fazia
84
para se encontrar com ele. Deixava muito os filhos com as vizinhas, mas 
tambm os
deixava trancados em casa. Encontravam-se, s vezes,  noite, deixando os 
meninos
dormindo. Saa escondida de casa, andava no escuro, s vezes tinha medo, 
mas a nsia de
ver seu amado era maior. Fbio mentia  esposa, dizendo que tinha de 
trabalhar  noite.
Temendo que os vizinhos desconfiassem, por vezes levava os filhos e os 
deixava brincando
fora da casa, enquanto ficava com Fbio dentro. Sabia que era perigoso, 
mas mesmo assim
os deixava.
Reconhecia que estava agindo errado, por vezes quis ter minar, mas no 
tinha coragem.
Amava realmente Fbio.
E foi num desses encontros em que levou os filhos, deixan do-os fora da 
casa, que, ao sair,
no os encontrou. Procurou-os. Fbio at ajudou, mas logo parou, 
desculpou-se, tinha de ir
embora. Anglica ficou sozinha, gritou por eles, com medo foi  beira do 
lago, viu uma
sandalinha na margem e marca na terra de pezinhos, como se estivessem 
entrando na gua.
Desesperada, sem saber o que fazer, comeou a chorar.
"Vou para casa, talvez eles tenham ido para l. Sabiam o
caminho, vieram muitas vezes.  isso, eles foram embora."
Esperanosa, comeou a correr, mas a casa estava vazia, nada dos filhos. 
Com o seu choro,
as vizinhas correram.
Ela falou s amigas que, prestativas, foram ajudar.
- Levei-os para passear no lago, distra-me e eles sumiram.
- Distraiu-se com ele, no ? Com seu amante! Disse uma das vizinhas, e 
Anglica
entendeu que muitos sabiam.
Mas elas a ajudaram, saram procurando-os. Como no os encontraram, 
concluram que
eles foram para o lago e se afogaram. Escureceu e as buscas pararam, 
telegrafaram para
Marclio, informando-o. Anglica foi sedada para ficar na cama, dormiu e 
acordou quando
comeara a clarear, estava desesperada. O marido havia retornado, s a 
olhou, ela entendeu
que ele j sabia de tudo, no falou nada. Saiu com os outros; iriam 
mergulhar no lago para
ver se achavam os garotos. Ela ficou em casa sozinha, no sabia o que 
fazer, as vizinhas a
olhavam, reprovando. Uma delas at falou:
85
- Me desnaturada! No merece ser me! Se queria se prostituir, que no 
arriscasse a vida
dos filhos! Se eles estiverem mortos, voc que os matou!
Todas a olharam, concordando. Ela entrou em casa e
ficou sozinha. Era de tarde, quando escutou:
- Acharam os dois mortos no lago, afogados.
Sentiu uma dor to forte que desmaiou. Acordou com o
esposo lhe dando tapas no rosto.
- Acorde! Venha ver nossos filhos mortos! Morreram por sua imprudncia! 
Nem sinto a
dor de um marido trado. Culpo-a! Voc deveria ter ido embora com ele, 
mas no arris cado
a vida de dois inocentes. Desprezo-a! Eu poderia matar voc, todos 
entenderiam, nem seria
preso. Mas prefiro que voc viva e morra aos poucos de remorso, esta dor 
di mais. Nem
vontade de bater em voc tenho. Vamos, vista-se! Vamos ver nossos filhos 
mortos, vou
enterr-los, no d para esperar mais. Logo escurecer!
Marclio estava cansado, abatido, sofria muito. Anglica trocou de roupa, 
parecia alheia,
no chorou, acompanhou o marido, caminhou ao seu lado e foram ao 
cemitrio. Os filhos
estavam lado a lado em caixes brancos. Um de quatro anos e o outro de 
dois, logo ia fazer
trs anos. Lgrimas escorreram pelo rosto dela, ficou quieta ao lado dos 
caixes. Havia
muita gente, curiosos e parentes que vieram, ningum a cumprimentou, s o 
esposo foi
acalentado. Anglica no soube dizer quanto tempo ficou ali, fecharam os 
caixes e os
enterraram. Quando terminou, uma de suas irms chegou perto dela.
- Vamos para sua casa!
Caminhou, parecia que no era ela, estava atordoada.
Sentaram-se na sala. Marclio falou:
- Vou embora, mudarei para outra cidade. Desocuparei a casa e levarei 
todos os mveis.
Certamente irei sozinho.
Estou sofrendo muito.
Anglica ouviu palavras de consolo dirigidas ao marido.
No levantou nem os olhos, ficou quieta. Marciio voltou
a dizer:
- Quero dizer, com vocs aqui presentes, parentes meus e dela, que no 
quero mais
Anglica, que a enxoto! V
86
embora, Anglica! Fora dessa casa honrada que no soube
dar valor, que desonrou!
- Entendo voc, Marclio, e peo-lhe desculpas! Voc est certo! Anglica 
deve sair daqui
e esquecer que teve famlia, porque no a tem mais. Se tive uma filha que 
se chamava
Anglica, esta morreu e a enterramos com meus netos.
Escutou seu pai, e uma irm, que estava ao seu lado,
puxou-a pelo brao.
- Anda! V embora!
Anglica levantou-se, olhou para a me, trocaram um olhar por segundos, a 
me baixou os
olhos, ela saiu. Fora da casa estavam algumas vizinhas que a olharam, 
aprovando a atitude
do marido. De cabea baixa afastou-se da casa, e como se fosse atrada 
dirigiu-se  casa
abandonada. Entrou, sentou-se no colcho no cho e ali ficou at que, 
cansada, dormiu.
Acordou com a claridade. Lembrou de tudo e chorou muito. Estava fraca, 
no se
alimentava havia muitas horas, levantou-se foi ao lago e tomou gua, 
voltou para a casa e
ficou quieta. Olhou o lugar, ali fora to feliz, lugar de seus encontros, 
de seu erro que
resultou a morte de seus filhos. Ela pedia sempre a eles para no se 
afastarem, para no se
aproximarem da gua, eles eram obedientes, no entendia o porqu de eles 
terem ido.
Talvez quisessem brincar, entrar na gua. Mas agora no tinha mais 
importncia, estavam
mortos.
L estava o vo da porta, o esconderijo onde ela e Fbio
haviam combinado deixar bilhetes. Enfiou a mo no vo e l
estava um papel.
Anglica, sinto muito o que aconteceu. Sofro por voc. Despeo-me. Vou 
embora com
minha famlia para longe. Refaa sua vida. No vou esquec-la, sua 
lembrana estar
sempre comigo. Abrao-a.
Fbio.
Rasgou o bilhete e, vendo um fsforo, colocou fogo
no papel.
Entendeu-o, no lhe guardaria mgoas. Ela o amaria para sempre. Achou 
certo ele ir
embora, tinha filhos e estes deveriam ter o pai por perto para os 
proteger. Ela no teria
mais os seus para amar, no soubera cuidar deles. Foram culpados, mas ela 
foi mais.
Sentiu-se muito s, queria os filhos e chorou.
87
- Anglica!
Era uma de suas vizinhas, que colocou as mos em sua
cabea.
- Trouxe o que comer, calculei que estaria aqui. Coma!
- No tem nojo de mim?
- Por que teria? Vim escondido, no quero que saibam. Se meu marido 
souber  capaz de
me surrar. At que entendo voc, casou com um homem bem mais velho, que 
no lhe deu
ateno, estava longe da famlia. A encontrou um homem jovem como voc e 
foi uma 
tentao. S no entendo por que voc deixou os filhos aqui soltos, se 
era perigoso. O que 
voc vai fazer agora?
- No sei! Quero morrer!
- No faa isso, por pior que seja seu sofrimento, no ser um tero se 
voc se suicidar. 
Alm do que, seus filhos, os dois anjinhos, foram para o cu e voc ir 
para o inferno. Seu 
marido est mudando, falou que vai deixar suas roupas, vou peg-las para 
voc, amanh as 
trarei. Anglica, perto daqui tem um convento que abriga mulheres 
perdidas que querem se 
recuperar. As freiras so boas, abrigaro voc at que ar rume para onde 
ir. Vou para casa, 
mas amanh eu volto, espere-me aqui. No faa nenhuma bobagem, me 
prometa!
- Prometo! - Respondeu Anglica, suspirando.
O alimento lhe deu mais fora. Ficou na casa, mas estava aptica e muito 
triste.
"No sou digna de ser me. Matei meus filhos! Sou
culpada!"
De tardezinha foi ao lago, tomou gua, encheu uma
garrafa; olhou para as guas, o lago estava calmo, tranqilo.
"Nem parece que foi aqui que meus filhos morreram. Nessas guas paradas, 
parecendo um 
enorme espelho. So traioeiras, assassinas. No! No posso colocar a 
culpa no lago, s eu 
sou culpada. Poderia entrar e me afogar, mas sei nadar. Ser que o 
desespero do 
afogamento no me faria sair nadando? Desespero da morte! Ser que meus 
filhos sofre 
ram muito para morrer? No quero imaginar seus rostinhos
88
lindos tentando respirar. No sou digna de morrer. Como meu marido disse, 
devo ficar viva 
e sofrer, mereo. A morte seria um alvio que no mereo."
Voltou para a casa; a noite trouxe a escurido, ento sentiu-se ainda 
mais sozinha.
"Vou ser sempre s! Essa dor ser minha companheira..."
Dormiu, sonhou com os filhos, acordou sorrindo, chamando por eles, mas 
logo recordou 
tudo e chorou muito. No saiu da casa, teve medo que algum a visse. A 
tardinha a vizinha 
voltou.
- Anglica, seu marido foi embora, peguei suas roupas e as trouxe. Coma 
este alimento e 
parta j daqui.
-Porqu?
- Quando peguei suas roupas, as pessoas desconfiaram, ficaram observando-
me. Creio 
que sabem que eu as trouxe para voc. Eles esto revoltados e  melhor 
sair j daqui. A 
noite, quando estiver sozinha, eles podem maltratar voc!
- No mereo?
- Acho que no. Voc sofre muito. Mas elas tambm no merecem fazer 
impensado, algo 
de mau. Voc entende? Elas so pessoas boas, comuns, s que podem querer 
fazer justia, 
esto revoltadas. Por favor, v embora!
- Vou para o convento!
- Vamos juntas at o atalho, de l voc vai para a outra cidade. Ande  
noite e esconda-se 
de dia.
Foram caladas. Ao se separarem, Anglica lhe falou:
- S Deus para lhe pagar! Obrigada! Espero que eles no fiquem com raiva 
de voc por 
isso!
- Tudo passa, Anglica! Lembre-se disso!
Anglica caminhou a noite toda, queria distanciar-se da cidade; pela 
manh descansou 
escondida, sua gua acabou. Dormiu um pouco embaixo de uma rvore;  
tarde recomeou 
a andar. Seguiu descansando e andando, de madrugada encontrou gua, 
tomou-a, 
armazenou na garrafa e continuou andando. Chegou no convento quando j 
havia amanhecido 
 Uma irm a viu, ajudou-a, ela pediu abrigo. A madre superiora veio 
conversar com 
ela.
89
- Voc ento  a jovem me que descuidou dos filhos para encontrar-se com 
o amante, e 
eles se afogaram no lago.
Pode ficar conosco, vamos ajudar voc.
Descansou aquele dia, no outro foi trabalhar na horta, o servio pesado a 
fazia se cansar e o 
cansao parecia ameni zar sua dor. Quase no conversava. Era convidada a 
orar, mas se 
achava indigna de faz-lo. Ficava escutando as bonitas oraes que as 
freiras faziam.
O tempo se passou, quase trs anos; ningum a visitou nem ela soube de 
seus familiares. 
Compreendeu que havia morrido para eles. Era uma pessoa triste, no 
conversava, s 
respondia quando era indagada, sentia muita saudade e grande era o seu 
remorso. Uma 
irm, j velhinha, chamou-a para uma conversa:
- Anglica, aqui voc est sendo excluda, no tem amigos, no fala com 
ningum, 
precisa esquecer o que ocorreu,
recomear sua vida.
- Minha vida acabou, estou viva porque no sou digna de morrer - 
respondeu ela.
- No fale bobagem! A morte chega para cada um na hora certa. Filha, 
temos longe daqui 
mais dois conventos, um  orfanato, outro, asilo. V ser til, cuidar de 
outras pessoas, ver 
muito sofrimento, amenizar dores e ter a sua suavizada.
- Asilo, prefiro cuidar de idosos!
Assim Anglica foi, viajou dias de trem e chegou ao asilo. No se tornou 
freira, ficou como 
se fosse uma empregada sem remunerao. E realmente aquela sbia irm 
tinha razo. Viu 
muita tristeza, afeioou-se aos idosos, trabalhou muito e os dias 
passaram rpidos. De fato 
ela suavizou sua dor ao ajudar o prximo. Deixou de ser triste e a 
saudade j no doa tanto.
Lembrava-se de Fbio, seu grande amor, s vezes at culpava-o, mas 
entendia, ele tinha 
filhos, talvez no quisesse ser responsvel pela infelicidade deles, no 
podia larg-los para 
ficar com ela. O marido at que foi generoso e sua famlia teve motivos 
para desprez-la. 
Pensava muito nos filhos, como estariam se no tivesse acontecido o 
acidente?
90
O remorso  dor forte e ela sofreu muito. De uma coisa teve certeza: 
nunca mais teria 
filhos, no era merecedora.
Passou mais de vinte anos trabalhando no asilo, era bondosa, atenciosa e 
os velhinhos a 
amavam. Com quarenta e oito anos ficou doente, passou vrios meses no 
leito, as irms 
cuidaram dela, sofreu sem reclamar e desencarnou tranqi lamente numa 
manh de 
domingo.
Fez muitos amigos; muitos idosos do asilo que haviam
desencarnado vieram socorr-la e foram muitas as oraes
de gratido por ela.
Socorrida, logo estava sadia e trabalhando, sendo til. Soube de todos, 
os filhos 
reencarnaram, estavam bem, o marido teve outra companheira e outros 
filhos. Fbio conti 
nuou com a esposa, foi bom pai. Sua famlia estava bem, os pais haviam 
desencarnado, ela 
os visitou, eles se reconciliaram. Ficou anos desencarnada e foi 
convidada a reencarnar.
- Anglica, voc voltar ao plano fsico, mas no deve continuar pensando 
que no  
digna de ser me, poder com
isso danificar, pelo remorso, seu rgo reprodutor.
- No consigo, no quero ter filhos. Tenho medo de errar, de no cuidar 
deles.
Por mais que lhe falassem, Anglica no conseguiu superar e reencarnou.
Carmelo ficou pensativo e saudoso ao saber da histria
dela e concluiu:
"E, Anglica, voc no ter filhos nessa reencarnao,
mas confio que ser uma grande me!"
Teve a certeza de que so muitas as causas que levam a
uma mesma reao. So muitos os motivos que deixam as
pessoas sem poder ser pais.
Os exames ficaram prontos, deram negativo, o mdico
sorriu, contente.
-Anglica, o perigo maior j passou, voc est curada! Ficou feliz, orou 
agradecendo a 
Deus. Voltaram contentes  Casa do Penhasco, estavam saudosas e Anglica 
ansiava por 
rever o namorado. Sentiu-se sadia e todos se alegraram.
91

a brincadeira
do Copo

Durante a viagem dos pais com Anglica, Henrique voltou a dormir no seu 
quarto. Ficaram 
s os trs, Nena, Fabiana e ele na casa. No tiveram medo e o garoto no 
viu e nem ouviu 
mais nada de anormal. Estava feliz e ficou mais ainda com a notcia do 
resultado dos 
exames da irm.
Dois dias depois que retornaram, Dinia achou que era
o momento de Nena se explicar, reuniram-se aps o jantar na sala de estar 
e convidaram 
Nena a falar. Dinia pediu:
- Nena, acho que nos deve uma explicao. No quer nos dizer o que 
ocorreu?
A empregada suspirou, acomodou-se no sof, olhou para
todos, acenou com a cabea e comeou a narrar.
- Quando vim trabalhar com vocs ningum me indagou sobre isso, no que 
esse fato 
justifique o que fiz, arrependo me e lhes peo perdo. Dona Dinia me 
perguntou se eu era 
solteira, respondi que sim, e sou, no me casei. Foi aps quatro anos que 
falei das visitas 
que fazia, o porqu de sair s s tardes de domingo. Contei que ia  
penitenciria, foi a que 
menti, falei que Antonio era meu irmo e no que era meu companheiro.
Nena calou-se e Roberto motivou-a.
-  melhor nos contar tudo, Nena.
-  o que vou fazer, e agora sem mentir. "Fui criada num orfanato, fui 
para l recm-
nascida, nunca soube quem eram
meus pais. Quando fiz dezoito anos, me arrumaram para ser
92
empregada domstica numa casa de famlia, dormia no em prego. Fui e 
tratei de fazer tudo 
direito, mas o filho de minha patroa comeou a me importunar, tinha medo 
dele, foi um 
perodo difcil, sofri muito. Foi ento que conheci Antonio, que 
trabalhava na padaria em 
que eu comprava po. Comeamos a namorar e contei a ele o que se passava 
no meu 
emprego, ele preocupou-se. Por ali, pela vizinhana, todos conheciam esse 
moo, o filho de 
minha patroa, era briguento, farrista e mulherengo, mas os pais o achavam 
um filho exemplar 
 no acreditavam em nada que lhes diziam dele.
Um dia, quando meus patres saram, ele quase me
pegou. Sa correndo e fui  padaria. Antonio me fez uma
proposta.
'No volte para l, Nena, venha comigo. Venha morar comigo. Minha casa  
simples, um 
barraco, mas l voc ser respeitada. Gosto muito de voc e quando puder, 
nos casaremos.'
Fui, Antonio me respeitava, era carinhoso. Dias depois fui buscar minhas 
roupas e 
passamos a morar juntos como se fssemos casados. Antonio ganhava pouco e 
eu passei a 
ajud-lo, trabalhava fazendo faxina duas vezes por semana na padaria e 
ajudava uma 
vizinha a fazer doces, mas era difcil, vivamos com dificuldades, porm, 
amvamo-nos 
cada vez mais. At que..."
Nena parou de falar, todos continuaram quietos, at que
Roberto pediu:
- Continue, Nena. O que Antonio fez para ir para a priso? A histria que 
nos contou no 
 a verdadeira, no ?
- Falei a vocs que Antonio tinha dado um desfalque na fbrica em que 
trabalhava, que 
nossos pais tinham morrido e que vivamos ns dois sozinhos, que ele fora 
envolvido e 
tirou dinheiro da firma, foi descoberto e preso. Isso  mentira! Antonio 
contipuava 
trabalhando na padaria e comeou a conversar com alguns vizinhos que no 
procediam 
bem. Implo rei-lhe para no os ter como amigos.
"Nena - falou ele-, converso com todos por aqui. Eles
no so to maus como se fala. Mas os deixemos para l,
93
no se aborrea por isso. Voc est cansada? No queria que trabalhasse 
tanto, queria lhe 
dar mais conforto. Estou pensando em fazer um negcio. Se der certo 
iremos mudar de 
cidade e moraremos numa casa e lhe darei roupas bonitas.'
'Antonio, no sonhe, estou bem aqui, sou feliz!'
Achei que ele sonhava e que isso no fazia mal algum. Mas Antonio se 
envolveu com os 
vizinhos e fizeram um assalto, que resultou em um assassinato, na morte 
de um vigia. 
Numa sexta-feira  noite, eu pensei que ele fosse trabalhar. Antonio com 
mais trs foram 
assaltar uma fbrica, o vigia conseguiu chamar a polcia, enfrentou-os e 
foi morto. Eles 
foram presos. Acusaram Antonio, que no comeo negou ter atirado, mas os 
outros 
afirmaram que era ele o assassino, e ele depois concordou e ficou preso. 
Sofri muito. O 
dono da padaria no me quis mais como faxineira. Fiquei s e sem 
dinheiro. Antonio foi 
julgado e condenado. Por falta de pagamento fui despejada e aluguei em 
outra favela um 
quartinho, em outro barraco. Foi ento que uma senhora que morava perto 
do meu quarto 
me arrumou emprego com vocs. Nunca deixei de visitar Antonio. Ele sempre 
me 
afirmava:
'Nena, s participei do assalto, no atirei em ningum,
se tivesse dado certo, ns iramos embora, melhoraramos
de vida.
'Antonio, eu lhe falei muitas vezes que estava bem. No
ia viver com dinheiro roubado; se o assalto tivesse dado
certo, eu largaria voc. E agora? Estamos separados.'
E foi uma antiga vizinha que me contou o que aconteceu de fato. Que foi 
um deles quem 
atirou no vigia, mas chantagearam Antonio, se ele no mentisse dizendo 
que tinha atirado, 
o grupo me pegaria e torturaria at a morte. Como ele sabia que o grupo 
era grande e que 
realmente seriam capazes de fazer isso e que eu no teria ningum para me 
defen der, 
ajudar, ele confessou. Antonio arrependeu-se, mas pagou caro por seu 
erro. O tempo 
passou, no tinha como desmentir, no tnhamos dinheiro para contratar um 
bom advogado 
e temamos a vingana deles. Ele continuou preso e eu com vocs. Me 
sentia mal com a 
situao, no queria ter mentido.
94
Gosto de vocs e sou grata. Lembro-me do dia em que dona
Dinia me convidou:
'Nena, temos esse quartinho,  pequeno, mas se quiser
morar aqui ser bem-vinda.'
Vim e foi muito bom para mim, no gostava do quartinho do barraco, pagava 
caro e era 
desconfortvel. Com vocs, sentia-me em casa, o quarto era limpo, a cama 
boa, estava 
timo. Passei a am-los como minha famlia, como a famlia que no tive."
Nena fez outra pausa, ningum falou nada e ela continuou, finalizando:
- Agora, Antonio est para conseguir a liberdade condicional e queremos 
ficar juntos. 
Gostaria tanto que ele viesse para c, ficaria no meu quarto,  to 
grande. Poder trabalhar 
de jardineiro, j que o senhor Olegrio nos avisou que logo no 
trabalhar mais porque ir 
aposentar-se.
- Nena, o que nos contou  srio. Temos de pensar no assunto para 
resolvermos. Vamos 
conversar e lhe daremos
uma resposta logo - disse Roberto.
Nena demonstrou que concordava balanando a cabea, despediu-se e foi 
para seu quarto.
- Que histria triste! - Exclamou Anglica.
- Que ir fazer, papai? - Indagou Fabiana.
- Amanh mesmo vou checar se  verdade isso tudo. Tenho os dados de 
Antonio, vou ver 
se consigo falar com o diretor da penitenciria e pedir informaes sobre 
ele. Depois 
voltaremos a conversar e juntos decidiremos - respondeu Roberto.
- No  fcil ter um ex-presidirio trabalhando com a gente. Tambm no 
podemos 
esquecer que morar conosco - falou Dinia.
-  por falta de oportunidade que muitos no vencem na vida, retornam  
priso. So 
libertados e no acham trabalho, algo honesto para fazer - falou 
Henrique. - Poderemos 
tentar, observ-lo, e se ele no corresponder  confiana, mand-lo 
embora.
95
- Tenho medo de pessoas que foram presas. Mas se Nena o ama e esses anos 
todos ficou a 
sua espera, deve ter seus motivos, ela  to boa! - Expressou Fabiana.
- Assim que falar com o diretor da casa de deteno voltaremos a 
conversar sobre o 
assunto.
A noite do dia seguinte a famlia reuniu-se novamente e
Roberto falou:
- Telefonei para a penitenciria e o diretor foi muito gentil comigo; 
confirmou o que 
Nena disse. Antonio  uma pessoa boa, se diz inocente do crime, que s 
participou do 
assalto, e o diretor acredita nisso. Trabalha na cozinha, est sempre 
ajudando os 
companheiros,  querido por todos e nunca deu problema. O diretor tambm 
gosta dele.
- Isso  bom! Sendo assim, podemos t-lo conosco - falou Anglica.
- No sei, ainda tenho medo, moramos afastados e temos as meninas. Creio 
que ficarei 
preocupada - opinou Dinia.
- Eu acho que temos de dar uma oportunidade, depois Nena merece. Vamos 
fazer uma 
votao. Qual a sua opinio,
Anglica? - Perguntou Roberto.
- Eu voto a favor. Por Nena devemos aceitar Antonio, se no der certo 
veremos depois o 
que fazer - respondeu a
interpelada.
- Eu penso como Anglica - disse Fabiana. - Gosto muito de Nena e por ela 
devemos
aceitar Antonio como empregado
Henrique levantou-se e falou:
- Eu gosto de Nena! Quero-a por perto! Voto a favor e ganhamos: Antonio 
poder vir, e
eu vou dar esta notcia
a ela, que est ansiosa. Posso? Nena!
Como a me concordou, Henrique saiu da sala gritando,
e logo voltou puxando Nena pela mo e falou, entusiasmado:
- Nena, a famlia concordou, voc pode trazer Antonio para c, trabalhar 
conosco e,
melhor, ele ficar juntinho de
voc. No  timo?
- Esperamos que d certo, que ele seja uma pessoa boa e que no venhamos 
a nos
arrepender - disse Dinia.
96
- Se eu notar que Antonio possa fazer ou pensar em agir errado, serei a 
primeira a quer-
lo longe daqui. Gosto de vocs. Obrigada e, novamente, me desculpem. 
Nunca mais minto! 
Vou escrever hoje mesmo a ele lhe dando a boa notcia.
Dois meses e meio depois, Nena estava eufrica: Anto nio sairia da 
priso.
- Nena - disse Roberto -, ganhei cinco dias da diria
desse hotel, no  longe daqui, mas muito agradvel.  para
um casal e como no podemos ir, queremos, Dinia e eu, dar
a voc e ao Antonio. V busc-lo na penitenciria e vo para
o hotel, vocs merecem passear, ficar juntinhos, conversar
e namorar.
- Tire de folga quantos dias quiser, Nena - disse Dinia. Nena chorou 
emocionada, com 
suas economias com prou roupas para Antonio e resolveu que ficariam sete 
dias
passeando.
E assim fez. Quando retornaram, todos gostaram de Antonio. Era simples, 
quieto, educado, 
evitava todos, s respondia quando indagado e passou a trabalhar 
bastante. Nena passou a 
fazer as refeies com ele na cozinha. Roberto o chamou para uma 
conversa:
- Antonio, gostamos muito de Nena, sentimo-nos at responsveis por ela, 
espero que 
voc no lhe d desgosto e que seja digno da confiana que estamos 
depositando em voc. 
No posso lhe pagar muito, mas vou registr-lo para que tenha emprego 
fixo. Tero onde 
ficar e o que comer.
- Senhor Roberto, agradeo por tudo. Sou duas vezes grato por quererem 
bem a minha 
Nena e por me dar esta
oportunidade. O senhor no ter queixas de mim.
E realmente no tiveram. Nena estava muito feliz e os dois se entendiam, 
se amavam. 
Antonio passou a fazer o servio do senhor Olegrio, que se aposentou, 
como tambm todo 
servio pesado da casa, no precisando mais de faxineira.
Antonio era um mulato forte, trabalhador e logo fez amizade com Henrique.
- Antonio - disse o menino -, embora voc sorria muito, tem uma tristeza 
no olhar.
97
- Henrique, esses anos passados na priso foram muito difceis, nunca vou 
esquecer, foi 
muito triste, muito sofrido. Voc no pode imaginar o que  ficar preso, 
confinado num 
espao pequeno e tendo que conviver com pessoas diferentes.
- Tudo isso passou, Antonio - respondeu Henrique, ani mando-o. - Agora 
voc e Nena 
podero ser felizes.
- Mas perdemos muitos anos de nossa vida separados! Como me arrependo por 
ter-me 
envolvido com ms compa nhias. O erro no compensa! E pagamos por ele bem 
caro - 
falou Antonio.
- Esquea, Antonio, reinicie vida nova. Voc gosta daqui?
- Gosto muito, espero nunca ter de sair daqui! - Respondeu Antonio.
De fato, o companheiro de Nena gostou do lugar, pelo que ela j lhe 
falara, amava aquela 
famlia e aproveitou a oportunidade que eles lhe deram. Roberto no se 
arrependeu de ter 
dado emprego a ele, que logo se tornou amigo de todos da casa.
Iniciou o ano letivo e Anglica voltou a estudar. Ia cursar o terceiro 
ano do ensino mdio. 
Ela e Fbio namoravam firme e o moo tinha planos de se casar logo.
Fabiana namorava Leco e Henrique tinha muitos amigos.
Dinia trabalhava muito, todos estavam bem e contentes.
O entusiasmo que tiveram a respeito do Espiritismo foi passando, Dinia 
dava desculpas 
para no ir ao Centro Esprita, Roberto, sem ela, comeou a escassear 
suas idas, Fabiana 
quase no ia e Henrique, sentindo-se bem, tambm foi faltando. E 
desculpas sempre se tm: 
ora era porque chovia, estava frio, muito calor, tinha de estudar, 
trabalhava muito, estava 
com tosse, etc. Mesmo o Evangelho no Lar era Anglica que forava e 
fazia, s vezes no 
conseguia reunir todos.
Quem se tornou assdua estudiosa foi Anglica, e Fbio
gostou muito da Doutrina. At comentava:
- Parece que sempre fui esprita e no sabia, os ensina mentos da 
Doutrina parece que 
estavam dentro de mim, que
os conhecia. Gosto muito porque os entendo e acho justos.
- Eu tambm gosto, Fbio, pois tudo que quero saber tem explicao lgica 
- disse 
Anglica.
98
Foi ento que, na escola de Henrique, durante um trabalho em que seu 
grupo de estudo se 
reuniu no perodo da tarde, resolveram fazer a brincadeira do copo. 
Marcelo explicou 
como se entendesse bem do assunto.
- Isso existe h muito tempo. Usa-se pndulo, setas, agulhas, tabuleiro, 
etc. Mas como 
no temos o material, vamos improvisar, podemos fazer com o copo. Vamos 
usar esta 
cartela e colocar as letras e os nmeros, depois evocaremos um esprito, 
uma alma do outro 
mundo para responder para ns e pronto, podemos saber o que dona Eny ir 
perguntar na 
prova de portugus.
- Ser que isso funciona? Tenho medo de alma do outro mundo - disse 
Neuzinha. - O 
padre falou que elas no
respondem e quando o fazem  o demnio.
- Que demnio nada! Ele est no inferno,  alma mesmo
- falou Marcelo, garantindo. - Se tem medo  melhor no participar, 
meninas so 
medrosas mesmo.
- Eu acho perigoso, essas almas, espritos, podem no ter o que fazer e 
ficar conosco - 
opinou Henrique.
- Xi, voc temendo como as meninas! Est com medo? Tudo bem, fique com a 
Neuzinha, 
ela lhe far companhia.
- No  isso - defendeu-se Henrique. - No tenho medo, s que os 
espritas que 
entendem do assunto no recomendam que se faa isso. Para eles isso  
brincadeira e essas 
evocaes so assunto srio.
- Os espfritas falam com os mortos sempre que querem, por que no podemos 
fazer o 
mesmo? - Indagou Ricardo.
- Porque eles estudam para isso e ns no sabemos - falou Henrique.
- No queira atrapalhar, Henrique. Vamos fazer, vai ser legal! - Exclamou 
Soraya.
Henrique ficou com receio de sair da sala e os amigos o
chamarem de medroso, ficou olhando a preparao. Com
tudo pronto, Marcelo disse em voz alta:
- Se tiver uma alma por aqui, um morto que possa nos responder, que 
venha, por favor, 
faz-lo!
99
Cinco que participavam da brincadeira colocaram um
dedo no copo, que comeou a mexer com dificuldade, at
que por meio das letras escreveu:
"Que Henrique venha nos ajudar."
- Vem! O copo quer voc!
Marcelo puxou-o e Henrique colocou o dedo no copo, que andou rpido, 
respondendo a 
todas as perguntas e dando o nmero das questes que iam cair na prova. 
No horrio de 
irem embora, Marcelo agradeceu e acabaram a brincadeira.
- Puxa, Henrique, voc  bom nisso! - Disse Ricardo, elogiando.
Henrique no ficou tranqilo, teve aquela sensao de que estava sendo 
observado, 
resolveu esquecer e pensar noutra coisa, sabia que fora uma imprudncia 
participar daquele 
fenmeno, mas estudou mais as questes que o esprito, pelo copo, 
escrevera.
No outro dia, na prova de portugus, quatro das seis
questes caram e os garotos se entusiasmaram. Marcelo
convidou-os:
- Vamos fazer hoje de novo. As quatro horas na minha casa. V todos e 
voc, Henrique, 
no pode faltar. Voc ir, no ? No est com medo como as meninas, se 
no for 
pensaremos que est. Esperamos voc.
E Henrique foi, s que dessa vez o esprito, por meio do
copo, comeou a responder algumas inconvenincias, como:
- Marcelo, Soninha no gosta de voc, mas sim de Ricardo.
(Soninha era namorada de Marcelo).
- Ricardo, seus pais vo morrer logo de acidente.
- Luza, seu pai tem uma amante e pensa em abandon-los.
- Um de vocs vai morrer logo.
Acabaram a brincadeira tristes.
- Marcelo, eu no tenho nada com a Soninha - disse Ricardo.
- Bem, ele falou que  ela que gosta de voc - respondeu Marcelo.
- E que meus pais vo morrer - murmurou Ricardo, lamentando.
100
- Um de ns tambm - falou Luza.
- Eu disse a vocs que isso  perigoso, espritos bons no respondem 
isso. O que ele disse, 
nos respondeu, no tem lgica, isso  impossvel saber. Lembro a vocs 
que ele s acertou 
quatro das questes da prova - falou Henrique.
- Ele disse que dona Eny mudou as questes depois. Pode ser - disse 
Serginho.
-  melhor irmos para casa - expressou Ricardo.
E foram, mas Henrique no estava se sentindo bem, teve um mal-estar, 
parecia que com ele 
estavam mais pessoas. Foi para casa e s piorou. No falou nada do 
ocorrido em casa, sabia 
que seus pais iriam reprovar e com razo.
A noite ele piorou muito. Henrique teve medo, foi para seu quarto e de 
novo teve a 
sensao de estar sendo observado. No apagou a luz, tentou rezar, mas 
no conseguiu. A 
luz do quarto apagou e uma porta bateu com fora. Henrique sentiu puxarem 
seu lenol, 
ento gritou.
Todos da casa correram para seu quarto. O pai chegou
primeiro, acendeu a luz.
- Que foi, Henrique? O que aconteceu?
O garoto estava branco de medo.
-  que vi de novo! Aconteceu de novo! Deixei a luz acesa, apagaram e 
puxaram meu 
lenol, a porta bateu e
eu gritei.
- Que porta que bateu? Tambm ouvi - falou Fabiana.
- Acho que foi por causa do copo - falou Henrique, encolhendo-se todo na 
cama.
- Que copo? No fale bobagem, garoto - disse Fabiana.
- Brincadeira do copo que evoca espritos? - Perguntou Anglica.
-  - respondeu o menino.
- Henrique - falou Anglica, repreendendo-o -, voc no sabe que isso  
perigoso? Que 
espritos bons no se prestam a brincadeiras? Aposto que s responderam 
asneiras. E voc, 
que tem mediunidade, no deveria ter participado. Creio que esses 
espritos devem ter 
gostado de voc e vieram para casa junto.
101
- Ai, meu Deus! No quero comear tudo de novo -, falou Dinia, 
apavorada. - Voc, 
menino, merecia levar uma surra. Isso  brincadeira que se faa? Vocs 
no tm nada mais 
interessante para fazer?
- Vou pegar o Evangelho, vamos fazer uma leitura e orar. Amanh voc, 
Henrique, deve 
procurar ajuda - expressou
Anglica.
- Vou telefonar para o Virglio - disse Henrique. - Agora!
- No, de jeito nenhum - falou Anglica, determinada.
- Virglio e Silze devem estar dormindo. No  certo. Eles nos ajudaram 
numa situao de 
emergncia e nos orientaram para que no ficssemos em situao de 
pedintes novamente. 
E o que aconteceu? A no ser eu, ningum mais se interessou pelo 
Espiritismo. Passou o 
aperto e no quiseram mais nem ir ao Centro Esprita. E voc, Henrique, 
que diz ter sofrido 
ao pensar que estava doente, esqueceu logo da ajuda que teve, do 
propsito de seguir a 
Doutrina Esprita. Sabe que  mdium, que tem energia necessria para que 
os espritos 
possam us-la para se manifestarem. E mesmo sabendo disso participou da 
brincadeira, 
dessa imprudncia.
-  que fiquei com receio de eles pensarem que eu sou medroso como as 
meninas - 
respondeu Henrique.
- E no ? No est com medo? - Perguntou Fabiana.
- Estou! O que fao agora? - Indagou o garoto.
- Que fique com esses espritos s para voc - respondeu Fabiana. - Eu 
no chamei 
ningum para responder nada
para mim. Quero dormir que amanh tenho prova.
- Eu durmo com voc - disse Anglica. - Mas, Henrique, voc tem de me 
prometer que 
amanh ir ao Centro Esprita e que voltar a freqent-lo, como tambm a 
estudar a Dou 
trina, e que nunca mais ir brincar com algo to srio.
- Prometo e obrigado, Anglica. Deite aqui! Vamos dei xar a luz acesa.
Henrique teve medo  noite toda, dormiu muito pouco e
no outro dia, na escola, no recreio, Luza os chamou.
- Meu av  esprita e me deu uma bronca. Disse que s podia ser um 
esprito brincalho 
para responder a tantas
102
asneiras. Eu no vou fazer mais isso! Fiquei com medo e tive
de dormir com mame.
- Eu discuti com Soninha - falou Marcelo. - Ela me garantiu que gosta de 
mim. Acho 
que aquele morto falou mentiras. Preocupei-me com a histria que um de 
ns ir morrer 
logo. E pena! Podia ter dado certo. Mas eu vou fazer de novo. Quem quiser 
participar que 
v  minha casa s quatro horas. Voc vem, Henrique?
- No! - Respondeu o interpelado, rpido.
- Est com medo? - Perguntou Ricardo.
- O av de Luza tem razo, eu tambm sou esprita e sei bem que tudo 
isso  brincadeira, 
s que perigosa. No se devem evocar espritos s por curiosidade, os que 
se prestam a isso 
normalmente no sabem nada e respondem o que der na cabea. No vou nem 
hoje e nem 
nunca mais!
Marcelo e Ricardo riram, mas no falaram mais nada. Henrique concluiu que 
Anglica 
tinha razo. Se a gente no tiver personalidade, coragem de dizer no, 
acabamos por fazer 
coisas que no queremos e que no nos convm. Tantas pessoas, por no ter 
coragem de 
reagir, acabam fumando) bebendo, usando drogas, participando de rachas, 
etc. E corajoso 
quem tem medo de dizer no a respeito de algo que sabe que no ir dar 
certo.
Henrique, sendo jovem, soube decidir o que era bom para ele. Somos sempre 
tentados por 
outros a agir errado. Cabe a ns decidir pelo que nos convm e s vezes 
necessitamos ter 
coragem para nos afastar de amigos e dizer no.
A tarde Anglica foi com ele ao Centro Esprita, onde
recebeu passe, e o dirigente o aconselhou:
- Henrique, desencarnados mal-intencionados esto por toda parte, sempre 
dispostos a 
brincar, a sugar energias, s vezes no se aproximam por orarmos, por no 
estarmos na 
sintonia deles. Mas quando so chamados, se acham donos da situao. Voc 
foi 
imprudente,  mdium, agora deve estudar para quando for adulto trabalhar 
com sua 
mediunidade para o bem, para ajudar e no para brincar.
- Eles falaram mentiras, no ? - Indagou Henrique.
103
- Sim, responderam divertindo-se, achando mais graa quando acreditaram.
Uma senhora que trabalhava como mdium no Centro
Esprita e os escutava reclamou, suspirando:
- Vocs brincam e nos do trabalho! Depois, quem recebe por incorporao 
esses 
espritos somos ns. Estou cansada! Tenho trabalhado muito e o trabalho 
de ajuda aos 
doentes  cansativo!
O dirigente a olhou e respondeu.
- No pensei que o trabalho fosse to desgastante e ruim para voc. De 
fato o mdium doa 
energias para ajudar os outros, mas deve pensar que recebe muito mais do 
que dispe. No 
 bom reclamar! A reclamao  quem gasta energias e contamina a quem se 
doa. Voc, 
minha amiga, deve pensar e chegar a uma concluso e fazer o que  melhor 
para voc. No 
participar? Ou se participar, no reclamar. Porque no  bom para ningum 
ter no grupo 
algum insatisfeito, que acha que faz muito e que no est sentindo-se 
bem. Se est 
desgastando voc muito, algo est errado e  certamente com voc. No 
queremos 
sacrifcios e sim doao com amor. Aprenda a trabalhar sem se queixar.
A senhora abaixou a cabea e ficou quieta. Henrique entendeu que o 
dirigente falou tudo 
aquilo porque ela reclamou perto deles e tambm porque ele necessitava da 
lio, porque 
estava com vontade de reclamar. Guardaria o que ouviu, um dia iria 
participar de um grupo 
e para o trabalho ter um resultado positivo, cada um deveria fazer sua 
parte com boa vonta 
de, com carinho, com disposio e nada de reclamao
- Trs desencarnados acompanhavam Henrique e quando ele foi tomar passe, 
ficaram no 
posto de socorro no plano
3 - Na histria o dirigente agiu assim. Creio que seria melhor ele 
conversar com a senhora 
em particular, porm acho que os dizeres seriam mais ou menos como foi. 
Reclamar  ruim 
para quem faz e para quem ouve, e pode contaminar, levar outros a pensar 
assim. Um 
trabalho, seja ele material, seja espiritual, no sai a contento com 
reclamaes. E queixar-se 
pode se tornar um mau hbito. Mas acho que ele, o dirigente, assim 
procedeu porque 
tambm sentira que Henrique precisava tambm da lio, e, se no dissesse 
nada, o jovem 
iria ficar com m impresso do trabalho medinico, como se fosse algo 
aborrecido e 
cansativo. E no  nada disso, mas sim prazeroso, edificante, instrutivo, 
e como se sente 
bem ao ajudar o prximo! (N.A.E.)
104
espiritual do Centro Esprita para serem orientados na sesso
de desobsesso* naquele dia mesmo,  noite.
Vamos agora saber o que ocorreu com os desencarnados nesse fato. Carmelo 
estava na casa 
quando Henrique chegou da escola acompanhado pelos trs desencarnados. 
Aproximou-se 
deles sem se deixar ver e os escutou. Comentavam:
- Gostei desse garoto, ele tem a energia de que precisamos. Ele  mdium 
e pelo visto 
no  merecedor de ter um protetor para nos aborrecer e impedir que o 
atentemos e 
suguemos suas energias.
- Sugar - disse o outro, rindo -, vampirizar, prefiro dizer que somos 
vampiros, 
aterroriza mais.
- E ainda fomos chamados, no se pode dizer que somos intrusos. Estvamos 
quietos, s 
observando, e os meni nos nos chamaram para responder quelas perguntas 
idiotas.
- Eu at que fui olhar a prova que a professora elaborou, s no deu para 
observar mais 
porque aquela senhora desencarnada que tenta tomar conta da escola no 
deixou. Mas 
respondemos besteiras, no foi? Queria mesmo fazer todos brigarem. Adoro 
uma briga!
- Essa casa  bonita! Vamos ficar aqui! - Exclamou um deles, rindo.
Carmelo deixou, achou mesmo que Henrique agiu errado e que tinha de 
aprender a lio. 
Sabia o garoto o caminho para o socorro, como tambm no lhe cabia fazer 
a lio de 
outro, e a do Henrique era que aprendesse a no brincar com algo srio. 
Os trs no 
gostaram das oraes nem da leitura do Evangelho, saram do quarto e 
foram para a sala.
- Parece que aqui no  to agradvel como pensvamos - comentou um 
deles.
- Se ficarem orando vamos ter de ir embora.
- Que famiia chata! Aquela mocinha  desagradvel, no gostei nem de 
olh-la. Pelo visto 
freqenta um centro
* Desobsesso: reunio realizada para esclarecer o esprito obsessor e os 
que vagam, pois 
estes geralmente tm pouco conhecimento evanglico ou o aplicaram de 
forma indevida. O 
objetivo  que eles desistam dos seus propsitos de vingana e que sejam 
encaminhados 
para um socorro (N.E.).
105
esprita, se ela for dormir com o garoto no podemos mais ir
l - falou um deles.
- As vezes sonho imaginando que no h Espiritismo, se no existisse, ia 
ser bom mesmo. 
Essa Doutrina s atrapalha!
- Falou, queixando-se o outro.
Mas foi no outro dia que Henrique e Anglica foram ao
Centro Esprita que Carmelo levou os trs para l. Foram sem
saber como;  que Carmelo volitou com eles*.
Receberam no Centro Esprita orientao, dois deles aceitaram a ajuda 
oferecida e foram 
viver dignamente numa escola no plano espiritual; o terceiro continuou 
com Marcelo e 
convidou outros; sempre h desencarnados para prestar esse tipo de 
fenmeno medinico. 
Mas com medo, no se aproximou mais de Henrique.
Poderia ter ocorrido uma obsesso se Henrique no tivesse ido buscar 
ajuda. E dessa vez 
aprendeu a lio, passou a
ir ao Centro Esprita e a estudar.
Marcelo, dias depois, convidou Henrique.
- Venha conosco fazer o copo andar. O morto que nos responde disse que 
voc pode 
ajudar a ser mais rpido.
- Voc no parou com isso, Marcelo? Pois deveria. O que ele tem 
respondido de certo? 
Nada! Quase nada. Que eu
responderia. Larga disso!
- Voc tem  medo! - Falou Marcelo, sorrindo.
Henrique tambm sorriu, olhou nos olhos do amigo e respondeu, tranqilo:
- Sou esprita e no quero brincar com isso. Uma comunicao com o plano 
espiritual  
coisa sria, que s deve acontecer por uma boa finalidade. Pessoas que 
trabalham no tm 
tempo para isso, e desencarnados bons, ativos no bem, no se dispem a 
responder 
perguntas tolas. Eu no vou, e
* Os espritos que tm conhecimento ou mrito para isso podem volitar 
porque manipulam 
o fluido universal, que lhes permite percorrer longas distncias em 
milsimos de segundo 
com a rapidez do pensamento. Se necessrio eles podem levar consigo 
outros espritos que 
ainda no tm condies de volitar. Foi o que Carmelo fez, mas como os 
trs espritos 
levados por ele no sabiam o que era volitar, ficaram confusos, no 
entendendo como 
estavam na casa e, no minuto seguinte, em outro local (N.E.).
106
pode pressionar, dizer o que quiser, tenho personalidade
para lhe dizer no.
- Pressionar, personalidade, que conversa chata. Parece adulto. Est bem, 
mas est 
convidado, v quando quiser.
Ricardo ficou doente, sua me o levou ao mdico, e, a conselho de uma 
vizinha, recebeu 
passes. Ele no participou mais. Marcelo enjoou, ele sozinho no fazia o 
copo andar, parou 
e a brincadeira foi esquecida.
Henrique, querendo aprender, indagou o orientador
do Centro Esprita:
- Por que uns sentem mais os espritos nessas brinca deiras do que 
outros?
- Os sensitivos, os que tm a mediunidade mais acentuada, sentem mais, 
porque os 
desencarnados gostam de assustar, de se fazer notar, e tambm porque 
essas pessoas so 
mais fceis de serem vampirizadas. Mas mesmo os que no sentem acabam 
influenciados 
por eles.
E Henrique no teve mais vergonha de explicar a quem o convidasse para 
esse tipo de 
fenmeno para que no fizessem, para que evitassem, pois poderiam sofrer 
conse qncias 
desagradveis.
Novamente Carmelo os ajudou. Como Anglica tornara-
se esprita, ele pediu na colnia para ser protetor dela, foi-lhe
dada permisso. Contente, ficou com a famlia.
107
Carmelo
E Carmelo, quem era ele? Por que Leda, ao ser doutrinada, havia dito: 
"Voc aqui, 
Carmelo?"
Um esprito to dedicado, empenhado em trabalhar para
o bem, em ajudar, o que fazia ali? Estaria ele envolvido na histria da 
Casa do Penhasco?
Curiosos, indagamo-lo e Carmelo nos contou sua histria.
- Exerci, quando encarnado, a profisso de comerciante, tive uma loja e 
com esse trabalho 
sustentei minha famlia. Fui casado, minha companheira foi uma pessoa 
honesta e bon 
dosa, tivemos cinco filhos e um casamento feliz.
"Tinha um tio esprita que era uma pessoa boa, sempre disposta a ajudar a 
todos, e eu 
gostava muito dele, estava sempre me convidando para ouvir uma palestra, 
ler um livro 
edificante, e se s vezes eu lia ou ia ao Centro Esprita, era para 
agrad-lo. Achava 
interessante, coerente, mas no sentia necessidade de ser religioso, tudo 
corria to bem 
para mim, estava tranqilo. At que meu filho mais velho, Oscar, comeou 
a me dar 
problemas. Ele era casado com uma moa muito boa e tinha duas filhas 
pequenas, quando 
conheceu Leda e tornou-se amante dela.
Ele tinha um bom emprego, ganhava bem, mas, apaixo nado de modo doentio, 
no pensava 
noutra coisa a no ser nela. Comeou a faltar no trabalho e a fazer seu 
servio distrado. 
Pensei que estivesse doente, conversei com ele, que me garantiu estar 
bem. Mas acabei por 
descobrir que ele estava
108
encontrando-se com uma mulher casada, com Leda. Voltei ento a ter uma 
conversa sria 
com ele, que no negou e afir mou que estava apaixonado e que no 
conseguia deix-la.
Vendo-o gastar muito, comear a fazer dvidas, porque dava muitos 
presentes a Leda, tentei 
novamente cham-lo  razo. Ele foi bruto comigo. Ento resolvi falar com 
ela, fui 
envergonhado at a Casa do Penhasco. Leda me recebeu curiosa. Quando me 
identifiquei, 
ficou sria e resmungou:
'O papai veio verificar o que o filhinho est fazendo? No acha que Oscar 
 adulto? Ou o 
senhor veio ver se o que ele est fazendo vale a pena? Gostou? S que eu 
no sou para 
voc,  velho demais para meu gosto.
Creio que fiquei vermelho, minha vontade era dizer alguns desaforos a 
ela. Por segundos 
comparei Leda com minha nora, a esposa de Oscar. Leda era vistosa, 
arrogante, cnica, 
bonita, mas muito enfeitada, enquanto minha nora era simples, sorriso 
cativante, era 
honesta e tambm bonita. No conseguia entender meu filho por querer Leda 
e no a 
esposa. Esforcei-me para me controlar, queria livrar meu filho dela e 
tentei ser gentil.
'No, mocinha, no estou interessado em voc, embora reconhea que  
muito linda. Sou 
pai, amo meu filho, minha famlia,  por esse amor que venho aqui. Oscar 
 casado, tem 
duas filhas e est sendo inconseqente, agndo errado, e eu estou 
preocupado e vim lhe 
pedir que o deixe.
'No tenho nada com as coisas erradas que ele est fazendo, nem quero que 
ele largue a 
famlia, porque eu no vou separar-me do meu marido. Estamos, Oscar e eu, 
s nos 
divertindo juntos.' - Falou Leda, sorrindo cinicamente.
'Por favor, eu lhe peo, abandone meu filho, voc tambm  me, deve 
querer a felicidade 
de sua filha como eu
quero a do meu filho' - implorei.
'Acha ento que sou eu que estou fazendo seu filho
infeliz? Pois est errado, eu que o fao feliz!'
'No quis dizer isso,  que acho que ele est fazendo algo
errado e ser infeliz!' - Falei encabulado.
'Ento sou algo errado?' - Perguntou Leda, rindo,
debochando.
109
'So as atitudes dele que esto erradas!' - Falei, esforan do-me para 
manter a calma 
diante daquela mulher insolente.
'No! Minha resposta  no! No vou largar seu filho,
s o farei quando cansar. Agora saia de minha casa seno
chamo o jardineiro para coloc-lo para fora.
Sa sem mais nada dizer, foi frustrada a minha tentativa de levar Leda a 
compreender. 
Minha esposa e eu sofremos com a situao, ento lembramos do Espiritismo 
e comea 
mos a ler livros espritas e a freqentar o Centro Esprita, onde 
recebemos apoio e 
orientao.
Minha nora descobriu, ficou sabendo de tudo, discutiram e meu filho foi 
sincero com ela:
'Amo Leda e no voc, no vou largar dela. Voc que
tome a deciso que quiser.
Ela foi chorando para nossa casa, ele foi atrs. Ao me
ver gritou comigo:
'Ento o senhor contou tudo a ela! Velho fofoqueiro!'
'Ah, o senhor sabia e no me contou nada! No tomou
nenhuma atitude! Deixou seu filho agir assim!' - Falou minha
nora, chorando.
'No tente me enganar, foi ele quem lhe contou. Foi at
falar com Leda como se eu fosse um jovenzinho, um dbil
mental. Larga do meu filho, larga!'- Disse Oscar, ironizando.
'Eu no falei...
Comecei a falar e Oscar me deu um murro no queixo que me jogou no cho. 
Minha nora 
gritou, foi me acudir e levou um tambm. Levantei, tentei impedir que ele 
batesse nela e 
levei uns socos. Irado, ele saiu de casa. Minha nora, chorando, disse:
'Vou embora para a casa de meus pais e no volto mais!'
E foi, ela e as filhas foram embora, seus pais moravam
em outra cidade. Eu fiquei machucado, com o rosto inchado.
Oscar ficou zangado em sua casa, no veio mais na nossa, estvamos sempre 
preocupados, 
vigiando-o sem que notasse. Ento Leda, como dissera, cansou dele e no o 
quis mais. 
Oscar ficou deprimido, bebendo. No foi mais trabalhar e foi despedido.
110
Estvamos passando por todas essas dificuldades quando sofremos mais um 
golpe. Meu 
filho caula, com quase vinte e um anos, sofreu um acidente e 
desencarnou. Era noivo, 
pensava em se casar logo. Tnhamos uma casa que demos a ele para que 
morasse quando se 
casasse. Ele foi reform-la, subiu no telhado da cozinha, que no tinha 
forro, uma viga de 
madeira quebrou e ele caiu, fraturando a vrtebra do pescoo, e 
desencarnou. Sofremos 
muito, minha esposa e eu, mas nos esforamos para colocar em prtica o 
que sabamos da 
Doutrina Esprita para no entrar em desespero. Tentamos nos conformar e 
ajudar nosso 
filho no plano espiritual. Vimos Oscar no velrio, ele no se aproximou 
de ns, chorou 
muito, depois no o vimos rnas.
Dois meses depois que meu filho desencarnou, numa reunio de estudo no 
Centro Esprita, 
no final, uma mdium recebeu a comunicao de um benfeitor espiritual da 
casa, que, aps 
dar algumas orientaes, me disse:
'Carmelo, como acha que est seu filho no plano espi ritual?'
'Creio que bem - respondi. - Uma pessoa boa, simples,
trabalhadora como ele, s pode estar bem'.
'Falou certo! Ele est realmente bem, j adaptado no plano espiritual. 
Veio no tempo certo, 
sem abuso, sem apego. Com ele no precisa se preocupar, esse ser o filho 
que no lhe dar 
preocupaes. Mas hos outros. Carmelo, voc no tem esquecido do outro? 
Na sua dor, 
no esqueceu de quem precisa de voc?'
'O senhor est se referindo a Oscar? Sim, acho que me
esqueci dele. Obrigado pela notcia e pelo conselho' - agradeci, sincero.
Preocupei-me tanto com ele que, aps a reunio, fui 
sua casa. Oscar me recebeu surpreso, no me esperava.
'Filho, posso lhe dar um abrao?' - Perguntei.
'Quer mesmo me abraar? Eu lhe bati!'
'Quero-o bem, vamos conversar?'
'Pai, sofro muito! No quero viver mais! Deus foi injusto, deveria ter me 
levado em vez do 
meu irmo. No presto para
nada!' - Disse Oscar tristemente.
111
'No fale assim! Deus sabe o que faz!' - Falei, con
fortando-o.
Animei-o, conversamos por meia hora, mas estava tar de, temi que minha 
esposa se 
preocupasse e me despedi. Andei dois quarteires, senti uma vontade 
enorme de voltar e o 
fiz. Empurrei forando a porta, entrei na casa afobado, meu corao 
estava disparado e 
encontrei Oscar colocando uma corda na estrutura do teto da lavanderia. 
Entendi que meu 
filho queria se suicidar. Segurei-o.
'Deixe-me, pai! Quero morrer!'
Apertei-o com mais fora e, com medo de no conseguir
det-lo, gritei por socorro. Pessoas que passavam na rua e vizinhos 
correram em meu 
auxilio e me ajudaram a segur-lo.
Tivemos de amarr-lo, o mdico chamado veio e aplicou uma injeo que o 
fez dormir. 
Levamo-lo para nossa casa, minha esposa e eu cuidamos dele com todo 
carinho, vendemos 
seus mveis, pagamos suas dvidas e alugamos o -imvel para que ele 
pudesse ter alguma 
renda, como tambm mandvamos dinheiro para minha nora, que passou a 
morar com seus 
pais e arrumou um emprego.
Oscar pareceu melhorar da depresso e foi procurar em prego. Acabou se 
encontrando com 
Leda e voltaram a ser amantes. Meu filho mudou, voltou a ser alegre, 
deixou de tomar 
remdios, arrumou um emprego, embora esse fosse bem mais modesto. Minha 
esposa e eu 
no falamos nada, temamos sua reao, que tentasse se suicidar de novo.
Meses depois, soubemos do ocorrido, da desencarnao de Leda. Oscar 
chorou muito, 
voltou a ficar infeliz e novamente o levamos ao mdico. Passou a tomar 
remdios e 
voltamos a vigi-lo.
'Agora morta, no ser de ningum, nem minha, nem do
esposo, nem do outro. Amei uma devassa' - reclamava.
Com nosso carinho reagiu, foi voltando  vida normal e meses depois 
procurou a esposa 
para se reconciliarem, mas ela no o quis, estava com outra pessoa. Oscar 
interessou-se 
pelas filhas, passou a v-las com freqncia. Trs anos depois arrumou 
outra companheira, 
pessoa boa, esprita, e acabou se tornando esprita tambm, tiveram trs 
filhos.
112
Com tudo isso, tornamo-nos realmente espritas, passei a estudar a 
Doutrina e anos depois 
fui o presidente do Centro Esprita que freqentvamos. Fiz muita 
caridade, ajudei as 
pessoas, tive uma desencarnao tranqila aps uns dias enfermo. E 
continuei ativo no 
Plano Espiritual; aps estudar, fui trabalhar em outro Centro Esprita, 
onde Virglio e Silze 
trabalhavam, e depois vim ser protetor de Anglica.
Vou muito visitar meus familiares. Minha esposa, que tambm est 
desencarnada, trabalha 
num hospital no plano espiritual. No quis trabalhar no Centro Esprita 
que freqentei 
quando encarnado, queria aprender com pessoas diferentes e tambm porque 
meus filhos 
freqentam l e eu no quis ficar direto com eles, temendo fazer a lio 
que lhes cabe. 
Porque no me acho preparado para orient-los sem ser pater nalista e 
isso poderia at 
prejudic-los, pois quando fazemos a lio do outro o privamos de 
aprender. E o 
aprendizado  um grande tesouro, patrimnio do esprito que nos acompanha 
por onde 
formos chamados a viver.
Se tenho ligao com Anglica? Tenho. Fui em outra
encarnao Marclio, o esposo dela.
Naquela poca, quando a conheci, j estava passando da idade de me casar. 
Meus pais, 
preocupados, trataram de me arrumar uma noiva. No comeo me revoltei, mas 
quando vi 
Anglica, mudei de opinio e passei a cortej-la. Nada demonstrava que 
ela no queria, 
namoramos, noivamos e casamos.
Amava muito meus filhos, eram lindos, sadios e pensava que tudo estava 
bem. Confiava 
nela e foi terrvel o que ocorreu. Estava trabalhando quando me avisaram 
para que voltasse 
imediatamente porque meus filhos estavam desaparecidos.
Quando cheguei  estao da cidade em que moravmos, meu chefe estava me 
esperando, 
tentou me dar a notcia, suavizando:
'Marclio, seus dois filhos esto desaparecidos, estavam
perto do lago, procuramo-los e no os achamos.'
'Mortos?' - Indaguei com medo.
'Eu disse desaparecidos, no sabemos o que aconteceu' - respondeu ele.
113
'E Anglica? O que meus filhos estavam fazendo l?' - Perguntei.
'Tudo indica que estavam com a me, que ela estava
na casa abandonada, deixou-os do lado de fora e no os
viu mais.
'Ela estava na casa e os deixou fora? No entendo!
O que Anglica fazia l dentro? Me fale, por favor! A ver dade!' - Pedi.
'Voc tem o direito de saber - falou meu chefe. - Anglica se encontrava 
com um 
amante!'
'Meu Deus!'
Senti que ia desmaiar, fui amparado por amigos. Com preendi que meus 
filhos deveriam 
estar mortos. Participei da busca no lago. Ao v-los mortos senti tanta 
dor que no sei como 
no morri. Nem tive raiva de Anglica, achei que ela j tivera seu 
castigo, mas no queria 
v-la mais. Fui embora daquela cidade. Mais tarde soube dela, que fora 
para o convento. 
Sofri muito, foi um perodo difcil para mim, mas fui me recuperando pela 
f que tinha. 
Dois anos depois, arrumei outra companheira, uma mulher quase da minha 
idade, viva, 
com dois filhos, ajudei-a a cri-los e tivemos um filho. Nunca esqueci 
desse acontecimento 
doloroso, mas tive o resto da existncia tranqila e desencarnei por um 
infarto. Fui 
socorrido, aceitei o socorro e logo me adaptei ao plano espiritual. 
Visitei Anglica no 
convento e no asilo, compreendi que ela tambm sofreu muito, ento a 
perdoei de fato. 
Estive desencarnado por uns anos e reencarnei novamente.
Compreendi que no fui para ela, naquela poca, um marido carinhoso, 
poderia ter sido um 
pouco mais romntico, percebido que ela era jovem, que queria ser amada e 
amar. Achei 
que, lhe dando um certo conforto e que ela sen do me, tudo estaria bem. 
porm, no se 
justifica o que ela fez, erros no tm justificativa, erra-se. Porm, h 
a inteno e os 
motivos so levados em conta, e por isso a reao no  igual para o 
mesmo erro. E ela 
sofreu muito e trouxe, pelo arrependimento, as conseqncias nessa 
encarnao. Julgou-se, 
sim, porque ningum a culpava, s ela, indigna de ser me. Seu
114
remorso fez adoecer seu rgo reprodutor, pois se sentia me recedora de 
sofrer e agora 
sentia-se quite com as leis divinas.
Isso pode acontecer; porm, cada pessoa reage de um
modo, mas as reaes, se no forem anuladas com muito
amor, elas vm nos reajustando, nos harmonizando.
Poderia t-la ajudado mais. Achei-me, naquela poca, muito nobre por no 
a ter matado. 
Porm a castiguei, expulsando-a de casa, deixando-a ao relento, certo de 
que no nos 
amvamos e de que ela deveria ter resistido  tentao ao encontrar com 
Fbio. Porque os 
dois so espritos que h vrias encarnaes se encontram e se amam. Na 
anterior, 
combinaram no plano espiritual de voltar ao plano fsico e ficarem 
separados. Pois 
deveriam se reconciliar com seus desafetos. Fbio com a esposa e Anglica 
comigo. Mas 
no resistiram e por imprudncia ocorreu a tragdia.
Fbio, numa encarnao anterior, havia sido marido da que foi esposa dele 
na existncia em 
que ocorreu a tragdia; para casar com Anglica, assassinou-a. 
Necessitavam voltar juntos 
para ele ser um bom esposo, acabar com a mgoa dela.
Eu, no passado, agi com maldade com ela, a fiz odiar. No sculo 12, eu 
era um monsenhor 
e aconselhei o pai de Anglica a coloc-la no convento, porque este no 
queria que ela se 
casasse com Fbio, que na poca era um simples empregado. Anglica foi 
forada para o 
convento e eu me encantei com ela, passei a assedi-la, atormentando-a. 
Estuprei-a e ela 
engravidou, teve o filho e eu mandei do-lo, sem deixar sequer ela v-lo. 
Anglica me 
odiava. Um dia em que ela fingia aceitar meus carinhos, me golpeou na 
cabea, me roubou 
e conseguiu fugir do convento. Foi atrs de seu amor e fugiram. Fiquei 
acamado por dias, 
com febre. Quando melhorei percebi o que ela fez, odiei-a e prometi 
vingar-me. Quando 
fiquei bom, passei a persegui-los, coloquei uns homens para descobrir 
onde estavam e 
paguei-os com o dinheiro da igreja. No demorou para que eles me 
informassem que os 
dois viviam felizes numa pequena aldeia, como se fossem casados. Mandei 
que os 
matassem e eles o fizeram; Anglica estava grvida.
115
Continuei minha vida de falso religioso, fiquei doente e desencarnei. Por 
esse abuso e por 
outros erros sofri muito. Anglica e Fbio me perseguiram por anos, 
depois foram 
socorridos e no os vi mais. Soube, porm, que ficaram uns anos numa 
colnia espiritual e 
aps reencarnaram. A vida nos separou, mas a reconciliao se fazia 
necessria. Reen 
contramo-nos, Anglica e eu, antes de eu reencarnar como Marclio, e 
prometemos ficar 
juntos, acabar com o rancor. Prometi ajud-la, ser companheiro e amigo. 
Essa encarnao 
para mim foi importante, venci a tendncia de me julgar ofen dido e 
querer matar ou 
mandar, no quis mal a ela, no a prejudiquei, embora tambm no a tenha 
ajudado. E por 
no ter ajudado  que sinto a necessidade de faz-lo agora, foi por isso 
que pedi aos 
orientadores do plano espiritual e tive permisso de auxiliar Anglica e 
Fbio, tentando 
orient-los para que procedam bem e que possam juntos progredir sem 
egosmo, que 
aprendam a amar de modo verdadeiro. E certamente, para ensin-los, eu 
terei de aprender e 
isso ser muito bom para mim.
A est, amigo, minha histria de erros e acertos, de algum que quer se 
melhorar, sentir o 
Criador em si e em todos".
E Carmelo tem razo, amar de modo puro, sem egosmo, com desapego,  
difcil, mas 
quando queremos, podemos aprender. Deveria ser objetivo de todos ns 
aproveitar as opor 
tunidades para aprender a amar. E Carmelo, no como devedor, mas como 
aprendiz, ali 
estava num trabalho edificante com ex-desafetos, aprendendo a amar.
116
Uma histria interessante

E Fbio? O que aconteceu com ele? Como ficou aps a
separao de Anglica na encarnao anterior?
Fbio tambm teve uma histria interessante. E para que
entendam todos os acontecimentos, vamos narr-los, como
tambm nos far entender a justa lei da reencarnao.
Os pais de Fbio, Joaquim e Esmeralda, viveram numa cidade movimentada e 
grande.
Quando Joaquim a conheceu a amou, e este amor foi aumentando com o 
namoro.
Esmeralda era muito bonita e ele tinha muito cime, medo de perd-la, de 
repartir com
outras pessoas seu carinho, seu amor. De modo possessivo a queria s para 
si. Casaram-se
e, a pretexto de morar num lugar mais sossegado, ele comprou uma casa num 
local longe
dos familiares dela e foi escas seando as visitas a eles, e tambm dava a 
entender que no
eram bem-vindos. Tinha cime dela com os irmos, com o pai e at com a 
me. Mas no
falava abertamente, manipulava-a para fazer o que queria. Tentava 
compens-la com
agrados, mimos, com passeios e viagens. Esmeralda sentia falta dos 
familiares, de amigos,
mas acabou por se acostumar e, mesmo morando na mesma cidade, via-os 
raramente.
Um dia, sua irm lhe falou:
- Esmeralda, no acha seu marido estranho? Que tem cime de voc? No se 
sente presa?
Moram nessa casa isolada, tem muros altos e poucos vizinhos. Tem amizades 
por aqui?
117
- De fato a casa  isolada, temos poucos vizinhos e s os conheo de 
vista. Mas tenho um 
lindo jardim, sempre gostei de flores e passo o tempo cultivando-as. 
Joaquim no  
estranho e no tem tanto cime de mim. Eo modo de ele ser que parece 
diferente, mas  
muito bom marido, me agrada muito.
Mas essa conversa fez Esmeralda pensar, analisar, e achou
que o marido estava separando-a das pessoas. Tentou conversar com ele, 
mas o esposo 
justificava:
- Esmeralda, vivemos muito bem assim. Por que ser diferente? Pessoas 
gostam de dar 
palpites s para desarmonizar. Est lhe faltando alguma coisa? Seus 
familiares no vm 
aqui porque no querem e no fazem questo de nos receber. Esquea-os. 
Amo-a tanto!
Esmeralda tambm o amava e tentava compreend-lo e, para no brigar, para 
no 
entristec-lo, aceitava. Porque tambm ele era assim com os familiares 
dele e foram se afas 
tando, um vivendo para o outro.
Joaquim s vezes sentia que no era certo seu proceder, mas no tinha 
como vencer o 
cime. Se ele pudesse ficaria ao lado dela o dia todo. Mas trabalhava e 
no trabalho tambm 
no tinha amigos. Vivia s para ela, como se fossem s os dois no mundo. 
Organizou tudo 
de tal forma que ela s saa com ele. Mas no a atormentava, nunca 
brigavam, era muito 
gentil e romntico.
Ele tinha um bom emprego, a casa em que moravam era dele, como tambm 
tinha outros 
imveis que lhe rendiam bom lucro. Saam muito, mas no eram assduos a 
lugar nenhum 
para que no fizessem amizades.
Esmeralda sonhava com filhos, ele no queria, mas, para no mago-la, no 
falava 
abertamente, dizia que no era para se preocupar, que eles viriam na hora 
certa. Mas fazia 
algo para evitar que Esmeralda tivesse filhos, pois no queria dividir 
seu amor com mais 
ningum. No gostava nem de pensar que a esposa pudesse cuidar de um 
nen, que no lhe 
desse ateno.
Joaquim conhecera quando era moo um ndio que vendia ervas, fazia 
estranhos remdios, 
ele e seus amigos
118
compravam, s vezes, alguns preparados dele, e Joaquim, curioso, o 
indagava e soube de 
uma droga que tornava as pessoas infrteis. Nossos ndios tinham e ainda 
tm muitos 
conhecimentos sobre plantas, e as que so anticoncepcionais so 
conhecidas deles h muito 
tempo. O remdio que interessou a Joaquim era uma garrafada, ervas numa 
garrafa. Ele 
deveria tomar uma dose todos os dias em jejum. Desde que ouviu isso do 
"erveiro", como 
chamavam o ndio, planejou tom-la quando se casasse e que ningum 
deveria saber.
E assim fez. Esmeralda acreditava que era para bronquite e que tomando 
no teria as 
crises, s que ele nunca teve essa doena. Joaquim, satisfeito, viu que 
deu resultado, em 
bora tivesse alguns efeitos colaterais, mas no se quei xava. Apaixonado 
cada vez mais pela 
esposa, temia ter filhos para dividir o amor dela.
Esmeralda sempre sonhou em ter filhos. Esperanosa,
esperava engravidar. J estavam casados havia sete anos e
ele no a deixava triste.
- Meu amor, somos felizes voc e eu. Se Deus no quer nos dar filhos, 
vamos nos 
conformar. Eu no me importo,
tendo voc j me basta.
Ela achava que ele tambm queria filhos, que s falava
assim para agrad-la. Achava o marido gentil e amoroso.
Numas frias dele, foram viajar para longe, ele levou a garrafa com seu 
precioso remdio. 
Mas, ao tom-lo pela primeira vez, deixou-a cair e a garrafa quebrou. Ele 
se aborreceu e 
preocupou-se.
- Joaquim, voc j toma esse remdio h anos, no lhe far falta ficar 
sem tom-lo por uns 
dias. Depois o clima aqui
 bom, o ar da montanha lhe far bem.
Ele pensou e concluiu que talvez ela tivesse razo, tomava-o havia tanto 
tempo que seu 
efeito deveria continuar por alguns dias mesmo sem tom-lo. As frias 
transcorreram 
normalmente e dias depois voltaram. Um ms depois ela descobriu que 
estava grvida.
- Como estou feliz! Deus escutou minhas preces. Um filho!
Joaquim disfarou sua decepo, sorria e a agradava.
Mas o cime o atormentava. Pensava, aflito:
119
"No posso permitir que outro ser venha interferir entre ns. Ser 
amamentado, ter mimos, 
Esmeralda me deixar
para segundo plano. No posso permitir. Mas o que farei?"
Aos poucos planejou tudo. Convenceu Esmeralda a ter o filho em casa, isso 
foi fcil, pois 
naquela poca era comum.
O ndio lhe deu o endereo de uma mulher que era boa parteira e que por 
dinheiro fazia 
qualquer coisa que lhe pedissem. Ele foi procur-la e combinaram todos os 
detalhes.
- A senhora far o parto, tirar a criana do quarto e me dar. Falar a 
ela que a criana 
nasceu morta. Devo sair e voltar logo, a poder ir embora e nunca mais 
voltar. E j sabe, 
segredo absoluto.
- Valho o que me pagam - respondeu a ndia. - No comentarei com ningum. 
Trato  
trato. Farei direitinho o que me pede. Mas o que ela fez para merecer 
isso? O filho no  
seu?
Joaquim no respondeu e a mulher nada mais falou.
Recebeu o dinheiro, metade no trato e a outra receberia
aps o trabalho.
Ele chegou em casa contente.
- Esmeralda, contratei a melhor parteira para fazer seu parto.  uma 
ndia treinada.
- Queria ir ao hospital, minhas irms tiveram filhos com
mdicos.
- No ser preciso! Tudo dar certo. Essa parteira  melhor que mdico - 
falou ele, 
decidido.
Esmeralda ainda argumentou, mas no o convenceu. Resolveu que seria como 
ele queria e 
tratou de pensar nas roupinhas; s falava no beb, e Joaquim, com cime, 
ouvia calado 
achando que estava certo, teria que se desfazer da criana.
Mas tinha outro problema: o que fazer com a criana? Um dia, uma pessoa 
que trabalhava 
com ele comentou que tinha uma prima que ficara viva com trs filhos 
pequenos, que 
passava por necessidade e que estava difcil arrumar emprego. Joaquim, 
sorrindo, falou a 
ela:
- Me d o endereo da sua prima, talvez eu possa lhe arrumar trabalho.
120
A mulher, que se chamava Eugnia, morava numa cidade
prxima. Com o endereo na mo, ele teve uma idia, e logo
no outro dia foi procur-la.
- Vim aqui porque preciso de auxlio e a senhora tambm precisa de ajuda. 
No vou falar 
quem eu sou e nem quero que investigue. Minha irm  solteira, est 
comigo e com minha 
esposa atualmente, porque est grvida. Mas meu pai no pode saber, ele  
intransigente, 
conservador e nunca aceitaria uma filha me solteira. Certamente, se 
souber, ir enxot-la 
ou mand-la para um convento. Gosto muito dela e resolvi ajud-la. 
Estamos escondendo o 
fato, ela ter o filho e precisamos de algum para cuidar dele at que 
ela possa ficar com a 
criana. A senhora precisa trabalhar e, se aceitar, ser bem remunerada, 
poder cuidar dos 
seus e de mais um. Se sua resposta for sim, j comeo a lhe pagar.
A mulher aceitou, achando que era uma proposta mara vilhosa. Eugnia 
sabia cuidar bem 
de crianas e depois poderia ficar em casa cuidando dos seus filhos, e 
com o dinheiro que 
receberia todo ms, daria para viver relativamente bem.
Joaquim combinou com ela que, na poca em que a criana estivesse para 
nascer, ela viria 
para a cidade e ficaria aguardando numa penso. Ela aceitou, sua me 
ficaria com seus 
filhos.
Ele planejou tudo, at roupas comprou e entregou  senhora. Trouxe a 
ndia parteira para 
Esmeralda conhecer. Chegou o momento de a criana nascer, ele buscou a 
parteira e o 
parto foi fcil. Embora sempre resulte em dor e alguns transtornos para a 
me, a ndia pde 
fazer sem dificuldades o combinado. Levou o nen rpido para a sala e 
entregou-o a 
Joaquim, que o enrolou. Por segundos olhou para a criana, era um menino 
perfeito e 
bonito. Levou-o rpido para a penso e pediu que Eugnia fosse embora 
logo.
- Vou limp-lo e vesti-lo, dentro de duas horas estarei no trem rumo a 
minha casa. E pode 
ficar sossegado, senhor,
cuidarei bem dele.
Joaquim voltou rpido para casa. Esmeralda descansava, a ndia recebeu 
seu pagamento e 
foi embora. Ele entrou
no quarto.
121
- Joaquim, o que aconteceu com nosso filho? Ele nasceu morto mesmo?
- Eu o levei correndo ao mdico, mas a criana estava morta. Sinto muito!
Ele a agradou, consolou, mas Esmeralda estava inconsolvel e isso lhe deu 
mais raiva, 
porm se controlou.
- Vamos ter outro, no ? Quero um filho! - Disse Esmeralda, chorando.
- Claro! Mas agora trate de descansar.
- Quero ver nosso filhinho! Traga-o aqui para que eu possa beij-lo.
- Esmeralda, ele est morto. J desmanchava, as freiras organizaram o 
sepultamento.
Ela se conformou e era grata ao esposo pelos cuidados que tinha com ela, 
porque pensava 
que ele sofria, mas que fazia de tudo para ajud-la. As famlias 
souberam, houve visitas, a 
me de Esmeralda criticou:
- Talvez fosse o caso de t-la levado para um hospital.
- Teria acontecido do mesmo modo. A criana estava morta-respondeu ele 
secamente.
Foi voltando tudo ao normal. Joaquim conseguiu, em troca de pagamento 
extra, registrar a 
criana, o filho, como pais desconhecidos, lhe deu nome de Fbio, um 
sobrenome 
inventado e o mandou para Eugnia. Fez isso como mandava tambm todo ms 
o dinheiro 
combinado por um portador, um moo que fazia esse tipo de servio. 
Colocava as cdulas 
num envelope vedado e s vezes pedia para Eugnia escrever algumas linhas 
lhe dando 
notcias.
Esmeralda quis conhecer o tmulo do filho. Joaquim ento comprou um, fez 
uma lpide 
bonita com o nome que a esposa havia escolhido se a criana fosse menino: 
Gabriel. 
Foram, ela levou flores, chorou e ele a consolou. No tinha nada 
enterrado, mas ela pensava 
que ali estava seu filhinho amado. E ia muito ao cemitrio. Joaquim no 
descuidou do 
remdio, continuou a ser o marido amoroso que fazia tudo para distra-la 
e ela tentava 
disfarar a tristeza quando estava com ele.
122
Trs anos se passaram quando Eugnia escreveu para ele. Mandou a carta 
pelo portador, 
que necessitava muito
lhe falar. Joaquim foi a casa dela, conversaram na sala.
- No quer ver seu sobrinho? - Indagou Eugnia.
- No, prefiro no o ver. Ele est bem?
- Sim, est. E um menino bonito e inteligente. Chamei-o aqui porque vou 
casar 
novamente e me mudar para longe. E tenho que ter sua autorizao para 
levar o menino - 
falou Eugnia.
- Minha irm tambm casou e o marido no pode saber desse fato, do filho. 
Voc quer o 
menino?
- Amo-o como se fosse meu. Fbio me deu sorte, com o dinheiro que o 
senhor nos manda 
no passamos necessidade. Ele  feliz conosco, queremos continuar com ele 
- disse 
Eugnia.
- Claro! - Respondeu Joaquim. - Para mim est bem, ele se acostumou com 
vocs, 
pode lev-lo. A senhora dar ao portador o endereo, darei um jeito de 
mandar dinheiro 
duas vezes ao ano para ele, at que fique adulto. Mas a senhora no 
poder lhe dizer nada. 
Est bem?
- Nem se quisesse dizer no poderia, no sei nem
seu nome.
Eugnia casou-se, mudaram e Fbio foi com eles. Ela era uma mulher 
simples, mas 
bondosa, gostava do menino como se fosse seu. Fbio cresceu, era esperto, 
estudou, dava-
se bem com os filhos de sua me adotiva, eram como irmos. As vezes ele 
queria saber de 
seus pais e ela contava o que supunha saber:
- Voc  filho de me solteira, foi seu tio que o trouxe para eu cri-lo 
e nos tem mandado 
dinheiro. Sua me casou-se depois e o marido no sabe que ela teve um 
filho. Certamente 
ela o ama, mas no pode ficar com voc.
- Sabe, me Eugnia, sinto que minha me me ama e que s vezes chora por 
mim - falou 
Fbio.
- No pense nisso, voc  meu filho, todos aqui gostam de voc.
As vezes ele ficava mais curioso, mas Eugnia realmente
s sabia o que lhe contara e aconselhava-o a no pensar
ou aborrecer.
123
- Isto foi h tempo. No deve tentar descobrir nada, voc est bem 
conosco,  o que 
importa.
Na adolescncia Fbio teve vontade de investigar, mas
no o fez. Afinal, nada lhe faltava, ele tinha famlia.
Joaquim, de tanto tomar as ervas, ficou impotente e com
mais cime da esposa. Esmeralda nada fazia para contra ri-lo, entendia-o 
e pensava:
"Ele sofreu com a morte de nosso filho, no demonstrou
para no me deixar pior. Queria outros filhos mas nada
falou, temendo me ofender, pois sou eu a culpada."
Joaquim s vezes olhava para a esposa e sentia remorso.
Ela era to boa! E ele sempre foi contra adoo.
- Esmeralda, se Deus no nos deu mais filhos deve ter suas razes. 
Depois, voc j ficou 
grvida uma vez, poder
ficar de novo.
Quando mais velho, dava desculpa da idade.
- J somos velhos e filhos no nos fazem falta, temos um ao outro.
Joaquim ficou doente, acamado e a esposa cuidou '
com muito carinho. Ele parou de mandar dinheiro, mas
Fbio j estava moo e j trabalhava.
Joaquim sofreu muito e desencarnou. Esmeralda se viu sozinha, estavam 
separados de 
todos. Compreendeu que tambm fora culpada, porque aceitou o que o esposo 
fizera. Antes 
de o esposo adoecer, escondida dele, Esmeralda ia muito num orfanato que 
ficava perto de 
sua casa e, viva, passou a trabalhar l como voluntria, dedicando todo 
seu tempo a cuidar 
dos nens. Fez um testamento deixando tudo o que tinha para a 
instituio. Desencarnou 
tranqilamente enquanto fazia mamadeiras no orfanato. Foi socorrida por 
desencarnados 
bons que trabalhavam ajudando as crianas ali abrigadas, levaram-na para 
uma colnia e 
logo estava bem.
"Queria ver meu Joaquim, desencarnou primeiro que eu
e no o vi."
Esmeralda pedia sempre. Aps um tempo em que estava trabalhando, sendo 
til, o 
orientador a chamou para
uma conversa.
124
- Esmeralda, Joaquim no est aqui na colnia. Est vagando no Umbral, 
para onde foi 
desde que desencarnou.
- Meu Joaquim? Mas por qu? Ele foi to bom... - Inda gou, surpresa.
- Voc poder visit-lo daqui a trs dias, eu a acompanharei. Iremos at 
onde ele est, 
mas prepare-se para saber
algo desagradvel e para perdoar.
Esmeralda ficou pensando e concluiu que talvez desconhecesse algo que o 
esposo tivesse 
feito para ter ido e j estar a tempo no Umbral. Talvez uma traio, mas 
isso no teria tanta 
importncia. Aguardou ansiosa a visita. Embora j tivesse estudado como 
era o Umbral, l 
teve um impacto e achou um lugar feio e sujo. Ao ver o esposo no canto de 
uma gruta 
escura, Esmeralda se apoiou no orientador e este lhe deu foras. 
Aproximaram-se:
- Joaquim!
Esmeralda! Voc aqui? - Exclamou ele, surpreso.
- Desencarnei tambm e vim v-lo. Por que est aqui, meu marido? - 
Indagou 
Esmeralda.
- O remorso...
Ia parar de falar, mas o orientador queria ajud-lo, queria que ele 
falasse a Esmeralda o que 
fez, que lhe pedisse
perdo, e ele falou pausadamente.
- Esmeralda, nosso filho no morreu...
Ele contou tudo, ela escutou, tremendo e chorando.
Quando ele acabou, fez-se um silncio profundo, at que ela
conseguiu falar:
- Meu Deus! Por que fez isso, Joaquim? No entende que nosso amor no ia 
ser 
diminudo? Que quando repartido ele aumenta? Como pde? Quero ir embora! 
Por favor, 
me leve daqui!
O orientador a levou, e Joaquim voltou ao seu canto. Voltaram  colnia; 
Esmeralda chorou 
muito. Aps desabafar, o orientador consolou-a:
- Voc precisava saber o que aconteceu, achamos que teria foras, que no 
se desesperaria 
e que o perdoaria.
- No vou me desesperar, choro porque o que ele fez foi algo que me 
chocou, nunca 
poderia imaginar,  inacreditavel 
 125
aterrorizante. Vou perdo-lo, quero fazer de tudo para no ter mgoa 
dele. O mais 
difcil ser ele se perdoar. Se meu filho est encarnado, quero v-lo. 
Por favor, leve-me 
para conhec-lo.
E Esmeralda foi conhecer Fbio, que j morava em outra
cidade, e havia ocorrido o acidente com os filhos de Anglica.
Pde sempre o visitar e o amou muito.
Esmeralda tambm perdoou Joaquim, foi muitas vezes
visit-lo, orient-lo, e foi aps muitos anos que ele pde ser
socorrido. No ficaram juntos, porm ela muito o ajudou.
Esmeralda quis saber se havia algum motivo para
Joaquim ter agido daquela forma.
"Ser que Joaquim e Fbio foram inimigos? Por que o
esposo teve tanto cime? Como ele pde fazer isso com seu
prprio filho?"
Foram indagaes que ela fez ao seu orientador, que,
para responder, foi com ela ao Departamento das Reencarnaes, na 
colnia, e Esmeralda 
pde ento saber.
Na sua encarnao anterior se encontrou com Joaquim, que a amou, mas ela 
era casada. Seu 
esposo no fora bom, bebia e a espancava, Joaquim queria que ela se 
separasse do marido 
para ficar com ele, mas ela no quis, alegou que no podia fazer isso por 
causa dos filhos. 
Ele ficou solteiro, sozinho, amando-a a distncia. Fbio, nessa 
encarnao, no tinha nada a 
ver com ele, no se conheciam, no foram inimigos, nem amigos. Seriam pai 
e filho.
- Muitas vezes, Esmeralda - explicou o orientador -, achamos que 
desentendimentos 
so s por encarnaes passadas. Acontece que aquele que no est 
harmonizado no amor 
faz sempre desafetos.
Joaquim, abrigado, passou a fazer tarefas, estudar e a
fazer um tratamento que o ajudou a se reequilibrar.
Fbio cresceu tendo Eugnia por me, os filhos dela como seus irmos e 
nunca procurou 
investigar ou saber mais sobre o mistrio do seu nascimento. Foi um moo 
cativante, 
bonito, falante, muitas jovens ficaram interessadas nele, inclusive 
Rosinha. Passaram a 
namorar e ele sentia que necessitava
126
proteg-la. s vezes esse sentimento era to forte que no conseguia 
entender. Rosinha no 
precisava de proteo, seu pai era muito bom, tinha uma famiia 
estruturada e feliz. Mas o 
pai dela no queria o namoro. Rosinha insistiu, ento o pai arrumou um 
bom emprego para 
Fbio no correio. Eles se casaram, viveram bem e tiveram trs filhos, 
dois meninos e uma 
menina. Ele foi promovido e transferido para uma outra cidade, que ficava 
longe da que 
eles moravam.
Gostaram da cidade. Logo que se mudaram, Fbio viu Anglica e no 
conseguiu pensar 
noutra coisa. Gostava da esposa, mas se apaixonou por Anglica, pareceu 
que ao v-la 
encontrara o grande amor de sua vida. Mas eram casados e tentou resistir 
 tentao de v-la
de marcar um encontro. Mas acabou fazendo. Sentiu que a amava muito 
quando a teve 
nos seus braos e tudo fazia para ir ao seu encontro. A esposa 
desconfiou, ele no queria 
mago-la, era muito boa, mas no conseguia ficar sem ver Anglica.
Quando aconteceu o acidente, todos ficaram sabendo. Rosinha chorou muito 
e Fbio sentiu-
se pssimo. A esposa mandou chamar o pai. Este veio, soube de tudo, no 
falou nada e 
voltou para sua casa, mas conseguiu transferir Fbio para longe daquela 
cidade.
- Fbio - disse Rosinha -, voc quer ir atrs dela ou quer cuidar de seus 
filhos? Talvez 
eles morram tambm sem voc.
Isso doeu muito nele, lembrou que fora filho adotivo e
que nunca soube quem eram seus pais. Sofreu com isso
e no tinha o direito de fazer seus filhos sofrerem. J bastava
o que tinha ocorrido com os filhos de Anglica.
- Fico com voc e com nossos filhos, me perdoe, Rosinha, foi uma loucura.
- Uma loucura que fez a infelicidade de muitas pessoas. Perdo porque 
temos filhos e eles 
merecem ter pai e me para
no serem como voc, um rfo na vida.
Embora se sentindo covarde, ele no procurou Anglica. Enquanto o pessoal 
da cidade 
procurava os filhos dela, ele foi a casa abandonada e escreveu o bilhete. 
S saa para ir 
trabalhar, e todos ao v-lo comentavam, e ele no sabia
127
como agir. Soube que o marido de Anglica a expulsou de casa e que fora 
para o convento, 
sentiu alvio, ali ela estaria protegida. Mudou com a famlia para longe. 
Nunca mais foi 
feliz. Amava mesmo Anglica e tinha remorso por no a ter ajudado, por 
ter agido errado, 
por no ter resistido  tentao de t-la. Achava-se culpado por tanta 
infelicidade. E tentou 
ser bom esposo, Rosinha o perdoou realmente, reconciliaram-se, iniciaram 
vida nova, onde 
ningum sabia do ocorrido, e tiveram mais dois filhos. Ele conseguiu ser 
bom pai e esposo. 
Rosinha desencarnou, ele ficou vivo, aposen tou-se e foi ajudar em 
trabalho voluntrio em 
um asilo, achan do que assim ficaria de alguma forma unido ao seu grande 
amor, pois 
soube que Anglica trabalhava tambm num asilo. Gostou do seu trabalho, 
passou a 
dedicar-lhe todo seu tempo e foi l que um dos abrigados lhe falou de 
certos ensinamentos, 
que embora no tivesse para eles o nome de Doutrina Esprita, era o 
conhecimento da 
verdade de uma forma simples e justa, uma outra forma de entender os 
ensinamentos de 
Jesus. Fbio se interessou muito e passou a vivenci-los.
Ele desencarnou, foi socorrido pelos espritos que ajudou
no asilo, logo se adaptou. Ativo, passou a trabalhar e a
estudar. Encontrou-se com Anglica, conversaram muito e
ele lhe pediu perdo.
- Perdoe-me, Anglica, fui covarde abandonando-a daquela forma. Erramos 
juntos e voc 
sofreu muito mais.
- Eu o compreendo, Fbio, e acho que agiu certo. No podia abandonar seus 
filhos. Tudo 
j passou e no h como mudar os acontecimentos. Fomos imprudentes, no 
resis timos, 
havamos combinado ficar separados. Eu o perdo, mas  difcil me 
perdoar. Devamos ter 
resistido e no ter descuidado de meus filhos.
- Fomos imprudentes, mas no fizemos por mal.
- No devamos ter feito, no tem justificativa - falou
Anglica:
Resolveram estudar, aproveitar a oportunidade para
aprender no plano espiritual e planejaram reencarnar.
Foi uma alegria para Fbio encontrar com sua me,
Esmeralda, mas chocou-se ao saber de tudo.
128
- No entendo! Por qu? - Indagou Fbio surpreso.
- Meu filho, Joaquim estava desequilibrado - explicou Esmeralda. - Seria 
to bom 
voc visit-lo, ele receber
seu perdo.
Fbio pediu um tempo para isso, achou incrvel toda sua histria. Meses 
depois, sentindo-se 
preparado, foi visitar o pai com sua me. Abraaram-se. Joaquim lhe pediu 
per do, 
chorando.
- No podia ter lhe feito isso, privei-o do amor de me, perdoe-me, meu 
filho.
- Perdo! Por que no esquecemos tudo isso? A vida continua e sempre 
temos 
oportunidade de aprender. Quem
no errou? Sejamos amigos.
Anglica queria reencarnar, queria esquecer, e Fbio
decidiu faz-lo tambm; pediram e seus pedidos foram atendidos. Ele rogou 
aos 
orientadores:
- Para melhor aproveitar essa reencarnao, queria, se possvel, ter por 
emprstimo bens 
materiais e aps perd-los.
- Seu pedido ser aceito; voc no ser muito rico, mas ter bens para 
administrar, e se for 
trabalhador, aps perder, no ser um necessitado. Mas como quer passar 
por isso? - 
Indagou um dos orientadores.
- Quero reencarnar entre uma famlia de posses financeira, ser rico e 
ficar pobre - falou 
Fbio, decidido.
- No prefere o contrrio? Talvez voc possa se revoltar.
-  isso que quero. Provar a mim mesmo que passarei por isso e no me 
revoltarei.
- Est bem, assim ser - disse o orientador.
Fbio e Anglica no fizeram planos de se reencontrar.
Ela disse:
- Que acontea o melhor para ns.
- No estaremos longe, mas tambm prefiro pensar como voc, que esse 
encontro seja 
para o nosso bem. Quero
aproveitar bem essa oportunidade da reencarnao.
- Eu tambm - falou Anglica.
E se reencontraram.
129
Com os filhos,
Todos estavam bem na Casa do Penhasco. Depois do acontecimento do copo, 
iam com
freqncia ao Centro Esprita, e faziam toda semana o Evangelho no Lar, 
liam livros 
espritas e Henrique participava da Mocidade Esprita e nada sentia de 
diferente. Fbio e 
Anglica tornaram-se realmente espritas e se amavam cada vez mais.
Anglica terminou o colegial e resolveram casar. Em bora ela estivesse 
feliz, preocupou-se, 
pensou muito. Como
priv-lo de ser pai? Resolveu conversar com ele.
- Fbio, amo voc, mas sabe que no poderei ter filhos.
- Soube disso logo aps a ter conhecido. Lembra? Voc me disse, achei at 
engraado, 
naquela poca s estava interessado em voc. Mas por que voc est 
preocupada com isso 
agora? Depois, filhos no so s os biolgicos. Sempre quis adotar uma 
criana, at fiz uma 
promessa. E verdade! Vou lhe contar como foi que a fiz. Sempre gostei 
dessas serras, desde 
pequeno passeio por elas: em excurses, com guias, com meu pai. "Uma vez, 
eu estava 
com dezenove anos, organizei um passeio com uma turma de crianas que 
tinham de dez a 
quinze anos. Fomos ao topo de uma das serras, fomos de caminho at a 
trilha e aps 
subimos todos contentes. L em cima  uma beleza, a vista  encantadora, 
fizemos o nosso 
piquenique e aps resolvemos ir mais adiante, seguin do uma outra trilha. 
Organizamos a 
fila e vi, preocupado,
Fi1ho
130
que faltava um dos garotos. Tentei no ficar nervoso, inda guei  turma, 
ningum o vira. 
Onde estaria Joo Alfredo? Era assim que chamava o garoto. Teria voltado? 
Descido? 
Ficado para trs? Onde estaria? Aps uma hora de procura, comecei a me 
desesperar. 
Organizei trs grupos para procur-lo, falei com a primeira turma: "Vo 
por esta trilha, mas 
no longe, caminhem por trinta minutos e depois voltem, mesmo se no 
encontrarem. Dois 
de vocs fiquem aqui, talvez ele tenha se afastado e volte. E vocs, do 
terceiro grupo, 
desam e peam ajuda antes que escurea. Eu vou procur-lo pela mata." 
Andei em volta, 
tentando no me perder, me machuquei todo, me arranhei e nada de ach-lo. 
Fui onde 
estava o segundo grupo, que ficou onde fizemos a merenda, o primeiro 
voltou e nada de 
encontr-lo. Desesperei-me, a responsabilidade era minha, fui eu que 
organizei o passeio, 
afastei-me deles, ajoelhei no cho e orei com f:
"Deus, nos ajude! Que Joo Alfredo seja encontrado!
Eu prometo, se o acharmos, que adoto uma criana!" Chorava e orava, 
quando escutei:
"Fbio! 1-lei, vocs, onde esto?"
Corri e l estava Joo Alfredo. Lgrimas correram abun dantes, chorei de 
alvio ao v-lo 
bem. O que aconteceu foi que Joo Alfredo se afastou sem falar nada para 
fazer suas 
necessidades biolgicas, achou um lugar convidativo e resolveu deitar, 
descansar uns 
minutos e dormiu. Incrvel que ele no tenha escutado nossos gritos, 
chamando-o. Sentimo-
nos aliviados e descemos em seguida. Encontramos junto ao caminho uma 
equipe que ia 
subir para nos ajudar a procur-lo. Nunca mais organizei excurses. 
Contei a minha me a 
promessa que fiz.
"Fbio - disse ela -' voc estava desesperado quando a fez. Depois, isso 
no se resolve 
sozinho, voc, para adotar uma criana, ter que obter o consentimento de 
sua esposa. 
Vamos pedir ao padre para mudar essa promessa".
Mas eu no quis e o tempo foi passando. Agora que
sou esprita, entendo que no se devem fazer promessas, no
se deve dar nada em troca por algo recebido, mas foi feito.
131
E seria para mim importante que voc, Anglica, concor dasse em adotar 
uma criana. 
Realmente no me importo em no os ter biologicamente, mas quero t-los 
por amor, pelo 
corao.
Fbio quietou-se e Anglica o abraou.
- No s um, mas dois, trs. Seremos bons pais, Fbio, cuidaremos, 
protegeremos nossos 
filhos. Filhos que Deus
nos dar.
O casamento deles foi uma festa muito bonita. Realizou-se no jardim da 
Casa do Penhasco, 
casaram s no civil. Ela vestiu-se com o traje tradicional de noiva, 
estava linda e, como 
Fbio, muito feliz.
- Fbio, sinto-me muito bem, tranqila. E to bom estar com voc e sentir 
que por isso 
no fizemos a infelicidade de
ningum! No  engraado ter essa sensao?
- No. Porque eu tambm sinto isso, tranqilidade. E ver todos felizes 
com a nossa 
felicidade  bom demais - falou
Fbio, rindo.
Foram morar num apartamento na cidade.
Fabiana passou na universidade, foi estudar fisioterapia em outra cidade. 
Namorava Leco, 
que tambm foi estudar fora. Henrique fazia planos de continuar os 
estudos. Roberto foi 
transferido, iriam mudar-se.
Fbio comprou a Casa do Penhasco e, assim que os sogros se mudaram, 
transferiram-se 
para l. A casa seria ideal para receb-los, pois planejaram adotar 
crianas, os filhos do 
corao.
Nena e Antonio ficaram com eles.
- Menina Anglica, gostamos muito daqui e agradecemos por nos deixar 
ficar. Ajudarei 
voc com as crianas - falou a empregada.
- Fbio e eu  que agradecemos. Ser bom t-los conosco, j que meus pais 
se mudaram. 
No me sentirei to sozinha
tendo vocs por perto.
O casal entrou na fila para a adoo na capital do estado, tiveram a 
promessa de que logo 
teriam um nen. Anglica
se ps a preparar o enxoval.
- Anglica - disse Fbio -, estou impressionado com um sonho que tive 
esta noite. 
Sonhei com uma senhora muito
132
bonita, tranqila, que me chamou de filho e, interessante, senti que era 
minha me, e ela me 
disse: "Logo, filho querido, estarei ao seu lado, como sua filha". 
Acordei com uma 
saudade imensa desse esprito.
- Fbio, pode ter sido esse esprito sua me em outra existncia e que se 
prepara para vir 
at ns. Que bom, fico
contente, teremos uma filha.
Mas foi no hospital da cidade que teve um rfo que a me abandonou. Fora 
uma moa que 
deixou um nome falso e num descuido fugiu do hospital, deixando o menino. 
O diretor 
chamou Fbio.
- A criana est aqui, podemos dar a vocs, ser um rfo a menos.
Fbio foi imediatamente falar com Anglica.
- O que faremos? No deve demorar para recebermos a criana que 
esperamos. Ficar com 
este? Mas  menino e
esperamos uma menina.
- Fbio, por que no ficamos com este menino e continuamos na fila? 
Talvez demore a 
que esperamos, mas se no
demorar, podemos muito bem ficar com os dois.
- Sinto, quero ficar esperando esta menina. Se voc acha que podemos 
ficar com os dois e 
que no ter importncia
serem pequenos, tudo bem.
- Nena me ajudar. Depois,  nossa inteno adotar mais de um. Vamos 
busc-lo.
Deram-lhe o nome de Marcelo. A criana encantou a todos, necessitava de 
cuidados 
especiais, era magrinho e fraco. Anglica e Nena, com carinho e mimos, 
trataram dele e 
logo estava bem. Trs meses depois, receberam o aviso para buscar uma 
menina. Fbio 
alegrou-se.
- E a minha menina, Anglica. Vamos busc-la, Nena ficar com Marcelo.
Foram no mesmo dia para a capital do estado buscar a
criana.
- E a nossa Melina! Amo voc, filhinha! - Exclamou Fbio ao v-la.
Felizes, trouxeram-na para casa.
133
Carmelo, que continuava com eles, ficou muito contente. Marcelo era 
Joaquim, o pai que 
abandonou Fbio e que agora vinha para uma reconciliao, como tambm o 
casal se 
incumbira de ensin-lo a amar de forma verdadeira. Melina fora Esmeralda, 
no precisava 
esse esprito ser abandonado, mas confiou em Carmelo, que tudo fez para 
encaminh-la 
para junto de Fbio, seu filho amado, j que Anglica no poderia 
conceber. Depois, como 
Esmeralda disse: "Pais so os que criam e o amor no  s pelos que 
geram." E ela tinha, 
tem razo. Assim, Fbio teve em seu lar espritos reencar nados que foram 
seus pais e 
agora, como filhos, reatariam laos de carinho.
Reformaram a casa, fizeram do local uma diverso para
os filhos.
As crianas estavam com dois anos quando um empregado de Fbio 
desencarnou, 
deixando a esposa grvida. Este casal chegou na cidade precisando muito 
de ajuda, vieram 
de longe  procura de emprego. Fbio arrumou para ele limpar terrenos, um 
lugar para 
morar e colocou os filhos na creche que Anglica cuidava. Com alimentos e 
remdios, logo 
as crianas ficaram sadias. Ele desencarnou de repente, tinha doena de 
Chagas. A mulher 
foi falar com ele.
- Senhor Fbio, o senhor  muito bom, tem nos ajudado muito, tenho trs 
filhos e este ser 
o quarto. Quero ir embora para meu estado, para a cidade onde moram meus 
pais, assim 
que meu filho nascer. Queria que o senhor me ajudasse a ir e que ficasse 
com este que estou 
esperando.
- Vou ajud-la!
E nasceu mais um menino, Milton. Fbio e Anglica receberam mais um 
filho, um 
negrinho lindo e sadio, e a mulher
com os outros foram embora e nunca mais voltaram.
o  os        s de ci ha'.n.a ima "tenina 
adoo, pois eles continuavam na lista. Foram buscar Mnica, uma criana 
linda e sadia.
- Bem, agora a famlia est completa! - Exclamou Ang lica. - Quatro 
filhos!
- Parece que falta um - falou Nena, rindo -, o do nome que comea com Mu.
134
As crianas cresciam fortes, sem problemas e muito amadas. Melina tinha 
adorao pelo 
pai. Podia estar fazendo o
que fosse que, ao v-lo chegar em casa, corria para abra-lo.
- Meu papai querido! Meu filhinho!
Todos riam, achando graa.
Nena e Antonio ajudavam Anglica a cuidar dos filhos. As crianas 
gostavam muito deles e 
os chamavam de avs.
Fbio estava bem financeiramente. Tinha uma rede de sorveteria pelo 
litoral e imobilirias. 
Era bom patro, dava emprego a muitas pessoas, fazia de tudo para que 
seus em pregados 
estudassem e por meio da imobiliria arrumava emprego para muitos.
Tentou pedir a polticos que fizessem uma creche no povoado. No 
conseguindo, ele 
mesmo a fez e Anglica tomava conta. Ali ficavam crianas para que as 
mes pudessem tra 
balhar. Vendo que necessitavam de um pronto-socorro, ele o fez, dando 
emprego a muitas 
pessoas. Sustentava sozinho aquele benefcio. Anglica gostava de 
trabalhar l, cuidava 
daquela gente, orientando, ensinando-os at a ter higiene.
Os dois tambm ajudavam muito na assistncia social
do Centro Esprita que freqentavam.
Roberto e Dinia os visitavam sempre e Henrique passava as frias com 
eles, eram avs e 
tios corujas. Como tambm a famlia de Fbio, que morava na cidade, amava 
as crianas e 
estavam sempre juntos.
Foi ento que Fbio teve uma oferta tentadora: comprar
uma chcara grande para lotear.
- Parece, Anglica, que  um timo negcio, mas para ter dinheiro para 
compr-la, terei 
de me desfazer, vender
muitos bens que possumos, e talvez at fazer um emprstimo.
- Pense ento Fbio. Faa o que lhe parecer melhor, no entendo de 
negcios. Mas sinto 
vender as sorveterias, voc faz um trabalho to bonito com os garotos que 
emprega, 
pagando-os todos os meses e exigindo que estudem. Se recebessem s quando 
trabalhassem no iriam estudar, pois vendem sorvete s nas frias, 
feriados e finais de 
semana. D a eles assistncia mdica e est sempre orientando-os
135
e aconselhando-os. Ser que quem comprar as sorveterias
far isso?
- Tenho que ponderar isso tambm. Mas essa chcara me parece um bom 
negcio.
E Fbio resolveu pensar mais um pouco.
Carmelo estava ansioso, esperava uma resposta e que o
acontecimento planejado se realizasse a contento.
Lembrou que, uns dias atrs, ele tinha ido  colnia e pedira uma 
audincia com 
orientadores para falar sobre Fbio.
- Sei que Fbio planejou ter por emprstimo, nessa encar nao, bens 
materiais e perd-
los aps. Mas esse acontecimento envolver muitas famlias, pessoas. Ele 
administra 
imobilirias, uma rede de sorveteria, emprega muitos indiv duos. E ativo 
na assistncia 
social do Centro Esprita que freqentam, tem boas idias, financia 
empreendimentos e, 
com o seu dinheiro, so sustentadas muitas famlias. Tambm tem o 
trabalho que ele faz 
com garotos que estariam na rua se no fosse o que lhes oferece. E h a 
creche no povoado, 
O sustento do pronto-socorro e o abrigo para as crianas fica caro e, se 
ele perder, tudo ir 
ser fechado. E ali o nico lugar que as mes pobres tm para deixar com 
segurana os filhos 
para trabalhar, e os doentes tm mdico e remdios de graa.
Os orientadores ficaram de estudar e dar a resposta a ele. Tambm Carmelo 
aguardava 
esperanoso o desenrolar de outro acontecimento. Lembrava da conversa que 
ele teve 
meses atrs com Osvaldo, sim, aquele que por tempo estivera assombrando a 
Casa do 
Penhasco.
- Quero, Carmelo, reencarnar, preciso esquecer os erros que tanto me 
incomodam, quero 
recomear para aprender. Desejo tanto ser filho de Fbio e Anglica, a 
minha Carequi nha, 
que agora tem lindos cabelos longos. Que bom seria se eles me aceitassem 
como filho, estar 
nessa casa no mais como intruso, mas como parte da famlia.
- No posso prometer por eles, mas posso por mim. Vamos planejar, tenho 
certeza de que 
eles no o recusaro.
Um circo pobre passou pela cidade, uma jovem solteira
sentiu-se mal, foi para o hospital e o mdico constatou uma
136
gravidez de alto risco. Teve de ficar internada e quando teve alta foi 
para o abrigo do 
Centro Esprita, um albergue que no s dava pouso como tambm hospedava 
temporaria 
mente pessoas que no tinham onde ficar. Essa moa estava aflita, longe 
dos seus 
familiares, porque o pessoal do circo seguiu viagem, e tambm no sabia 
como fazer para 
criar seu filho.
O mdico que a atendeu preocupou-se com ela, estava a moa correndo risco 
de vida. 
Carmelo e outros amigos tentaram ajud-la; pouco puderam fazer; Aquela 
gravidez 
atrapalhava sua vida, queria estar no circo, fazer suas acrobacias e 
interpretar seus papis 
de teatro, aquele tempo parada a tiraria do ritmo e de forma. Ficava 
calada remoendo sua 
revolta. Esta  a me de Osvaldo, esse esprito que, tendo outra 
oportunidade de reencarnar 
para um recomeo, para uma aprendizagem, ia, por meio dessa maravilha que 
 a en 
carnao, ter outro corpo para viver um tempo no plano fsico.
Na noite de sbado, no horrio marcado, Carmelo foi 
colnia, onde um orientador o recebeu.
- Temos a resposta, Carmelo. Pensando no bem-estar de muitos que vivem 
das atividades 
de Fbio, ele continuar rico!
Carmelo sorriu aliviado e o orientador completou:
- Sendo para o bem, podem-se mudar os planos feitos antes de reencarnar. 
Pelo livre-
arbtrio muda-se tanto para o bem, o melhor, como para o mal. So muitos 
os fracassados 
que planejam isso e aquilo e a iluso da matria os faz esquecer e deixam 
de fazer. Como 
tambm se podem anular reaes desagradveis pelo amor, pelo bem feito a 
companheiros 
de jornada. Fbio queria, por isso planejou ficar pobre e no se 
revoltar, mas ele j provou a 
si mesmo que no o far, a revolta no faz parte do seu carter. E ele 
fez com o emprstimo 
que recebeu de posses financeiras, usou de tal modo que no ser ele s o 
envolvido; se ele 
ficasse pobre seriam muitos a ficar muito mais. E tambm so muitas as 
oraes de gratido 
que nos chegam, pedindo proteo a ele e a sua famlia. Muitas pessoas 
no sabem como 
seria a vida sem a ajuda de Fbio. Gratido  uma
137
fora imensa e a bno desse sentimento fortalece, inspirando para o 
melhor. Para Fbio, 
que est provado que  desprendido, ficar pobre seria um perodo de 
trabalho a mais; 
realmente os mais prejudicados seriam os que ele ajuda. Por isso, 
Carmelo, Fbio 
continuar com esses emprstimos, por que cuida bem deles,  fiel 
depositrio e merece 
receber mais*.
No domingo de manh, quando Fbio levantou-se,
Anglica j estava na sala com os quatro filhos.
- Anglica - disse ele -, hoje levantei me sentindo timo. Decidi no 
comprar aquela 
chcara. No sei como pude pensar em tal investimento. Eles esto me 
pressionando; vou 
agora dar minha resposta: ser, definitivamente, no. E como me sinto 
aliviado!
- Que bom, Fbio! No estava gostando de v-lo preo cupado. Acho que 
tomou a melhor 
soluo, no queria que vendesse as sorveterias e deixasse o projeto com 
aqueles garotos 
que estudam e trabalham.
Fbio foi ao telefone e falou com a pessoa que lhe queria
vender as terras, ele ainda insistiu, mas o esposo de Anglica
foi taxativo e descartou de vez o negcio.
O telefone tocou, Fbio atendeu e aps foi at a esposa:
- Anglica, sabe aquela moa do circo que estava grvida? Ela desencarnou 
na sexta-feira 
no parto, deixou rfo um garotinho. Telefonaram do hospital me dando a 
notcia, como 
tambm que avisaram a familia no circo e que veio s a me dela para o 
enterro e que esta 
no quis levar a criana, deixou-a para ser adotada. Disseram que ele  
pequenino, mas 
sadio.
Olharam-se, entenderam, Anglica levantou e falou:
- Vamos?
- Sim! - Respondeu Fbio.
Anglica gritou para Nena, que estava na cozinha.
- Nena, olha as crianas para mim que vou ali e j volto.
- Ali onde? - Perguntou Nena, indo para a sala.
*  interessante notar que Fbio tinha seu livre-arbtrio e poderia no 
ter atendi do ao 
conselho dos mentores. A deciso final foi de Fbio (N.E.).
138
- Buscar... Voltamos logo! - Respondeu Anglica.
E de fato, uns quarenta e cinco minutos aps voltaram e foram para a sala 
onde Nena estava 
com as crianas. Anglica sentou-se. A garotada, curiosa, aproximou-se e 
olhou o que ela 
tinha nos braos.
- Venham ver, este  o mais novo membro de nossa famlia, o irmozinho de 
vocs.
- Como ele chama? - Perguntou Mnica.
- Murilo! - Respondeu Fbio.
- Ele no tem dente - falou Milton.
- E muito pequeno - disse Melina, observando-o.
- Voc tambm foi pequenina, ele crescer logo - explicou Fbio.
Murilo bocejou e sorriu. Todos riram. Anglica os olhou, amava-os e em 
pensamento 
agradeceu a Deus pelos filhos, pela oportunidade de ser me. Aconchegou o 
nen junto ao 
corao. Fbio, emocionado, no quis chorar, mas duas lgrimas escorreram 
pelo rosto e 
exclamou em voz alta:
- Obrigado, Papai do Cu, pela famlia que temos!

Ao terminar a leitura deste livro, provavelmente voc tenha ficado com 
algumas dvidas e 
perguntas a fazer, o que  um bom sinal. Sinal de que est em busca de 
explicaes para a 
vida. Todas as respostas de que voc precisa esto nas Obras Bsicas de 
Allan Kardec.
Se voc gostou deste livro, o que acha de fazer com que outras pessoas 
venham a conhec-
lo tambm? Poderia coment-lo com aquelas do seu relacionamento, dar de 
presente a 
algum que talvez esteja precisando ou at mesmo emprestar quele que no 
tem condies 
de compr-lo. O importante  a divulgao da boa leitura, principalmente 
a literatura 
esprita. Entre nessa corrente!
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Livros de Antnio Carlos
Psicografados pela mdium
O que h por trs da unio de seres que se encon tram inesperadamente?
Nesta emocionante narrativa, o leitor ir acompanhar a trajetria de duas 
almas afins que 
decidem compartilhar seus sonhos, alegrias e desventuras, apesar de todos 
os obstculos 
que tero de enfrentar no caminho. Um romance que fala de encontros, 
desencontros e do 
afeto ressurgido entre duas criaturas que se reen contram para viver sua 
histria de amor, 
agora ainda mais bela e intensa.
Ana, jovem professora de lnguas, procura uma nova vida. Atende a um 
anncio de jornal 
que 'coincidentemente' pe de os requisitos que ela possui. Sem saber, 
parte para um 
reencontro e devido a sua mediunidade depara-se com situa es e vises 
muito es tranhas, 
que no decorrer do romance vo se encaixando, trazendo para ajovem um 
modo diferente 
de entender o por qu de muitas coisas.
Vera Lcia Marinzeck de Carvalho
Novamente Juntos
t
RECONCILIAO COPOS QUE ANDAM A MANSO DA PEDRA TORTA
Fascinante, comovente Um livro que, em fun e esclarecedora nar- o do 
prprio tema, 
rativa, um livro que todos deveriam ler e agradar a todos. Sua divulgar, 
pois aborda trama 
envolvente co mea com um duplo os perigos de invocar
espritos por meio
assassinato: o pai ma tando a golpes de faca de objetos, tais como
suaesposaeseufilho. copos e pndulos. Mas, aps todo este Muitas so as 
hist drama, o 
leitor viver rias que entremeiam uma profunda lio de a narrativa, 
destacan amor, 
solidariedade, do a da garota Nely, abnegao e ternura, que  induzida 
pelos num relato 
maravilho- espritos inferiores a samente comovente.
matar o prprio pai e
Voc ir se apaixonar a suicidar-se.
por ele!
ALENDADE PEQ1JENL
No meio de campos verdejantes, ouvindo a msica dos ventos e a poesia dos 
rios, Pe quena 
Flor e Aguia Veloz vivem sua histria dc amor, enquanto os brancos 
exterminam a nao 
indgena. De um lado, crueldade e violncia; de outro, ternura e amor. Um 
livro que mescla 
a aventura de sangrentas bata lhas com momentos de grande paixo, mos 
trando-nos que os 
laos criados entre os espritos ultrapassam as barreiras do tempo e 
sobrevivem  morte.
HERDEIROS DO DESTINO
Heleno, instrutor de uma colnia espiritual, para exemplificar o que  
Lei de Ao e 
Reao, narra a vida de Henriette, jovem que vivia numa regio da Frana 
invadida pelos 
alemes e que, apesar de ser filha do lder da resistncia francesa, 
apaixonou-se pelo 
comandante do exrcito alemo. Pai xo. traio e ressentimento, 
misturados a importantes 
ensinamentos espritas, so os ingredientes que fazem deste livro agrad 
vel e proveitosa 
leitura.
LIVROS Ei
LUIZ SERGIO
OS ANDARILHOS
Ao buscar a cura para um mal fsico apa rentemente sem soluo, Otvio  
sub metido a 
uma terapia de regresso a vidas passadas. Por meio de uma narrativa 
envolvente, o autor 
nos traz importantes reflexes acerca do papel do sofrimento na evoluo 
do homem e a 
importncia da reencarnao. Uma leitura agradvel que nos permitir 
encarar cada dia 
como mais uma oportunidade de crescimento.
por
Lada M &
ABOR MO. SOU ADOL
UQ.        Contestadores, alegres e extrovertidos, os personagens deste
livro representam o intrigante universo adolescente. Assuntos
como vcios, dificuldades de relacionamento com os pais, vio
lncia e namoro so tratados com profundidade. Como na
r        fazem respeitar e afirmam com segurana: Aborrecente,
f j        realidade, neste livro os jovens defendem seus valores, se
no. Sou adolescente!
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Clssico
do Espiritismo ganha a modernidade
Um clssico do Espiritismo, lanamento da Petit Editora. Edio moderna, 
traduzida em 
linguagem atualizada, fcil de ler. As notas e hipertextos ilustrados 
facilitam o estudo e o 
entendimento.Voc poder com prar e ler, separadamente, cada um dos trs 
volumes.
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mais, seus conhecimentos relativos  espiritualidade.
dos novos
tempos
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BIBLIOTECA BSIC ESPRITA POR
ALLAN KARDEC
O Livro dos Espfrii
Por que tanto sofrimento, tanta desigu de; por que h pessoas saudveis e 
o doentes; bebs 
que nascem e morrem mas horas depois? Essa  uma pequena amostra dos n 
temas tratados 
neste livro, que fala so vida e a morte, o sofrimento e a aleg amor e o 
dio, nos dando uma 
idia e principalmente lgica da sabedc justia de Deus.
1
O
Evangelho Segund4
Espirkis
1
s portas do terceiro milnio, a Pet a sua edio de O Evangelho S
do o Espiritismo. Com uma lingu fcil, para que um maior nm pessoas 
possa entend-lo, 
ele fl(
-- parar com segurana para co tilharmos uma sociedade ren
Em quatro verses: brochura, espiral, capa dura e de bolso.

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